sexta-feira, 11 de setembro de 2015

DE VOLTA A GATLIN



Eu não conhecia o caminho, mas bastava olhar em direção ao horizonte para ter a noção exata de que estávamos seguindo na direção certa: pés de milho à altura do motorista e um cheiro característico inundavam todo o interior do caminhão. Fui aconselhado a deixar de lado todo aquele mistério e superstição. Mas como poderia? Parecia, pelo menos para mim, que existia uma estranha ligação envolvendo aquele lugar, seus moradores e a fome presente em nosso cotidiano. Afinal, eu não estava tão certo que eles eram uma exceção em relação à crise alimentar que afligia a maioria dos estados americanos. Não sei, digam o que quiserem, mas ninguém tirava da minha cabeça de que era uma recompensa injustificada. O que aquelas pessoas haviam realizado de tão significativo para obter toda aquela prosperidade? Eu não sabia responder, porém, meu novo companheiro de viagem parecia pressentir o que se passava dentro de mim e, sem tirar os olhos da estrada, perguntou:
— Você parece preocupado, jornalista. Não me lembro de outros como você por aqui. Vai encontrar alguém?
— Com certeza não vim a passeio. Vim tentar responder uma pergunta que há tempos perturba meu sono. Nunca se usou tanto fertilizante como nos últimos tempos. São toneladas de alimentos produzidos. Como pode? É preciso admitir que estas pessoas parecem desligadas do restante do mundo, ou simplesmente o ignoram. Não acha?
— Nisso você está certo, jornalista. Tratam dos próprios negócios e ainda alimentam muita gente.  Não vejo nada de errado nisto.   
Através daquelas palavras pude perceber que aquele motorista estava do lado deles, ou nutria alguma admiração em relação àquelas pessoas. Não podia julgá-lo. Até porque, ainda não éramos próximos e a carona havia sido providencial. Porém, vez ou outra o foco mudava do volante para meus pertences, e assim sucessivamente. Não podendo esconder sua curiosidade, deu prosseguimento à conversa:
— Jornalista, o que traz dentro da pasta?
— Isto? Nada importante. São apenas alguns recortes de jornais, fotos e algumas entrevistas. Juntei muito material de dois anos para cá. Por acaso, o senhor já ouviu falar sobre o incidente do milharal? Estou tentando entender se existe alguma relação entre aquele ocorrido e a aparente blindagem que esta cidade desenvolveu contra o aquecimento global e a escassez de alimentos da qual somos afligidos atualmente.
— Não sei aonde quer chegar com estas coisas, jornalista. Mas se me permite dar um conselho: esqueça. É perda de tempo. Mas, se veio de tão longe para procurar problemas, tudo bem. Fique a vontade. Apenas lembre que as pessoas daqui não gostam de visitantes. Isso eu posso garantir. Mesmo eu não sou bem-vindo. Apesar de elas dependerem de mim.
O silêncio decorrente daquele comentário soava quase como uma ameaça, e isso começou a me incomodar. Toda vez que ouvia estamos quase lá, perdia o controle sobre meus pensamentos:
 — Não lhe parece curioso nunca haver problemas na agricultura deste lugar? Quero dizer, nenhuma praga, granizo ou estiagem? Nada. Foi complicado encontrar alguma reportagem sobre este episódio. Tenho a impressão que a imprensa da época simplesmente divulgou aquilo que a policia havia reportado. Nem se deram ao trabalho de investigar, vir até aqui checar se tudo aquilo correspondia à verdade. — Nomes como Vicky, Burt, Issac e Malaquias não lhe soam familiar?
— Sim, jornalista. Nome de gente morta. Faz décadas que frequento restaurantes e cafés existentes na maioria das rodovias que cortam este país e nunca ouvi. Você é a primeira pessoa que desenterra estes nomes. Jornalista, você não tem família? Não teme aquele que anda por trás das fileiras?
— Eu tenho mulher e filha. E foram elas que me fizeram duvidar de toda esta crendice. Ora, existe alguma cidade ao redor do globo que possua índices de natalidade tão baixos quanto esta? Onde estão as crianças? Isto é uma coisa absolutamente anormal, muito longe das recomendações bíblicas.
Então, de repente, abri minha carteira e lhe mostrei uma pequena fotografia de minha família. Contemplou-a e logo em seguida a devolveu, dizendo:
— Você possui uma bela família, jornalista. Deveria estar com elas. O tempo corre rápido e algumas escolhas podem custar caro. 
— E o senhor? Tem filhos?
—Eu? Não. Foi uma decisão que eu e minha esposa tomamos já no primeiro ano de casamento. E não nos arrependemos.
—O senhor sabe qual foi a conclusão que cheguei depois de tanto tempo estudando todas esta história de seitas e sacrifícios? Que tudo não passa de uma grande besteira. Penso que estas pessoas deixaram de ter filhos, isso sim, porque os fertilizantes os deixaram estéreis e por esta razão tornaram-se reclusos e desconfiados. Optaram por nunca presenciar o choro noturno; renegaram o abandono de serem chamados de pais e avós; disseram não a presença de jovens namorando nas praças. Na verdade, não eliminaram as crianças por ordem daquele que anda por trás das fileiras, como infantilmente acreditam, não, era a ganância que andava ali. E pagaram o preço.
Quando terminei e olhei para o seu rosto, senti a velocidade diminuir gradativamente. Havíamos chegado a Gatlin. Antes de desembarcar e ir me despedindo, ele falou:
— Ele realmente tinha razão, jornalista. Sabia que você viria. Falou sobre sua descrença, seus pecados e da chegada do apocalipse. Disse que você traria a fome. E que eu deveria trazê-lo até aqui. Agora, desça e siga seu destino. E que nosso senhor tenha pena da sua alma.
Dando um passo para trás, vi os pneus cantarem e o milharal sendo revelado. Por um instante, protegi meus olhos do sol poente. E quando voltei a discernir onde estava, fui alvejado pelo brilho prateado da foice meia-lua, da machadinha e do sacho, os quais revelaram a identidade daquelas pessoas à minha frente e as razões de toda aquela fartura: ali estavam as crianças do milharal, sobreviventes do incidente, conscientes da minha chegada, e também do meu sacrifício.

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