terça-feira, 17 de janeiro de 2012

O CATA-VENTO

“Certas pessoas parecem separadas da angústia apenas pela pobreza de sua imaginação, como se fossem por demais tolas ou por demais inteligentes para ter medo. Invejo-as às vezes, mas erroneamente. A angústia faz parte de nossa vida. Abre-nos para o real, para o futuro, para a indistinta possibilidade de tudo”. (André Conte- Sponville)
Uma após a outra, suas pálpebras foram se abrindo com certa dificuldade. Por entre nuvens carregadas, os primeiros raios solares se infiltravam através das cortinas e inundavam todo o quarto, trazendo à consciência o nascer de um novo dia. Ainda deitado em sua cama, sentia faltar-lhe as forças necessárias para se levantar e, por esta razão, apenas contemplava o ambiente ao seu redor. Percebeu então que as paredes e janelas tremiam de forma esporádica, lembrando pequenos terremotos. Mesmo os pingos de chuva que caiam lá fora e se chocavam contra o telhado, abafando um pouco os ruídos vindos da rua, não conseguiram dispersar seu pensamento, muitas vezes considerado rígido e obsessivo: “É, mais um caminhão que se vai... parece que outra construção teve início...”
Ao se pôr de pé, Guilherme, um jovem pesquisador independente, preparava-se para realizar suas tarefas rotineiras que tanto gostava nas manhãs de domingo. Num dia como aquele, onde os horários não tinham tanta importância e as pessoas deixavam seus carros nas garagens, realizar atividades como andar descalço sob o piso gelado, trocar a água dos cães e gatos, abrir portas e janelas e, principalmente, ir até o jardim e recolher o periódico entregue pelo jornaleiro, eram pequenos prazeres insuperáveis aos quais ele não abria mão, ainda mais se tratando de finais de semana. Infelizmente, naquele dia, seu caderno de notícias não estava lá. Roubado? Entregue em outra residência por engano? Não podia saber. Acreditou por um instante ser alguma travessura de seu cachorro Peter, entretanto, este dormia profundamente agarrado a um osso de brinquedo e não demonstrava preocupação com o que acontecia no mundo lá fora.
De volta ao interior da casa, mais precisamente à sala de TV, resolveu se distrair um pouco com a tela de alta definição enquanto os outros membros da sua família ainda dormiam. No relógio da parede era possível visualizar o horário: 6hs. Esticado como estava sobre o sofá, Guilherme pôde ouvir pequenas batidas na janela que dividia sua casa do terreno de seu vizinho Renato. Surgindo por entre as árvores, este o cumprimentou. Era um senhor de estatura mediana e, aposentado há muitos anos por questões de saúde, dedicou grande parte de sua vida a manutenção e conservação de seu quintal. Seja cortando galhos já ressecados pela troca das estações ou simplesmente aparando a grama alta, bastava apenas apurar um pouco os ouvidos para acompanhar as cantigas populares em forma de assobios, que anunciavam sua chegada nas primeiras horas da manhã. E, por entre as grades da janela, como fazia durante todo o ano, entregou a Guilherme um saco cheio de acerolas ao qual sentenciou: “Não esqueça que o primeiro copo de suco é meu, entendeu?”. Com um sorriso no rosto, acreditou ser esta a melhor forma de agradecer aquele gesto singelo.
Após colocar as acerolas no freezer e apanhar o molho de chaves em cima da geladeira, dirigiu-se até o portão e saiu sem deixar recado. Caminhando pela estrada recém asfaltada, acompanhou com o olhar as casas dos vizinhos e buscou seus rostos através da memória. “Infelizmente, a minha família não é a deles..., pensou. Teve a oportunidade também de visualizar, ao longe, a chaminé de uma grande empresa têxtil na qual trabalhou por alguns anos. Ela expelia uma fumaça negra, espessa, que logo foi desaparecendo no ar. Lembrou-se então do jornal. De repente, num gesto inconsciente, acelerou a passada e, mudando de forma abrupta a direção e ignorando o caminho até então percorrido, seguiu em frente rumo à única banca de jornal do bairro. Ao passar os olhos pelas publicações, nenhuma delas chamou tanto sua atenção quanto a conversa entre o dono da banca e outro cliente que folheava uma revista semanal. Ambos discutiam sobre uma notícia que se tornou capa dos grandes jornais e gerou grande repercussão: a construção de uma Usina Nuclear na cidade de Blumenau.
