sexta-feira, 11 de setembro de 2015

O RETORNO DO PAPA



Deixando os cumes nevados e as extensas campinas revelarem o mistério da criação ou mesmo a presença da divindade, ele observava obstinadamente os flocos de neve contornarem a estátua que saudava os visitantes. Localizada na região central da Itália, a igreja San Pietro della Lenca ou santuário João Paulo II, era o refúgio ideal para aqueles que faziam da contemplação e do silêncio o alimento de suas existências. Alternando infinitamente entre uma faceta realista e outra sonhadora, Ricardo não pôde perceber que seus pensamentos começavam a ganhar voz, criando um ambiente de loucura no interior do veículo. Voltando a si devido ao resfriado contraído por sua passageira, comentou enquanto revirava o porta-luvas: — Antes de irmos, não se esqueça de verificar se as portas estão bem trancadas, tudo bem? Limpando o vidro embaçado, Penélope respondeu com um ar de irritação resultante das baixas temperaturas, enquanto deixava o automóvel: — Ninguém roubaria o carro num frio desses, ninguém sobe esta colina num tempo desses!  
Afundando as botas sobre a neve fofa e ignorando por completo as rajadas que cortavam seu rosto, Ricardo seguiu forçosamente em direção à imagem e, após fazer uma varredura completa, perguntou: — A câmera está ligada? Confira se está tudo funcionando perfeitamente. Precisamos ser rápidos, logo vai começar a missa. Com um dos joelhos ainda dobrados, Penélope deu um close em seu amigo e falou: — O equipamento de gravação está pronto. Só não entendo por que do revólver. Você acha que os ladrões podem voltar? Com uma das mãos apoiada no cabo de sua pistola, ele argumentou: — Mesmo estando de folga, continuo policial. Lembra? Excesso de prudência nunca foi um pecado. Sua falta é. E falando em pecado... , disse, indicando a escultura de bronze. Posicionada ao seu lado e observando-a através de sua lente, Penélope foi concluindo a frase: — Karol Józef Wojtyla...
Forçando a porta da igreja, Ricardo mostrou gentileza e deixou que Penélope adentrasse o recinto. Ali, ambos reservaram algum tempo para conhecer o ambiente. Primeiramente, constataram uma diminuição na opressão causada pelo frio. Depois, perceberam duas fileiras de bancos, tanto à direita quanto à esquerda. E, por último, um estreito caminho que levava ao altar. Mudos, ambos foram em sua direção. Duas chamas insistiam em tremeluzir e uma bíblia parecia esquecida sobre a mesa. Pousando a câmera sobre ela, Penélope comentou: — Parece que o relicário roubado já foi recuperado. Era por isso que viemos até aqui, não? Era esse o motivo da inquietação? Se foi, caso encerrado e já podemos voltar. Calado, voltado para uma pintura de João Paulo II que cobria boa parte da parede, Ricardo questionou: — Caso resolvido? É o que você acha? Tudo bem. Vamos, diga-me o que você sabe sobre ele até o momento?
Tateando os bolsos do sobretudo, ela apanhou um caderno de notas e, ao folhear as primeiras páginas, começou:
— Ora, sei aquilo que todo mundo sabe. São informações coletadas junto aos órgãos responsáveis pela investigação, da qual você faz parte. Deixe-me ver... o roubo do relicário contendo o sangue de João Paulo II ocorreu no dia 27 de janeiro de 2014. Invadiram esta mesma igreja na madrugada de domingo para segunda e levaram uma das últimas amostras de sangue coletadas após a tentativa de assassinato sofrida em 1981. Logo após o ocorrido, uma força tarefa da polícia italiana, apoiada por cães farejadores, vasculhou toda a região em busca dos responsáveis. Alguns dias depois, encontraram três suspeitos que confessaram o delito. Diziam que estavam atrás dos fios de ouro que adornavam o crucifixo, mas não sabiam da existência do sangue. A peça onde a pequena cruz ficava guardada foi encontrada nos arredores da casa de um dos bandidos. Da mesma forma que a ampola. Porém, esta estava vazia.
