domingo, 5 de maio de 2013

O AMOR POR UM IDEAL


– Descanse mais um pouco - disse ele, enquanto ela ameaçava se levantar. – Afinal, hoje é domingo e ninguém irá trabalhar.
– Não consigo mais dormir - respondeu ela, ainda esfregando os olhos. – Pode me buscar um copo d água? 
– Já tomou seu remédio?
– Ainda não...
Ao se levantar da cama, Ricardo calçou seus chinelos e dirigiu-se até a cozinha. Boca ressecada e formigamento nos pés, não pode ser apenas o frio, pensou enquanto procurava uma garrafa dentro da geladeira. Talvez o diabetes esteja fora de controle, concluiu após fechar a porta com violência. Neste ínterim, ao caminhar de um cômodo a outro, pôde perceber a chuva torrencial que caía lá fora e a umidade que escorria pelas paredes do quarto.
Tome, disse ele ao entregar o copo e sentar-se ao seu lado.
Obrigado, respondeu Anja ao engolir o comprimido e virar todo o conteúdo de uma só vez.  
– Semana que vem marcaremos um retorno ao médico. Eu mesmo irei marcá-lo, comentou seu noivo enquanto dirigia-se em direção à janela do quarto.
Você se preocupa demais. Estou bem, acredite. Aliás, você anda muito estranho ultimamente. Queria te perguntar sobre isso esta semana, mas quase não nos falamos. Sei que não é minha doença que está te incomodando. Até porque, o resultado dos últimos exames mostraram que está tudo sob controle. Então, qual é o problema?
Não é nada! Só não quero ver você descuidando do tratamento, respondeu de forma ríspida ao abrir as cortinas e conferir como estava o clima lá fora.
Era óbvio que alguma coisa preocupava Ricardo. Já fazia três dias que chovia ininterruptamente na cidade de Blumenau. As águas do rio Itajaí-Açu haviam subido vários metros num pequeno intervalo de tempo, deixando ruas e casas submersas. Estavam ilhados. Já tinham passado por tudo aquilo em outras oportunidades, mas desta vez um fato o inquietava: os pássaros haviam sumido. Ela dizia que dentro de dois dias no máximo a cidade estaria funcionando novamente a todo vapor e eles voltariam a pousar sobre os fios da rede elétrica. Entretanto, ele tinha suas dúvidas. Por esta razão, toda vez que o futuro parecia incerto, nebuloso, Ricardo buscava apaziguar sua angústia e ansiedade através da sabedoria do livro das Mutações, o I Ching
– O que você está fazendo?
Ele não respondeu. Foi até uma prateleira repleta de livros e, por alguns instantes, passou o olhar ao redor em busca de um título em especial. Retirando o oráculo chinês da estante, sentou-se no tapete e apanhou três moedas de cinco centavos que estavam sobre o criado-mudo. Em seguida buscou papel e lápis e os colocou ao seu lado. Então, fechou os olhos por alguns segundos e, após formular a pergunta, lançou as moedas ao ar e analisou o resultado. Repetiu o processo outras cinco vezes até formar um hexagrama.
O que você perguntou?
Perguntei quando esta enchente iria passar...
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Sentindo a brisa gelada daquela manhã de inverno machucar seu rosto e lançar suas lágrimas sobre a areia fofa, Anja começou a abrir o pequeno envelope que segurava com ambas as mãos. Havia se dirigido à praia após a chegada do carteiro. Da mesma forma que sentia o coração acelerar com o vislumbre do nome escrito no remetente, pôde sentir também os dedos do pé congelarem com a chegada de mais uma onda. Desobrigando a memória de trazer à tona lembranças dolorosas de um passado já há muito esquecido, ela desdobrou com cuidado a pequena folha e começou a leitura:
República de Tuva, Rússia,
01 de outubro de 2030
Querida Anja,
Nada foi mais difícil para mim quanto escrever esta carta para você, pode acreditar. Mesmo passado tantos anos da minha partida, sua lembrança ainda se faz presente e, muitas vezes, impede que eu tenha uma tranquila noite de sono. Sei que nada do que eu relatar nesta folha irá justificar minha atitude. Mesmo assim, gostaria de tentar lhe explicar os motivos que me fizeram partir naquele dia. Você sabia que nunca poderíamos ficar juntos; nossos sonhos eram muito diversos um do outro. Eu vivia numa angústia sem fim. Disso tudo você sabia, ou ao menos suspeitava. Na verdade, agora, isso também não importa. Só preciso confessar uma coisa: nunca fui totalmente sincero com você.
Hoje, o mundo está muito diferente daquele que conhecemos quando nos vimos pela primeira vez. Lá se vão já dezessete anos. Sabíamos que muita coisa iria mudar, mas nunca passou pela minha cabeça que estas mudanças seriam tão drásticas. Lembro-me quando sentávamos nos bancos das praças e observávamos as constelações e filosofávamos sobre o futuro do homem e da humanidade. É até engraçado pensar no seu silêncio quando eu falava sobre as previsões sombrias dos cientistas quanto às Mudanças Climáticas. Tenho suas palavras guardadas comigo até hoje: Eu não fico pensando no futuro, nas coisas que um dia podem acontecer. Vivo o presente, e só o essencial para mim é importante. Talvez você realmente estivesse certa quanto a tudo isso. Por outro lado, era difícil fingir que estava tudo bem. Eu até tentei levar uma vida normal, correta, que satisfizesse as expectativas que todos tinham quanto à minha carreira, aos estudos e ao matrimônio. Mas, no final das contas, nada disso fazia parte de mim. Nem casa, carro, cargo ou filhos. E, tocando neste assunto, filhos, você não sabe como aquela notícia me doeu por dentro: o aviso do médico que era melhor nós evitarmos a sua gravidez devido à doença. E se ele estivesse errado? Ninguém neste mundo merecia ser mãe mais do que você. Tenha certeza disso.
Uma das coisas de que mais me arrependo Anja é não tê-la contado logo de início sobre o convite que recebi. Fui pego de surpresa. Na época, eu ainda acreditava que podia fazer a diferença, que tinha encontrado algo pelo que valia a pena lutar. E então eu aceitei me tornar um marinheiro do Greenpeace, um guerreiro do Arco-Íris! A partir daquele instante eu iria viajar pelo mundo num navio defendendo as mais diversas causas ambientais, junto de outras pessoas que compartilhavam do meu sonho. A felicidade era tanta que toda a tristeza de uma vida vazia tinha desaparecido para sempre. Mas não pense que foi uma decisão fácil. Longe disso. Eu tinha responsabilidades, havia dado minha palavra. Por isso, quando estávamos presos na casa de meus pais naquele fim de semana, consultei o oráculo para saber o que fazer. E ele me disse: TRABALHO SOBRE O QUE SE DETERIOROU tem sublime sucesso. É favorável atravessar a grande água. Antes do ponto de partida, três dias, depois do ponto de partida, três dias. Tenho marcado estas palavras num marca-páginas que ainda trago comigo nas minhas leituras diárias.
Leituras estas que não tem sido poucas. Afinal, aqui em Tuva vivo mais próximo da natureza do que nunca estive antes. Pode parecer estranho ter escolhido um lugar tão distante de tudo para viver os últimos anos que me restam, mas era preciso. Aqui se vive o Budismo e o Xamanismo, coisas estas que sempre busquei. A simplicidade; o silêncio das madrugadas; a coleta de lenha e a busca diária por água; coisas das quais me foram negadas nas grandes cidades. Sentado nesta relva sinto ter reencontrado aquilo que parecia perdido para sempre: minha própria alma.
Eu sei que você sempre me criticava por começar as coisas e interrompê-las de forma abrupta. E, da mesma forma que aconteceu no passado, irá ocorrer novamente com esta carta. De todas as catástrofes ambientais que se abateram sobre este planeta, apenas uma trouxe um pouco de alívio ao meu coração: o racionamento de energia me proporcionou a chance de escrever esta carta a você. Não sei se um dia ela chegará ao seu destino ou se você me responderá, mas eu precisava expor as razões que me fizeram deixar tudo para trás. Inclusive você.