“Quanto custa?”, perguntou Guilherme ao colocar o jornal na mochila. “R$ 6,00, meu filho”, respondeu o proprietário. “Custa um a mais por causa do frete...”, tentou se explicar, após certo constrangimento gerado pelo valor cobrado ser diferente do que constava na primeira página. A discussão entre os dois senhores girava em torno de alguns assuntos interessantes, desde geração de energia até as dificuldades de se encontrar um local adequado para iniciar as obras. “Eles não percebem o perigo... este plano da Dilma de construí-las é uma loucura!... Duas no Nordeste, duas no Sudeste... e agora uma no Sul? Como assim, decisão irrevogável? Eles que vão construir uma na frente da casa deles!”, esbravejando ao mesmo tempo em que se censurava pela ingenuidade. Ao ir se afastando, estes pensamentos geraram vários tipos de sentimentos, como indignação e frustração, que acabaram contribuindo para o surgimento de uma intuição que lhe tomou de assalto a atenção e provocou uma onda de esbarrões entre ele e as inúmeras sacolas de compras carregadas pelos transeuntes vindos do mercado: “Prédio que nada, casa que nada, aqueles caminhões estão a serviço do governo...
No trajeto de volta para casa, seu coração já não batia tão forte e sua respiração aos poucos foi voltando ao ritmo normal. Ao optar por uma rua menos movimentada, foi de encontro às Areias Beckhauser. Era um local aonde inúmeros caminhões iam e vinham constantemente e várias pessoas utilizavam como via de acesso para irem pescar nos dias de folga. Ultrapassando o portão principal e esquivando-se dos montes de areia que obstruíam sua passagem, Guilherme foi descendo uma pequena ladeira até chegar à beira do rio. Lá encontrou Renato pescando na companhia de seus dois netos. Sem se fazer notar, sentou-se ao lado deles e apenas observou o momento em que o anzol era lançado pela primeira vez. Enquanto acompanhava este movimento, na outra margem do rio, acima das copas das árvores, seu senso de escala foi surpreendido pela visão de uma gigantesca turbina eólica. Tendo apenas sua hélice visível, começou a trocar palavras consigo mesmo, como de costume: “Desde quando ela está aí”? E, continuou, admirando-se do fato constatado: “Eu nunca tinha visto uma de perto... não havia percebido...”.
De repente, um assobio se fez presente. Não era o vento zumbindo por sobre suas cabeças ou os lixeiros trabalhando próximo dali; em Blumenau, o vento não se faz presente: apenas o calor e a chuva. E este fato podia ser constatado pela fina garoa que chegava e partia constantemente, e também pelas gotículas de água que iam acumulando-se por sobre as folhas e galhos estáticos. Renato sabia que não podia mais confiar nas previsões meteriológicas como antigamente, e acenava para seus netos e pedia que estes colocassem suas capas. Quando estes, Penélope e Ricardo, já apresentavam sinais claros de aborrecimento proporcionados por uma pescaria enfadonha e brincavam longe dali, Guilherme aproveitou para se aproximar e perguntou enquanto não tirava os olhos do enorme cata-vento: “Por acaso o senhor ficou sabendo da notícia sobre a usina aqui na cidade?”. Após forçar o molinete duas vezes para trás, sem nada conseguir fisgar, ele respondeu: “Hoje de manhã quando fui até o mercado comprar pão e leite para as crianças e depois passei lá na banca, o seu Ernesto me contou. Eu achei curioso. Na verdade eu nem tenho muita noção de como seja uma. Por acaso já escolheram o lugar?”. Guilherme ouviu com atenção aquela resposta e sua pergunta subseqüente, mas não respondeu. “Ainda não... mas pode ser em qualquer lugar Seu Renato... no meu bairro, no seu... na minha rua, na sua... de preferência perto de um rio... basta apenas eles quererem...”, respondendo apenas em pensamento, enquanto o bater de asas de uma ave na direção contrária à correnteza, rio acima, mostrava todo o empenho da natureza em sua luta diária por alimento.
Enquanto Renato remexia um pequeno pote onde guardava suas iscas e preparava-se para um novo arremesso, entregou uma garrafa para o jovem pesquisador, dizendo: “Quando nós chegamos aqui hoje de manhã, Penélope a encontrou no meio daquelas pedras e trouxe correndo para cá. Deve ser alguma carta de amor ou algo assim... Não sei... também pode ser outra coisa...”. Era uma típica garrafa de vinho, destas facilmente encontradas em mercados e mercearias. Não possuía rótulo e, dentro dela - como já seria de se imaginar - não havia nenhum líquido, mas uma mensagem. Ao retirar a rolha e desenrolar o laço que prendia o pequeno manuscrito, Guilherme começou ao lê-lo. “Leia em voz alta, fazendo o favor... Também quero saber o que está escrito nela”, pediu encarecidamente o velho senhor, logo após perceber a linha partida e ter a certeza de que não levaria nenhum almoço para casa naquele dia.
