sexta-feira, 11 de setembro de 2015

SOLIDÃO



SOLIDÃO
                                                                             Desci da minha
                                                                             Torre de marfim
E não achei mundo nenhum (Jack Kerouac)

Esfregando ininterruptamente as mãos, o padre Arlindo buscava espantar o frio que congelava os dedos e lacrimejava seus olhos. Por um instante, acreditou tratar-se de lágrimas resultantes da indiferença demonstrada pelas pessoas daquela vila, mas na verdade, no fundo de seu coração, ele já havia perdoado a todos da mesma maneira que Jesus o tinha feito no passado. E esta confiança depositada nas palavras provindas do evangelho contribuiu para espantar o medo de seu coração, trazido principalmente pelo vento e pelo uivo dos lobos.
A princípio, seus passos vacilaram. A neve chegara pouco acima dos tornozelos, e a visão de uma chama no pico da montanha o intrigara e imobilizara seus pés. Sem saber o real significado daquele clarão, Arlindo continuou em frente cercado por duas fileiras de casas, tanto à sua direita quanto à esquerda. Das janelas era possível perceber que a celebração natalina seria auspiciosa, graças ao retorno da energia elétrica e a certeza de vinho em abundância. Entretanto, em nenhum momento passou pela sua cabeça compartilhar daquela alegria com aqueles moradores, mesmo não existindo cercas ou muros dividindo as residências. Aquilo, como já havia percebido em outras oportunidades, parecia uma brincadeira de mau-gosto, algo como um convite a bater canelas estrada a fora tendo no encalço algum cachorro raivoso pronto para agarrar a primeira perna que encontrasse.
Com tudo isto em mente, Arlindo não se incomodou com as janelas que eram fechadas ou com as cortinas que deslizavam bruscamente, aceitava tranquilamente sua fama de inconveniente e deixara para Deus julgar suas ações. Assim, convicto e, percorrendo o olhar pelas moradias, percebeu uma cujas luzes não estavam acesas. Era a de Ricardo. Um jovem que havia deixado o Brasil após as eleições presidenciais de 2014 e bradava ter feito a melhor opção, devido, principalmente, aos boatos de um possível golpe de Estado e a volta da ditadura militar.
Ricardo morava sozinho. Aspecto comprovado no momento em que Arlindo adentrou o recinto e vasculhou as paredes em busca de um disjuntor. Com o imóvel iluminado, tudo foi fazendo sentido: a árvore quebrada, as roupas espalhadas pelo chão, o aparelho de TV fora do ar e as garrafas de vinho esvaziadas. Sim, a solidão retira as energias e nos faz recolhermo-nos antes da troca de presentes. Desta maneira, vasculhou o quarto em busca de algum sinal de vida. Nada encontrou. Somente a cama inusitadamente arrumada e uma folha de caderno repousando sobre ela. Era algo estranho, e o silêncio era tamanho que seria possível ouvir as batidas de seu coração do outro lado da rua.
Então, aproximou-se e apanhou o pequeno pedaço de papel. Desdobrando as três partes com cuidado, começou a leitura:
CARTA DE DESPEDIDA
                                                                                             Para Aldolino (meu pai)
Já faz exatamente uma hora que estou aqui sentado nesta praça. Propositalmente, deixo o ônibus seguir seu caminho. Observo os rostos em busca do seu. Na verdade, já perdi as contas de quantas vezes acreditei ser você no meio da multidão. Mas sejamos sinceros: acabou. Minha indiferença moldou o presente e não deve alterar o futuro. É certo que criei uma couraça para me defender de tudo o que vinha de você e, de certa maneira, deu certo. Ou é o que eu achava. Quando o telefone tocou, pensei que era você do outro lado da linha. Mas não era. Outro telefonema seu? Não nesta vida.
Resolvi fazer um esforço e caminhar até o local onde você está. Sabia, desde já, que muitas lembranças iriam acompanhar-me neste trajeto. Mesmo assim, fui até o seu encontro. Pergunto-me desde já: por que tanta luta? Digo isso porque fiquei impressionado com a nossa ignorância. Você, deitado naquela maca, orgulhava-se por ter impedido que lhe amputassem a perna. Eu, parado em frente à porta do hospital, travava uma batalha sem fim contra o meu orgulho e o fato de nunca ter demonstrado fraqueza. Na verdade, ambos desperdiçamos a nossa chance. Eis o fato.
Cheguei pela manhã e, infelizmente, as visitas ocorriam apenas no período da tarde. Sim, naquela hora pude perceber que no fundo eu me importava. Esperei as atendentes se distraírem e atravessei o corredor em busca do seu quarto. Um pouco antes, percebi seu nome escrito numa lousa. Quer saber o que estava escrito? Gravíssimo. Não que você já não soubesse. Afinal, sua determinação em melhorar contrastava com o pacote repleto de remédios ao qual você se apegava com tanto afinco. Foi difícil deixar aquele lugar, mas aquilo era uma despedida, e acredito que a morfina era a melhor companhia a partir de então. Por mais que eu quisesse ficar.
Daí você se foi. Então, restava apenas uma coisa a fazer: deixar o rio levar aquilo que o fogo jamais poderia extinguir. Porque, mesmo ele, o rio, jamais conseguirá levar consigo o absurdo desta existência. E por que digo isso? Pelo simples fato de que nunca esquecerei as palavras que me vieram à mente no momento em que fui buscar suas cinzas no crematório e o atendente disse: “Seu pai está ali, naquela prateleira, dentro da ânfora”. É ridículo, eu sei, mas nada mudou desde então, tudo permanece igual: Éramos duas pessoas que nasceram e precisavam viver... mesmo muitas vezes não querendo.  
Blumenau, 12/12/2012
O padre Arlindo percebeu que a mensagem era interrompida de forma abrupta e entendia perfeitamente a razão de tudo aquilo. Nesta vida, tudo terminava muitas vezes sem explicações. Era como suas pregações, lembrava, as quais sempre terminavam com um sermão contra aqueles que desvirtuavam o real sentido do sangue de Cristo e seu exemplo. Agitado por estas reflexões tornou a dobrá-la e recolocou-a sobre a cama. Virou-se e estudou o ambiente à sua volta. Nas paredes, mensagens coladas expunham frases e sentenças filosóficas. No teto, figuras de planetas e astronautas decoravam-na e lembravam que além dos limites do planeta Terra poderia existir outras possibilidades, alguma realidade diferente, longe de todo este silêncio forçado e opressor.
 Então, já pronto para partir, Arlindo sentiu de súbito a corrente de ar e tomou consciência das cortinas esvoaçantes. Após um espirro anunciar a chegada de um resfriado, dirigiu-se à janela. A intensidade da nevasca era impressionante. Era praticamente impossível visualizar qualquer coisa que fosse naquela tempestade, exceto, uma grande fogueira no topo da montanha. E, de repente, esgueirando-se pela porta entreaberta, apagou as luzes e, ao fechar a porta as suas costas, disse para si mesmo: Espero que você encontre aquilo que procura meu filho. Que volte a encontrar os seus. Nem que seja em outro mundo.

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