Um dia a Terra vai adoecer. Os pássaros cairão dos céus, os mares vão escurecer e os peixes aparecerão mortos na correnteza dos rios. Quando esse dia chegar, os índios perderão seu espírito. Mas vão recuperá-lo para ensinar o homem branco a reverência pela sagrada Terra. Aí, então, todas as raças vão se reunir sob o símbolo do arco-íris, para terminar com a destruição. Será o tempo dos guerreiros do Arco-Íris.

À altura dos joelhos e afastada de seu coração, a carta foi deixada após o término de sua leitura. Fitando a ilha dos lobos à sua frente, Anja acompanhava o nascimento das ondas desde sua formação até seu desaparecimento junto a seus tornozelos. Perpassada por uma intuição, caminhou alguns passos e apanhou um pequeno galho. O oráculo das ondas... cada onda uma linha... pequena ou grande... uma obscura, outra luminosa... Um dia voltarei a encontrá-lo?Após riscar as linhas sobre a areia da praia, ela reconheceu o hexagrama 37 e seu respectivo julgamento: Aquele que é ferido no exterior, certamente se recolherá à sua família. Por isso vem a seguir o hexagrama A FAMÍLIA. E, voltando-se para trás, reconheceu o rosto de seus filhos Ricardo e Penélope junto ao peito e deixou escapar a carta por entre os dedos, a qual, sem perceber, foi levada de volta ao mar.