domingo, 14 de setembro de 2014

BUDISMO: A RELIGIÃO OFICIAL DO BRASIL

“O budismo é uma religião para o fim e para o cansaço da civilização”. (Nietzsche)

Após a condecoração de Ernest Che Guevara durante a década de 1960, o então presidente Jânio Quadros e seus assessores decidem convocar os principais representantes da geração beat para expandir e popularizar a religião budista pelo território brasileiro. Com recursos garantidos, poetas e escritores percorrem os estados inaugurando templos, doando livros e anunciando o ensino da filosofia budista em escolas e comunidades. Assim, o sonho de uma sociedade mais justa começa a tomar corpo, e a intenção de proporcionar ao povo brasileiro bases sólidas tanto moral quanto cívicas vai ganhando forma, deixando com isso um legado de compaixão e tolerância para as gerações futuras...

O episódio que gostaria de relatar fala sobre minha experiência com a hipnose e a terapia de vidas passadas. Já atuo no campo da psicologia há mais de vinte anos e precisava desabafar. É claro que poderia ter aderido há sessões de psicoterapia ou atendimento em grupo, mas resolvi contar para você um episódio único em toda minha carreira profissional. Porém, devo admitir desde já: você não será a primeira pessoa a ouvir esta história. Expus também para uma amiga, numa oportunidade propícia, quando seu pai estava prestes a falecer. Não nos falávamos fazia muitos anos e, acredito hoje, não tratar-se apenas de coincidência aquele encontro. Diria antes que foi um típico caso de sincronicidade. Sei que foi minha fé no despertado a responsável por me conduzir até aquele lugar e fazer com que eu a encontrasse novamente. Tenho plena consciência de que ela precisava de mim. Por isso, sem mais delongas, permita-me começar.

O referido episódio ocorreu no dia 12 de dezembro de 2012, no estacionamento do hospital Beatriz Ramos, na cidade de Indaial, Santa Catarina. O irmão de Penélope ligou-me pela manhã dizendo que seu pai havia sido atropelado enquanto fazia uma de suas caminhadas matinais. Perguntei como ele estava, mas não obtive resposta. Então peguei as chaves do veículo, O Livro Tibetano dos Mortos e parti.

Demorei cerca de uma hora para chegar até o local. Um pouco antes, dei uma parada na floricultura e comprei algumas flores como manda a tradição. Então avistei Penélope e, depois de um abraço, pude sentir suas lágrimas caírem sobre minha nuca. Confesso: foi difícil me segurar, mesmo com todos os anos de meditação e vigilância. Depois daquele gesto fraterno, convidei-a para sentar-se em um banco próximo e disse-lhe que me contasse o ocorrido, em todos os seus detalhes.  Ela começou dizendo que o pai gostava de acordar cedo e caminhar pelo bairro, mas que por causa de sua fascinação pelos pássaros e árvores, acabava sempre se distraindo, correndo assim demasiado risco ao atravessar as ruas. Perguntei o que diziam os médicos, se tinha alguma chance de sair do coma. Foram palavras simples que ouvi em resposta, mas que traziam em si uma dor difícil de ser ignorada: “Eu sei que faz parte da vida. De que todo este apego só aumenta ainda mais o sofrimento. Tudo isso eu sei. Já estou até cansada de saber. Só que agora a situação é diferente. Quando chega a hora parece que a gente não consegue pensar em nada, nem sabe como agir”. Olhando para ela, ali sentada, concentrada num cigarro ainda ardendo, imaginei a figura dos Bodhisattvas e sua missão aqui na Terra.

A lenda versava sobre um discípulo que almejava a iluminação a qualquer custo. Passou sua existência seguindo o Dharma e o caminho óctuplo: fé correta, vontade correta, linguagem correta, ação correta, meios de existência corretos, aplicação correta, memória correta e meditação correta. Entretanto, ao completar seu objetivo, percebeu que estava sozinho no paraíso. Os outros haviam ficado para trás. Percebendo o fato, indagou-se: “Do que adianta tudo isso? Deixarei o choro e as lágrimas à sua própria sorte? É preciso voltar...” E assim ele jurou que só retornaria para aquele lugar no dia em que todos os homens também se libertassem e encontrassem a paz. Comento isso com você porque era claro que Penélope era assaltada por dúvidas. A perda de sua fé era visível. Por isso, aproveitando que outras pessoas também tiveram a mesma ideia, propus que oferecêssemos flores ao senhor Buda em troca de uma graça. Conduzindo-a pela mão, fomos de encontro a um grupo que orava pela saúde dos enfermos. Depositei-as e li numa voz audível apenas para ela, uma mensagem talhada na base da estátua, que dizia o seguinte: “Um ser querido faz sofrer, pois nos causa muita apreensão. Para os livres de toda aflição, não há sofrer. Por que então medo?”