O LEGADO DE CHERNOBYL,
Algum cara cometeu um erro. Apertou o botão errado na hora errada. E em 20 segundos não era mais possível pará-lo.
Milhares e milhares de toneladas de material radioativo foram expelidos no ar, apanhados em uma enorme tempestade e começaram a mover-se através do país.
Setenta por cento desse material radioativo caiu na Bielorrússia. O reator não era deles.
As primeiras pessoas a aparecerem foram duas companhias de bombeiros.
Ivan Shavre, um dos sobreviventes: “Eu acordei em um hospital em Moscow. De início nós gracejamos sobre a radiação. Então nós ouvimos que um camarada começou a sangrar pelo nariz e pela boca. E seu corpo ficou preto. E morreu.”
Onde quer que exista radiação, as pessoas vivem com ela. Comem-na em seu alimento. Bebem-na em sua água.
Os garotos em Novinki que tem problemas são diagnosticados e categorizados… A, B, C, D.
D, é sem esperança, eles nunca vão ser seres humanos reais. Nunca vão ter muito. Todos vão a Novinki.
E, uma vez que estejam lá, se sobreviverem e viverem, serão enviados ao asilo principal.
Era como se uma raça diferente estivesse sendo criada, pois eles parecem humanos, mas todos obviamente tinham problemas.
Alesya era uma menina quando foi diagnosticada com câncer. Tinha sido exposta à radiação quando era muito pequena, com mais ou menos 2 anos, quando começou a correr para brincar.
E nesse dia a chuva era escura e oleosa e ficou conhecida como a chuva negra de Chernobyl. Nove anos depois ela estava com leucemia.
Eu me encontrei com ela no hospital quando ela tinha dezesseis. Esta garota de dezesseis anos era muito bonita. Eu voltei no dia seguinte e Alesya estava em coma. E seus pais estavam devastados. Era um dia terrível para se ver uma mãe perder sua filha.
Antes de começar a tirar fotografias eu perguntei se não tinha problema. E sua resposta foi, “sim, nós queremos que todos saibam o que eles fizeram”.
O horror que foi aquilo, nós não podemos nem mesmo ousar pensar que possa acontecer novamente.
Todos dizem que nunca acontecerá. Pois é, nós sempre falamos isso, nunca acontecerá, mas tudo que nós humanos fazemos quebra. Tudo quebra. Tudo se desgasta...
Belarus, Ucrânia, 1997.
Paul Fusco, fotógrafo.
Suavemente, foi sentindo seu rosto todo sendo coberto por uma fina camada e gotas começaram a cair da ponta de seus cabelos, dissolvendo letras, distorcendo frases, mudando significados. Mesmo com o término daquela leitura, seus dedos não conseguiam largar aquele pedaço de papel que por acaso tinha chegado até suas mãos. A emoção era visível, ainda mais, talvez, pelo badalar dos sinos da igreja evangélica que anunciavam o encerramento do culto dominical. “Pois é, acho que tá na hora de eu ir”, foi falando Renato, na mesma hora que começava a recolher seus pertences. “Minha mulher já deve estar indo para casa preparar o almoço, e quando ela souber que não vai ter peixe hoje, tu já sabes!”, rindo de forma descontraída ao ir se levantando. E, ao ficar de pé, gritou: “Penélope, Ricardo, está na hora da gente ir almoçar!”.
Ao acompanhar a chegada das duas crianças, que vinham em sua direção, Guilherme se lembrou de Alesya. A menina do relato de Fusco. A garoa que caia em Blumenau também o recordava. Olhando para aquela família, em seu intimo, ele próprio se questionava se não estava se preocupando demais, desperdiçando seus dias com preocupações futuras, com algo que poderia nunca acontecer. “Eles dizem que elas são seguras, que são a única forma de evitar o aquecimento global, que as chances de voltar a acontecer uma catástrofe são remotas... Eu também gostaria de ser como eles, mas não posso. Parece até que ela não sabe que uma única decisão pode mudar o destino de um monte de gente. Parece até que eles não sabem que existem outras alternativas...”. Guilherme sabia de tudo isso e também de muito mais, mas a decisão já tinha sido tomada. Por isso jogou a garrafa de volta ao rio, sem hesitar. Renato já subia a ladeira segurando a mão de cada um de seus netos e não se voltou mais para trás, até que Penélope desvencilhando-se do avô voltou para perto do jovem pesquisador e lhe ofereceu um presente: um cata-vento de brinquedo, em forma de girassol. Antes que o jovem o pegasse e levasse junto para sua casa, a garotinha o colocou perto de seu rosto, fechou os olhos e assoprou. Ao qual ele pensou: “É, a gente só precisa assoprar...”