sexta-feira, 11 de setembro de 2015

ALMA DE SAMURAI



A educação por uma vida sustentável estimula tanto o entendimento intelectual da ecologia como cria vínculos emocionais com a natureza (Fritjof Capra).
Deixando a horta com as mãos ainda cobertas de lama, o professor Issamu aproximou-se da torneira e as lavou rapidamente. Naqueles tempos, onde a escassez de água havia se tornado uma realidade dos grandes centros urbanos, desperdiçá-la ia contra seu código de honra pessoal e contradizia aquilo que ensinava em sala de aula. Atravessando o corredor às pressas, pôde perceber a escola toda decorada e o cheiro das mudas aguçando seus sentidos. Era uma satisfação indescritível perceber que tanto a macieira, quanto a laranjeira e a jabuticabeira, todas enfileiradas lado a lado, cultivadas em conjunto com seus alunos, agora iriam dividir espaço com pedestres e ciclistas. Era o dia mundial do meio ambiente e sentia-se esperançoso em relação ao futuro.
Fechando a porta às suas costas, Issamu posicionou-se à frente dos pais e alunos. Puxando uma cadeira para perto dos presentes, sentou-se e disse: — Agradeço a presença de todos. Desculpem pelo incômodo e por tirá-los de suas atividades profissionais, mas acredito ser hoje uma data muito importante e, por isso, tenho certeza de que não será um tempo desperdiçado. Como podem perceber, temos muitos convidados. Resolvemos realizar uma atividade muito especial: cada um dos seus filhos apresentará aos demais colegas seus animais de estimação e como os conseguiram. Acredito nesta iniciativa como um complemento à nossa missão, que visa colocar as crianças em contato com aquilo que os hábitos ocidentais desvirtuaram em decorrência de seu egoísmo e ambição. Levantando os olhos e acompanhando as expressões de surpresa nos rostos, continuou: — Por favor, não me levam a mal. Acho que acabei me excedendo nas palavras. Mas deixemos os discursos de lado e comecemos a apresentação tão aguardada. Vamos iniciar por você, Nobuhiko. Fale-nos um pouco de seu amigo.
Atendendo ao pedido do professor, o menino ergueu seu companheiro para que todos pudessem vê-lo e comentou: — Este aqui é o Mordida. Nós demos este nome porque ele mordeu meu pai e não queria mais soltar. Minha mãe sempre diz que eles se merecem. Após uma gargalhada coletiva, era a vez de Luciana. Uma menina de descendência nordestina que possuía um coelho como companheiro. Deixando que seus colegas o segurassem, aconselhou: — Só precisa ter cuidado com os dentes. Ele come o dia todo, mas parece que sempre quer mais. Seguindo o conselho à risca, todos passaram rapidamente o bichinho de volta à dona e voltaram-se para o professor.  Este, percebendo a algazarra generalizada dentro da sala, não resistiu ao impulso de analisar o comportamento dos pais ali presentes. Não conseguiu ignorar aspectos contemporâneos considerados normais naqueles tempos: os olhos pousados sobre as telas dos celulares, as crises de ansiedade, que geravam um entra e sai do recinto, e os alarmes que disparavam do lado de fora. Constatações já realizadas em outros momentos, porém, inconvenientes numa celebração como aquela. Assim, logo em seguida, Issamu convocou Ricardo e Penélope para mostrarem os trabalhos realizados por seus amigos durante os últimos meses.
Mesmo acanhados e nervosos a princípio, as crianças depositaram um cesto sobre a mesa e começaram a retirar inúmeros origamis de seu interior. A surpresa foi geral. Os dedos apontados naquela direção, juntamente dos latidos, mostravam claramente que a excelência havia sido alcançada. Cachorros, gatos, coelhos e periquitos eram mostrados em toda sua riqueza de detalhes. Depois, outras réplicas foram surgindo aos poucos. Estas, entretanto, não apresentavam nenhuma semelhança com os animais ali presentes. Situação esta que fez com que um dos pais, vestindo terno e gravata, antecipasse-se e bradasse com uma voz trovejante: — Posso até estar enganado, mas esses aí não fazem parte da atividade! Com um leve sorriso e, aguardando o homem acomodar-se novamente em seu lugar, o professor respondeu: — Eu sabia que o senhor iria perguntar. Mesmo assim, acho mais adequado que os meninos respondam. Pode fazer a gentileza, Ricardo? Postando-se ao seu lado, falou solenemente:
 — Estes bichos precisam de nossa ajuda. Nosso professor sempre fala dos maus tratos que eles sofrem. Ele disse que não é só aqui no Brasil que os bichos são caçados. No Japão também é assim. Muitos correm risco de extinção e é nosso dever proteger eles. Aprendemos que a arara-azul, a onça pintada, o tucano, a tartaruga e o mico são os mais ameaçados. Isso só no nosso país.  Lá, onde nosso professor morava, é a baleia-azul, o macaco, a foca, o morcego e a lontra.
Colocando a mão sobre o ombro do menino, Issamu disse: — Muito bem. Agora pode voltar para o seu lugar. Deixe que eu continue. Com o braço esticado e trazendo sobre a palma da mão um origami, dirigiu-se aos pais: — Os senhores conhecem a lenda dos mil tsurus? Não? Permitam-me falar um pouco sobre ela. Acreditem, não tomarei muito do tempo dos senhores. Diz a lenda que se uma pessoa dobrar mil tsurus, origamis da ave sagrada japonesa, poderá ter seu desejo mais sincero realizado. Quis apresentar este mito para seus filhos juntamente da proposta de que fizéssemos esta atividade em sala. Entretanto, depois, pensei que isto ainda não seria o suficiente. Deveria contar também com a colaboração de vocês. Por esta razão pedi que viessem até aqui. É provável que estejam curiosos para saberem qual é o desejo da turma, não é? Creio que minha influência possa ter alguma participação na elaboração, estou ciente e não excluo totalmente minha culpa, porém, cabe aos senhores julgarem por si próprios. Era este: toda vez que um animal sofrer algum tipo de violência, sentir dor, que o homem que tiver realizado aquela maldade sinta, na mesma medida, todo o sofrimento daquele animal. Pode parecer simplório, concordo, mas todos aprovaram a ideia. E estou satisfeito com este desfecho.
Percebendo que a atenção da platéia continuava sobre sua pessoa, Issamu deu um sinal para que Penélope buscasse o cesto. Enquanto ia passando e entregando um tsuru a cada pai, o professor lembrou-os: — Não pensem que já é tarde e que nada mais possa ser feito. Muito pelo contrário. Cabe a todos nós – principalmente aos senhores – não fazerem da indiferença a sua bandeira. Os animais estão longe de nossos cuidados? Sim, da mesma forma que milhões de nossos semelhantes. E nem por isso nós os abandonamos à própria sorte. Em um mundo onde as fronteiras evitam apenas a passagem da solidariedade e da compaixão, estão escancaradas para a cobiça e a tolice. Espero que o verde não seja apenas a cor predominante nos olhos dos senhores, mas também que esteja ao redor de suas casas e no interior de suas empresas. Precisamos de tantas coisas nesta vida? De tantos carros, celulares, roupas, enfim, precisamos comer tanto? Acho que não. Não pensem que sairemos em puni de todas estas atrocidades. Cedo ou tarde teremos de nos haver com as consequências, das quais não gostaria que seus filhos tivessem que lidar. É isso.   
De repente, a campainha que anunciava a chegada do intervalo ressoou em toda a sua fúria, sendo acompanhada por um aglomerado de vozes e cadeiras que iam aranhando o assoalho e proporcionaram um esticar de pernas e braços incontroláveis.  Distribuindo cumprimentos e acenos de adeus, o professor Issamu despediu-se dos pais e de seus respectivos alunos, sem deixar de notar, é claro, que vários tsurus iam sendo esquecidos sobre os assentos e, com uma ligeira mesura, não pôde deixar de responder da forma mais honrada que conhecia aquele gesto de gratidão: arigatou.

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