terça-feira, 9 de outubro de 2012

UM LEÃO À ESPREITA


“O bem-estar de um lugar, qualquer que seja, nunca é inocente em relação à miséria de outro”. (Zygmunt Bauman)

Após estacionar seu veículo em frente ao prédio onde trabalhava, Ricardo aguardou alguns instantes antes de desembarcar. Com as mãos ainda presas ao volante, fitava atentamente a fachada de entrada. “A mesma cena todos os dias, mudam apenas os protagonistas”, pensou. Ao descer, deu uma conferida para ver se estava tudo em ordem, se não havia esquecido nada. “A gente nunca sabe quando eles estão por perto...”, concluiu, após conferir se as portas de seu automóvel estavam devidamente trancadas e o alarme ligado. Com passos decididos, subiu alguns degraus e parou em frente à porta da emissora. Por baixo do toldo pôde observar um homem estirado sobre um pedaço de papelão e coberto apenas pelas roupas do corpo. Automaticamente, levou a mão até o rosto e protegeu o nariz numa clara expressão de repugnância. Não conseguindo mais se conter e, desferindo um pequeno chute na região lombar, Ricardo o acordou:

- Já não te falei mil vezes que não era para vocês dormirem aqui? Isso aqui é um lugar de trabalho, não hotel. Não adianta falar mesmo, todo dia é a mesma lengalenga. Eu já estou cansado, sabia? E essa catinga toda? Por que tu não vai dormir ali na praça?

Virando-se vagarosamente e ainda esfregando o lugar atingido, o velho senhor foi se levantando aos poucos. Depois de arrumar a roupa amarrotada e pentear os cabelos desgrenhados com os próprios dedos, ele respondeu: - Eu até iria para outro lugar se pudesse, mas estou com muito medo. Na verdade, todos estão. Ninguém mais dorme direito. O senhor ainda não sabe? Tem um leão solto por aqui. Eu o ouvi a noite toda...

- Sim, sim, eu já fiquei sabendo. Não era nem cinco da manhã e meu telefone já tocava sem parar. Minha mulher queria me matar. Agora me dê licença porque eu preciso trabalhar. Afinal, alguém precisa trabalhar nesta cidade.

Ao adentrar no estúdio, Ricardo foi fazendo suas atividades rotineiras. Era sempre o primeiro a chegar. Após encher sua caneca preferida com o café recém-coado, esparramou-se na cadeira e, maquinalmente, foi ligando o computador e toda a aparelhagem de som. Enquanto aguardava, não pôde evitar pensar na ideia de um leão solto próximo ao local onde estava. “Pode ser que seja mesmo, como também pode ser apenas besteira...”. Num pulo, dirigiu-se até a janela. Passou os olhos pelas casas, pelos becos e, principalmente, pelas áreas verdes. E, ao acompanhar o movimento de um grupo de nuvens carregadas, avistou também um helicóptero sobrevoando a região. Afastando rapidamente a caneca dos lábios, fechou a cortina e foi receber seus convidados. 

O jornal Povo à Margem ia ao ar todos os dias pontualmente às 6hs. Seu apresentador Ricardo “O implacável”, como era chamado pelos amigos da patota de futebol, sempre foi um cidadão preocupado com a ordem e os bons costumes da comunidade onde vivia. Sua missão, como sempre dizia, era limpar as ruas da chamada doença social. E, para tanto, naquele dia, havia convocado algumas pessoas envolvidas com a principal notícia e preocupação que aterrorizava os trabalhadores da cidade de Blumenau: um leão havia fugido de um circo e agora estava à espreita.

Sentados ao seu redor, estavam o proprietário do circo, que já se preparava para deixar a cidade; o comandante da policia militar ambiental, responsável pela operação de captura do grande felino; e o comerciante José da Silva, primeiro a encontrar o animal durante uma de suas caminhadas noturnas. Após todos ajeitarem seus microfones e acomodarem-se da melhor maneira possível, o âncora do programa começou a falar:

- Primeiramente, gostaria de agradecer a presença de todos. Como vocês bem sabem, o medo se instalou definidamente em nossa cidade. Um leão está à solta. O nosso telefone não para um segundo. É preciso que alguma coisa seja feita rapidamente, para que as pessoas possam voltar ao trabalho, voltar à normalidade. E para discutirmos um pouco mais sobre o caso é que chamei os senhores até aqui hoje.