Terminado o relato, Ricardo tateou os arranjos de flores e sentiu a fragrância e toda sua delicadeza. Não olhou para Penélope. Disse instantes depois de sacar a arma e apontá-la para o rosto da jovem: — Outro dia eu tive um sonho. Permita-me contá-lo. Estava no futuro, entre as décadas de 2040 e 2050. Ainda trabalhava como policial. Entretanto, estava velho, doente e preparado para morrer. Havia deixado a fé para trás. Gangues ditavam as leis das ruas e não era fácil conter a barbárie. Todos os dias eram expedidos sentenças de exílio espacial, decorrentes dos confrontos por água e comida. As ruas e avenidas estavam decoradas com cartazes que diziam que para um mundo sem amor o Papa iria voltar. Então, num final de tarde, quando tentávamos capturar dois líderes de gangues locais, descobri que os mesmos estavam apoiando uma organização religiosa chamada Wojtylas. Existia a suspeita de que eles tinham um plano de clonar Karól Wojtyla. Quando descobri o paradeiro daqueles delinquentes, tive a comprovação de que não se tratava de um boato. Lá estava ele, sob a cabeça de centenas de marginais, no alto de um prédio, vestindo um manto e apoiando-se em seu cajado. Dizia algumas frases inaudíveis daquela distância. Só consegui discernir seu rosto minutos depois, com o corpo já inanimado sobre o cimento. Quando olhei novamente para o alto e tentei compreender o que tinha acontecido, despertei.
Penélope abismada com aquela conversa e com o fato de ter uma pistola apontada para seu rosto, perguntou: — Por que você está falando isso? Não estou entendendo. Com o término de uma gargalhada, ele falou: — Desculpe pela brincadeira. Você deve estar achando que enlouqueci. Não tiro a sua razão. Mas deixe eu te perguntar uma coisa antes de tudo: qual foi o primeiro pensamento que te ocorreu quando você leu sobre o roubo do sangue? Da minha parte foi instantâneo: irão cloná-lo. Sim, parecia óbvio. Ainda mais sabendo dos tipos de interesses diabólicos que movem os homens. E foi por causa deste tipo de inclinação, para o mal, que estou aqui. Primeiramente, peço desculpa por ficar o tempo todo com esta arma apontada para você. Necessito que entenda: eu precisava me confessar, necessitava de uma testemunha. E por isso a convidei. Por favor, ligue a câmera e grave. Como você mesmo comentou, o sangue nunca foi encontrado. Não foi porque eu não quis que fosse. Eles ofereceram seus serviços e eu aceitei. Não foi difícil retirar um pouco do sangue e guardá-lo.
 Aquele sonho era prova suficiente para dar crédito ao que eles pregavam. Era uma visão do nosso futuro, do meu futuro. Lá, eu estava sozinho, completamente só, lutando por uma causa perdida, juntando dinheiro para encomendar um novo irmão, uma nova mãe, um novo pai, tudo para reviver minhas lembranças mais queridas. Mas você sabe, eles não seriam os mesmos. Não existe outra chance nesta vida. Agora, uma coisa é certa: sinto-me mortalmente esmagado pelo arrependimento.
E, ao baixar a cabeça por um momento, Ricardo virou-se e engatilhou a arma na direção do quadro de João Paulo II. Repetindo várias vezes um sinal de negativo, gritou: — Você acha que isso aí é amor? Acredita mesmo na consolação de uma imagem? Nem mesmo a ideia de trazê-lo de volta bastará. Não, nada disso. Por trás destes substitutos se esconde apenas o vazio, o nada, o desespero! É uma pena que demorei tanto para entender. Agora, porém, já é tarde demais. O Papa voltará para um mundo sem amor. E eu voltarei também, assim como minha querida família. Mas colocar algo no lugar daquilo que nunca esteve, não torna aquela coisa realmente presente. Muito menos verdadeira.
Com o acionar do estopim, um furo surgiu no centro da pintura. Neste ínterim, entre o disparo e o retirar das mãos que protegiam os tímpanos, Penélope pôde perceber a porta da igreja sendo arranhada e forçada pelo lado de fora, revelando a chegada de cães e policiais. Com inúmeras armas e rugidos apontados em sua direção, só teve tempo de olhar para trás, num primeiro momento imaginando o pior, para somente segundos depois constatar com alívio que Ricardo estava ajoelhado e com os braços erguidos, sussurrando com a cabeça baixa: eu me rendo...

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