sábado, 28 de dezembro de 2013

NIETZSCHE E A CRUCIFICAÇÃO DE CRISTO

— Vamos, já estamos mais que atrasados. Desse jeito teremos de assistir a missa em pé — enfatizou o pai de Penélope de forma ríspida, enquanto subia a escadaria da Catedral São Paulo Apóstolo de mãos dadas com sua esposa.

— Se você e mamãe não demorassem tanto para se arrumarem, nós já estaríamos sentados e não precisaríamos correr feito uns malucos pela cidade — respondeu a filha ao mesmo tempo em que se esforçava para arrastar o noivo Ricardo rumo à igreja. 

Indo dormir tarde na noite anterior, Ricardo sentia-se indisposto e não conseguia esconder sua insatisfação em ser forçado a participar de uma celebração da qual não queria fazer parte, quando o que mais desejava era estar dormindo, acordando apenas perto da hora do almoço. A cada vez que seu braço era puxado, aumentava sua vontade de dar meia volta e ir direto para casa; entretanto, mesmo sentindo o sangue ferver, acabava sempre dando mais um passo em direção à cantoria e à pregação. Porém, ao levantar o olhar por um momento, deixando de lado a contagem dos degraus, ele pôde perceber um homem sentado na curva da escadaria rodeado por três pilhas de livros. E, após quase deslocar o braço de Penélope devido a uma parada brusca, fixou o olhar nas capas dos livros que traziam o filósofo Friedrich Nietzsche contemplando a figura de Jesus Crucificado.

— Você conhece Nietzsche? — perguntou o vendedor de livros ao perceber o interesse do jovem.

— Já li alguns livros dele... mas, na verdade, só atrasaram minha vida — argumentou Ricardo.

— Deixe-me ver se adivinho quais... — interrompeu o comerciante ao tentar lembrar os títulos das obras. E sem delongas, mencionou: — Assim Falou Zaratustra? Ecce Homo? Para Além do Bem e do Mal? Ou, talvez, quem sabe, O Anticristo?

— Do Anticristo eu me lembro bem. Tinha ganhado de presente. Depois acabei trocando. Falando nisso, foi por causa dele que conheci e estudei a Bíblia.

Após dizer aquelas palavras, tanto Ricardo quanto Penélope avistaram os pais dela acenando do alto da escadaria, pedindo para que viessem de uma vez, deixando a compra do livro para o término do culto. Depois de ser puxado inúmeras vezes pela camisa, Ricardo aprumou os ouvidos e deixou-se embalar pelo canto gregoriano que ia preenchendo todo o ambiente, permitindo assim que seus olhos avistassem com fascínio o nascer do sol e a imensidão do céu azul. Percebendo o devaneio de seu noivo, Penélope o interpelou: 

— Você vem ou não?

— Vai primeiro e guarda um lugar pra mim. Vou dar uma olhada com mais calma no livro e daqui a pouco me encontro com vocês.

Com um sinal de reprovação, ela juntou-se aos pais e adentrou o interior da Catedral. Naquele momento, uma cópia da obra já estava em suas mãos e, enquanto lia uma pequena sinopse na contracapa, perguntou:

— Do que trata o livro?

— É uma ficção. Não é o tipo de coisa que se vê todo dia, eu sei, mas foi feito de coração. Fala sobre o encontro entre o filósofo alemão Friedrich Nietzsche e Jesus no dia de sua crucificação. Sempre fiquei imaginando qual seria o tipo de conversa que ambos teriam se pudessem se encontrar. Gostaria de ouvir um pequeno resumo da história? Acha que seus parentes não ficarão chateados?

Por um momento, Ricardo pensou em Penélope e demorou alguns segundos para decidir-se. E, ao concordar com o pedido, sentou-se ao seu lado e aguardou. Com isso, o vendedor de livros iniciou seu relato:

Estamos no verão de 1899, mais precisamente na República de Weimar, Alemanha. O filósofo alemão Friedrich Nietzsche está doente e recebe os cuidados de sua irmã Elizabeth. Passados seis anos da morte de seu marido Bernhard Forster e, do completo fracasso da construção de uma colônia anti-semita (Nueva Germania), no Paraguai, ela dedica-se exclusivamente ao seu Fritz-do-coração; como era chamado. Aquele que um dia havia declarado a morte de Deus, agora se encontrava acamado, num estado vegetativo; vítima de um colapso nervoso. A errância já era coisa do passado; a música ainda estava ao seu lado, mas já não era discernida; outrora ávido por disparar suas setas em direção ao cristianismo e seus representantes, agora se resumia a um conjunto de espasmos aleatórios; enfim, repousando como estava naquela cadeira, cercado por um vasto gramado e com o olhar preso ao infinito, só poderia render suspiros e lamentações. Deixe-me ler a passagem em que o artista Hans Olde, um dos personagens do livro, fala sobre o que sentiu no instante em que começou a fotografá-lo: Não tenho palavras para expressar o que sinto ao vê-lo neste estado. Antes tão altivo, tão independente... agora tão sozinho. Registrando esta cena, só posso admirar-me das incertezas e da ironia que muitas vezes regem o nosso próprio destino. Deixarei para a posteridade julgar quais as causas de sua loucura! A irmã do filósofo acompanhava com atenção aquela reflexão e, concordando em partes, respondeu: Meu irmão não é nenhum louco, sr. Olde. Ele sofreu muito durante toda sua vida e as companhias também não ajudaram em nada para sua melhora. A principal culpada foi aquela mulher que o seduziu com seu jeito repugnante. Por que ele caiu tão facilmente nas suas garras? Sou a única que o ama... Hans interrompeu-a dizendo que nunca saberiam ao certo o que aconteceu entre eles em 1882. E que era melhor assim. Somente uma coisa o intrigava: o que passava dentro da cabeça do filósofo? Eles observavam Nietzsche à distância, imaginando que tipo de pensamentos, quais sonhos embalavam seus dias. E, nesta hora, o leitor é transportado para a Jerusalém dos tempos de Cristo, no dia em que foi crucificado. É sexta-feira, semana que comemora-se a Pessach (Páscoa). As ruas estavam abarrotadas de comerciantes que dividiam espaço com inúmeros soldados romanos. Naquele dia, o sentimento de medo e expectativa estampava-se no rosto de todos. O nome de Jesus era sussurrado por todos os cantos, sendo apenas uma questão de tempo para que ele atravessasse aquela rua pavimentada (que mais tarde receberia o nome de Via Dolorosa) rumo ao Gólgota. Nietzsche sabia disso. Por isso havia alugado um quarto onde pudesse terminar seus escritos e acompanhar aquele espetáculo do alto, através de uma janela. Enquanto deslizava a pena por sobre o papel, iam e vinham pensamentos que moldariam sua obra no futuro: Todo homem seleto busca instintivamente seu castelo e seu recolhimento, onde ele esteja a salvo da massa, da multidão, da maioria... Quem, no trato com as pessoas, não oscila ocasionalmente entre todas as cores da aflição, ruborizado e pálido de asco, fastio, compaixão, abatimento, isolamento, esse com certeza não é homem de gosto superior. Ao fechar o diário, percebeu o alvoroço do lado de fora. Espiou pela cortina entreaberta e, abaixo do arco, constatou que o chamado rei dos judeus lutava para manter-se em pé. Trazia o patibulum nos ombros e o sangue escorria por seu rosto. Deixando a hospedaria às pressas, o filósofo misturou-se à turba. Num movimento rápido, algo em torno de duas passadas, aproximou-se do Nazareno e, olhando no fundo de seus olhos, comentou: Como pôde ser tão tolo... Yeshua? E subitamente, a ponta de uma lança surge entre seus olhos e ele recua. Não havia mais nada que pudesse fazer, a não ser esperar. Um pouco antes da procissão que se seguiu, Nietzsche já havia presenciado cenas marcantes, como a primeira e segunda queda; o encontro de Jesus e Maria; a escolha de Simão pelos romanos; e a chegada de Verônica. Tudo isso o deixou transtornado, lançando-o com ainda mais ímpeto rumo ao seu intento. Chegando ao Calvário, duas das três traves já estavam erguidas, sendo aquela que crucificaria Jesus a próxima. Tanto o centurião quanto seus comandados guardavam o local. Há poucos metros, encontravam-se várias mulheres, que ajoelhadas, oravam em meio ao pranto. Aproveitando uma ocasião oportuna, em que as mesmas avançaram para acudir Jesus e foram rechaçadas pelos soldados, Nietzsche postou-se à sua frente e, voltando-se para o alto, disse: Sabe porque as pessoas só podem adorá-lo e nunca ser como você? Tens alguma ideia dos motivos que os levam a acumular cada vez mais, mesmo depois das tuas palavras?Ou ainda, de se emprenharem em criar barreiras entre eles próprios em razão do teu nome? Sabes? Não? Então, te direi: porque o único cristão vai morrer na cruz!  E mais uma coisa! Observou-se mal a vida caso não se tenha visto também a mão que cuidadosamente – mata... E num piscar de olhos, uma lança trespassou o tórax de Jesus e o vento espalhou seu sangue por todas as direções. Limpando o rosto, Nietzsche observou as nuvens chegando, que expunham raios e trovões. Afastando-se, recriminando-se pelos sentimentos de fraqueza que perturbavam seu coração e não tendo coragem de olhar novamente para trás, questionou-se, num tom audível apenas para si mesmo: Desde quando passei a me importar com o que acontece com ele? E assim, respirando profundamente, livre da necessidade de buscar novas respostas naquele lugar, desceu a colina da caveira e desapareceu para sempre.  

O fim daquela história trouxe consigo também o silêncio. Ricardo sentia que tinha feito uma viagem no tempo, a qual havia terminado de forma inusitada ao lembrar-se quem era e onde estava. Ao levantar-se e arrumar a roupa amarrotada, devolveu o livro que trazia nas mãos ao vendedor. Este a colocou de volta em uma das pilhas que o cercavam e disse:

— Espero que eu não tenha ocupado seu tempo em vão. Tentei ser breve, dando apenas um apanhado daquilo que se encontra dentro do livro. Tanto porque, é provável que você nunca veja esta obra em uma livraria. Eu diria que se trata de uma empreitada pessoal, uma utopia. Duvidar, questionar e investigar; sem esta tríade, minha vida não tem sentido. Mas deixemos este assunto de lado. Gostaria de presenteá-lo. Eu ficaria muito feliz se você aceitasse uma cópia...

Com um gesto de espera, Ricardo argumentou:

— Não me leve a mal, mas não posso aceitar. Hoje em dia estas coisas já não fazem mais parte da minha vida. Agora sou noivo, tenho contas pra pagar e não posso mais perder tempo. Agora sou cristão e encontrei a paz. E aconselho o senhor a fazer o mesmo.


Após ouvir aquele conselho, o vendedor de livros observou o jovem desaparecer entre os carros que estavam no estacionamento e pensou, enquanto guardava os livros em sua mala: Fico muito feliz em saber... fico feliz de verdade