Depois de alguns minutos, buscamos o banco novamente e aguardamos novas notícias sobre o quadro clínico de seu pai. Então, um pouco adiante, chamou-me a atenção uma menina que hesitava em levar flores à estátua. Escondida atrás da mãe, esta chorava copiosamente e agarrava-se à sua perna como se estivessem mandando-a interagir com algum tipo de monstro. Não pude deixar de observar aquele comportamento e pensar: para qual pessoa importante em sua vida aquela criança estaria solicitando uma benção? Um pai? Um avô? Um irmãozinho? Não era possível saber. Mesmo assim, era comovente observar uma criança tendo de enfrentar a realidade tão cedo. Penélope havia percebido meu afastamento e disse: — Você ainda não perdeu o costume de ficar analisando o comportamento das pessoas, não é? Sorrindo, respondi: — Faz parte do meu trabalho. E aproveitando a deixa, ela continuou: — Falando nisso, como anda o consultório e os pacientes? Pude perceber a melhora em seu semblante. Refletindo por alguns instantes sobre os inúmeros atendimentos do último ano, busquei lembrar-me de um que pudesse servir de exemplo. Já sabendo qual relatar, respondi: — Tenho um que pode ser interessante enquanto aguardamos os médicos. É a história de uma moça que chegou queixando-se de um apego excessivo aos familiares, especialmente em relação ao irmão. Passei dois meses utilizando técnicas tradicionais da psicologia, mas que infelizmente, naquele caso, não surtiram efeito algum.

Precisei de muita paciência naquele período. A jovem não conseguia relaxar e eu estava tendo dificuldades em fazê-la cooperar com as atividades. De repente, do nada, ela sugeriu: — E se você usasse a hipnose? Talvez funcione. Disse apenas que poderia ser uma opção para o futuro, caso nada mais funcionasse. Alguns dias depois daquela conversa, resolvi ariscar. Eu havia usado a auto-hipnose em outras oportunidades, porém, nenhuma me causou tanto espanto. Digo isso porque o começo foi lento, desanimador e até frustrante. Simplesmente não funcionava. Até que ela começou a manusear uma pequena esfera de cristal que era usada como peso de papel. Ao apanhá-la, começou a visualizar o seu interior. Dizia estar pedalando em um triciclo acompanhado por um cachorro.  À distância, era vigiado pelos pais. Perguntei quem era aquela criança que ali brincava. Sem hesitar, respondeu ser ela. Intrigado, perguntei: — Qual era o nome daquele menino? Com as pálpebras cerradas, ela disse: — Ricardo... seu filho! Ainda atordoado, pedi que ela repetisse. E foi-me dito: — Sim, Ricardo, um menino de coração frágil, mas que o amava demais, e que voltou a este mundo por causa do seu amor. Depois daquelas palavras, afundei na cadeira e aguardei as mesmas começarem a fazer sentido. 

Sugeri que ela voltasse. Obviamente, não se lembrava de nada. Argumentei que foi um dia produtivo e que a esperava na próxima semana. Quando a porta fechou-se às minhas costas, eu desabei. Meu choro era um misto de alegria e desespero. Podes imaginar o motivo? Claro que não. Tenho certeza que você teria feito o mesmo. Coloque-se no meu lugar: lá estava eu sentado ao lado do meu filho, segurando sua mãozinha, e do nada seu coração parou. Clamei pelos médicos e eles tentaram reanimá-lo. Tudo em vão. Gritei para que saíssem. Sozinho, comecei a ler um trecho da Grande Doutrina da libertação pela Audição, contida no Livro Tibetano dos Mortos. Li a seguinte passagem ao pé de seu ouvido com o intuito de ajudá-lo em sua viagem rumo ao Pós- Morte: Ó vós, Compassivos, defendei Ricardo que está indefeso. Protegei quem se encontra desprotegido. Sede suas forças e seus parentes. Protegei-o da grande escuridão do Bardo. Livrai-o do vento vermelho do Karma. Livrai-o do grande temor e terror dos Senhores da Morte. Salvai-o da longa passagem estreita... Ó vós, Budas e Boddhisattvas, não deixeis a força do método de vossa compaixão enfraquecer-se para este Ricardo. Agarrai-o com o gancho de vossa graça. Não deixeis que os seres sensíveis caiam sob o poder do mau Karma.

Admito minha fraqueza na época: fiz tudo aquilo com o intento de que ele reencarnasse próximo a mim, seja na família de algum parente ou amigo. Era a única forma de tê-lo de volta. Nem que fosse apenas através de uma memória. Sei que fui egoísta. Por outro lado e, por mais estranho que possa parecer hoje, aquela regressão ajudou-me a seguir em frente, mostrando-me que eu tinha recebido uma dádiva, e que esta se revelava ali ao meu lado. E mesmo quando eu tive de me despedir daquela paciente, no dia de sua alta, fiz com o coração leve e disposto a aceitar uma verdade: a de que a morte não é o fim, e que alimentar pequenas quimeras servem apenas para atrapalhar nossa principal missão aqui neste planeta: que é ensinar e aprender.


Quando terminei, Penélope e eu percebemos a porta automática abrir-se e de lá surgir a médica que cuidava do seu Lino. Estática à nossa frente, e com as mãos nos bolsos, ela tentou dar a notícia da forma mais suave possível: — Ele foi muito corajoso. Seus sinais vitais foram enfraquecendo aos poucos e não conseguiu mais voltar. Felizmente, não houve sofrimento. Se precisar de mim, estarei à disposição lá dentro. Surpreendentemente, Penélope levantou-se e pediu-me um favor do qual nunca esquecerei: — Podes fazer a leitura para o meu pai? Também o quero de volta. E, com um sorriso no rosto, bradei: — Vamos tentar!