quarta-feira, 25 de julho de 2012

A SOMBRA NA NÉVOA


A luz do dia sempre foi motivo de regozijo para a maioria das pessoas. Sua presença traz segurança e enche de calor o coração dos homens. Cada nuvem que se afasta, pássaro que canta ou criança que segue rumo à escola, contribui para o surgimento de ruas congestionadas em mais uma véspera de final de semana. Porém, este não era o caso de Ricardo. Não importava se o dia acabara de nascer ou se já passara da hora do almoço, seus olhos sempre a repudiavam. Nada mais normal, afinal, fazia uma semana que ele não sabia o que era uma boa noite de sono e, ao voltar para aquele lugar cheio de lembranças sombrias, nada seria mais fácil do que pular e acabar com todo aquele sofrimento. Entretanto, não era este o motivo de seu desespero...

Apoiado como estava sobre a murada de proteção da ponte, contemplando as águas do rio Itajaí-Açu, era difícil para qualquer transeunte que por ali passasse desconfiar dos motivos que levavam aquele homem a estar ali.  Passados alguns minutos da hora do almoço e dando as costas para os carros e seus condutores, sua atitude era de total desdém para com as obrigações sociais. Por outro lado, seus constantes movimentos e olhares para ambos os lados demonstravam uma crescente ansiedade, e davam a impressão de estar à espera de alguém. Após um ciclista buzinar pedindo passagem e o tédio tornar-se quase insuportável, eis que surge ao seu lado, como num passe de mágica, seu amigo Eder Weiss. 
  
- Achei que você não viria... , disse Ricardo ao voltar-se novamente para o rio. 

- Desculpe o atraso, mas chegar do jornal até aqui com todo este trânsito maluco não foi uma tarefa fácil, respondeu o repórter com um singelo sorriso enquanto colocava o gravador sobre a murada de proteção. - Quando percebi que era você do outro lado da linha, até me assustei. Quanto tempo faz que não nos falamos? Dois anos? Três, talvez?

- A última vez foi em 2009, quando nos formamos em Jornalismo... , respondeu Ricardo, ao retirar os óculos escuros e colocá-los em um dos bolsos da calça. E continuou:

- Agradeço por ter vindo. Sabe, hoje o dia está tão diferente... Eu não sabia mais a quem recorrer, ainda mais agora que todo mundo acha que eu fiquei louco. Você ainda escreve para aquela seção do jornal?

- Claro. Como já te falei hoje de manhã, estou escrevendo semanalmente sobre Ufologia. Está sendo uma experiência única viajar pelo Brasil em busca de novos relatos e aparições. Só para você ter uma ideia, hoje, quando cheguei na redação, meu chefe disse que terei de ir até o Rio Grande do Sul entrevistar uma família que jura ter visto um disco voador cair próximo de uma fazenda. Bacana, não? Mas voltando ao assunto, me diga: o que foi que aconteceu? Você me parece doente. Não me diga que foi abduzido?

- O gravador está ligado? Confira se está tudo certo, por favor! Não quero ficar aqui falando em vão. Olha, eu não quero ser rude... Só não sei mais em quem confiar... Na verdade, eu não tenho muito tempo... , suplicou Ricardo em meio a inúmeros espirros e soluços, que confirmavam seu estado de saúde debilitado.

- Como você quiser..., disse Weiss ao iniciar a gravação.

“Tudo aconteceu há uma semana. Naquele dia eu iria começar a trabalhar mais cedo, às 5h da manhã. Lembro-me que garoava e fazia um frio miserável. Não tinha ninguém na rua, exceto alguns cachorros revirando as latas de lixo. Da minha casa até o ponto de ônibus são uns dez minutos, por isso tive de apressar o passo. Quando eu passava por esta mesma ponte, fiquei assustado com um fato muito curioso que não costumava ver todos os dias: um nevoeiro cobria toda a extensão do rio Itajaí-Açu. Num primeiro momento eu fiquei encantado, mas depois aquilo começou a me incomodar. Eu não conseguia ver um palmo na frente dos olhos. Lembro-me de ter parado em frente à murada onde estamos agora e olhado fixamente lá para baixo. É verdade que eu já estava atrasado para o trabalho, porém, algo me prendia. Foi aí que eu enxerguei uns pontos luminosos em meio à neblina. Eram três. Na mesma hora puxei minha mochila para mais perto e peguei meu celular. Infelizmente, eu estava tão nervoso que deixei ele cair na água. Quando olhei de novo para o local onde estavam os três pontos, senti os pêlos do meu braço se arrepiarem e quase perdi a respiração. Já não tinha só três pontos, mas dezenas deles. Se espalhavam por toda à margem. Você deve estar se perguntando o que era aquelas luzes, não? Pois é, eu também não sei ao certo. Mas ouvi vozes. Era uma cantoria sinistra. De repente, a névoa cobriu toda a ponte e comecei a correr desesperado. Pensei nos contos do Lovecraft. Naquela semana eu estava lendo demais, eu acho. Deve ter afetado a minha mente.Outra coisa: bastava os cachorros uivarem para o meu coração disparar. Você acredita em mim, não? Com aquele monte de possas espalhadas pelo chão era óbvio que a chance de eu cair um tombo era grande, mas fazer o quê? Aquelas vozes eram horríveis, pensei que tinha um monte de corvos sobre a minha cabeça. Depois de arrebentar minhas mãos e joelhos na queda, eu levantei com certa dificuldade. Sem saber ao certo o motivo, olhei novamente lá para baixo. Maldita hora que fiz isso! Cada vez que eu olhava para dentro daquela estranha névoa, ela parecia cobrir todo o meu corpo. Aí eu escutei uma respiração. O vento parecia ter mudado de direção e os pontos luminosos não estavam mais lá. É claro que já tivemos algumas celebrações religiosas à beira do rio, mas nunca na calada da noite. E, de repente, eu vi aquela coisa voando na minha direção. Meu Deus! Ela tinha asas de anjo num corpo de réptil! Na verdade, parecia uma mulher... Será mesmo ela? Juro que tentei gritar, mas não consegui.  Acho que ela voou na direção de alguma destas montanhas. Só sei que quando aquele monstro partiu os cabos da rede elétrica, eu desmaiei. Não me lembro de mais nada depois. Só recobrei a consciência quando o sol já batia na minha cara e um monte de gente estava falando sem parar ao meu redor. Naquela hora, o nevoeiro já havia se dissipado.