Virando-se de repente, e olhando fixamente hora para um, depois para os outros, estes já se preparavam para os mais diversos questionamentos, sobre o felino e suas próprias atividades, entretanto, não foi o que aconteceu. Ricardo não passou a palavra aos homens ali reunidos, mas expôs sua própria opinião.

- Como já sabemos, o circo não abrigava nenhum animal selvagem. Nem elefante, muito menos leão. Já colocamos no ar o depoimento de várias pessoas que ouviram o rugido enquanto tomavam banho; outras, disseram que não se tratava de um leão, mas de uma pantera; e finalmente: que tudo não passava de um engano, tratando-se apenas de um gato doméstico de aproximadamente 11 kg chamado Tadeu. Desta forma, os senhores em casa podem suspeitar da seriedade destes relatos. Na verdade, me parece que as pessoas estão até se divertindo com tudo isso... Não tenho dúvida que este tipo de acontecimento dá um pouco de cor à nossa rotina diária, mas não seria o caso de nos preocuparmos com aquilo que é realmente importante? O que realmente nos ameaça? Será o tal do leão? Acho que não. Vejamos se vocês não concordam comigo. Não seria uma ameaça muito maior todos estes desocupados dormindo em nossas ruas? Roubando, violentando, consumindo drogas e matando? Não é hora de nossas autoridades seguirem o exemplo de outras cidades no combate a estes marginais? A construção de rampas e bancos antimendigo já se mostraram eficientes em outros Estados. Colocar pedras em baixo de pontes e viadutos também pode ajudar... Não acham?

Interrompendo repentinamente e mostrando sinais claros de estar visivelmente aborrecido com toda aquela situação, Ricardo se livrou dos fones de ouvido e, um pouco antes de virar todo o conteúdo de sua caneca num gole só, chamou o intervalo. Próximo da janela acendeu um cigarro e ficou por algum tempo observando seu carro parado do lado de fora. Após jogar a bituca pela janela e desligar o celular, o apresentador do rádio jornal sentou-se novamente e falou aos seus ouvintes em tom solene: - Caros ouvintes, tenho novidades sobre o caso do nosso leão. Acabo de receber notícias de que ele foi encontrado! Nosso repórter Silvio Savior está junto dos agentes da policia militar, e acabam de chegar ao local onde dizem estar escondido o animal. Vamos acompanhá-los...

 - É isso mesmo Ricardo. Estamos aqui em frente ao prédio abandonado da antiga prefeitura municipal acompanhando a captura do leão. Segundo informações dos próprios policiais, o animal estaria junto de um grupo de moradores de rua que o estariam alimentando desde a última madrugada. Nós não podemos nos aproximar muito devido ao alto risco que esta operação representa. A única coisa que posso fazer é descrever para você e aos seus ouvintes aquilo que estou vendo. São aproximadamente cinco moradores de rua vivendo neste local. A equipe de policiais que foi até o lugar gira em torno de dez homens. Todos armados com redes e armas-tranquilizantes. Um cerco formado pelos carros da guarda de trânsito limita o acesso ao local. É possível ouvir o rugido do animal mesmo há certa distância. É assustador. Só para você ter uma ideia Ricardo, nunca antes, em toda história desta cidade, um caso como este havia sido registrado. Um momento... parece que começaram a sair. Vamos chegar um pouco mais perto... três soldados vêm puxando o leão para fora. Não tenho certeza, mas é provável que os sedativos já começaram a fazer efeito... ninguém demonstra resistência. Pois é Ricardo, após mais uma cobertura especial diretamente do centro da cidade eu vou me despedindo dos amigos em todo o Vale do Itajaí. É certo que o animal seja encaminhado ao zoológico de Pomerode nos próximos dias. Com isso, terminamos nossa participação. Nos vemos no decorrer de nossa programação.

Próximo dali, na cabine de transmissão, Ricardo que se esquecera de respirar no que parecia ser uma espera sem fim por mais informações, não se segurou mais e bradou: - E os mendigos? O que aconteceu com eles? Não respondendo de imediato e, de repente, após proporcionar um silêncio angustiante entre convidados e ouvintes, o repórter se fez presente e respondeu tranquilamente: “Pelo que me foi dito pela polícia militar, o efeito não deve durar muito e, se tudo correr bem, ainda hoje, todos serão despertados e mandados de volta para suas casas".