Mesmo com o fim daquele relato, Ricardo não se voltou para Eder Weiss. Continuava imóvel, apenas observando o desenho montanhoso que caracterizava a região. Sendo assim, o repórter guardou seu pequeno gravador em um dos bolsos de sua jaqueta e, quando já se preparava para partir, comentou:

- É uma história curiosa, Ricardo. Acho que pode render uma matéria interessante. Apesar de eu ouvir algumas lendas sobre esta cidade, pouca coisa realmente acontece aqui. Nada de um ET de Varginha, Chupa-Cabra ou monstro do rio. Nada. Em outras regiões do Brasil estas coisas acontecem com mais frequência. Não é como dizia Shakespeare: “Existem mais coisas entre o Céu e a Terra do que tu vã filosofia pode imaginar”. Não é isso? Então, quem pode garantir que não exista uma criatura vivendo neste Vale? Ou algum peixe pré-histórico nas águas deste rio?

Ao terminar de falar, o repórter foi surpreendido pela chegada de três homens vestidos de branco que cercaram seu amigo e lhe imobilizaram. Tudo foi muito rápido: dois seguraram seus braços enquanto um terceiro tampava sua boca. Uma fila de carros se estendia por toda a extensão da ponte. Próximo ao local, bloqueando a passagem dos outros veículos, uma viatura do SAMU aguardava com suas sirenes ligadas. O repórter, por um momento, pensou em acabar com toda aquela insanidade, mas foi detido por uma estanha mulher, que ao puxá-lo pela camisa, aconselhou:

- Deixe ele... eu sei que você quer ajudar, mas este não é o tipo de ajuda que ele precisa agora. Como mãe, eu sei o que é o melhor para ele. Ricardo está doente. Acredito que ele deve ter lhe contado alguma história de monstro ou pesadelo, não? Nesta manhã ele fugiu do hospital e só agora, depois do almoço, é que descobrimos o seu paradeiro. Quase achei que chegaríamos tarde. Peço desculpas pelo meu filho. Sei que vocês estudaram juntos, mesmo assim, acredite: ele não é mais o mesmo. Fica inventando mentiras e atormenta a vida dos vizinhos e familiares. Sei que estou fazendo o melhor para ele...

Fechada as portas da ambulância, Ricardo foi levado para o Hospital Santa Catarina. O trânsito foi se normalizando aos poucos e só restava para Eder Weiss voltar para o trabalho. Mas sua curiosidade falou mais alto e ele quis ir até o local descrito por seu amigo de faculdade. Após alguns metros percorridos, chegou até a descida que levava à margem do rio. Traspondo algumas tábuas, - nitidamente colocadas para evitar a passagem -, ele se viu rodeado por pegadas. Ás árvores caídas também lhe causavam algum espanto – pareciam terem sido arrancadas da própria terra, com suas grandes raízes apontadas para o céu. Olhando para o alto, em direção à ponte, lembrou-se por um instante das olheiras, da palidez e dos cabelos grisalhos de seu colega dos tempos de faculdade. Tinha certa dúvida quanto à sanidade dele, mas os inúmeros relatos que havia coletado nestes últimos anos tinham abalado um pouco o seu ceticismo. E, ao refazer o trajeto de volta rumo ao jornal, apenas uma pergunta se fazia presente e trazia à tona o mesmo espírito dos tempos de estudante: “Será mesmo possível?”.