terça-feira, 9 de outubro de 2012

UM LEÃO À ESPREITA


“O bem-estar de um lugar, qualquer que seja, nunca é inocente em relação à miséria de outro”. (Zygmunt Bauman)

Após estacionar seu veículo em frente ao prédio onde trabalhava, Ricardo aguardou alguns instantes antes de desembarcar. Com as mãos ainda presas ao volante, fitava atentamente a fachada de entrada. “A mesma cena todos os dias, mudam apenas os protagonistas”, pensou. Ao descer, deu uma conferida para ver se estava tudo em ordem, se não havia esquecido nada. “A gente nunca sabe quando eles estão por perto...”, concluiu, após conferir se as portas de seu automóvel estavam devidamente trancadas e o alarme ligado. Com passos decididos, subiu alguns degraus e parou em frente à porta da emissora. Por baixo do toldo pôde observar um homem estirado sobre um pedaço de papelão e coberto apenas pelas roupas do corpo. Automaticamente, levou a mão até o rosto e protegeu o nariz numa clara expressão de repugnância. Não conseguindo mais se conter e, desferindo um pequeno chute na região lombar, Ricardo o acordou:

- Já não te falei mil vezes que não era para vocês dormirem aqui? Isso aqui é um lugar de trabalho, não hotel. Não adianta falar mesmo, todo dia é a mesma lengalenga. Eu já estou cansado, sabia? E essa catinga toda? Por que tu não vai dormir ali na praça?

Virando-se vagarosamente e ainda esfregando o lugar atingido, o velho senhor foi se levantando aos poucos. Depois de arrumar a roupa amarrotada e pentear os cabelos desgrenhados com os próprios dedos, ele respondeu: - Eu até iria para outro lugar se pudesse, mas estou com muito medo. Na verdade, todos estão. Ninguém mais dorme direito. O senhor ainda não sabe? Tem um leão solto por aqui. Eu o ouvi a noite toda...

- Sim, sim, eu já fiquei sabendo. Não era nem cinco da manhã e meu telefone já tocava sem parar. Minha mulher queria me matar. Agora me dê licença porque eu preciso trabalhar. Afinal, alguém precisa trabalhar nesta cidade.

Ao adentrar no estúdio, Ricardo foi fazendo suas atividades rotineiras. Era sempre o primeiro a chegar. Após encher sua caneca preferida com o café recém-coado, esparramou-se na cadeira e, maquinalmente, foi ligando o computador e toda a aparelhagem de som. Enquanto aguardava, não pôde evitar pensar na ideia de um leão solto próximo ao local onde estava. “Pode ser que seja mesmo, como também pode ser apenas besteira...”. Num pulo, dirigiu-se até a janela. Passou os olhos pelas casas, pelos becos e, principalmente, pelas áreas verdes. E, ao acompanhar o movimento de um grupo de nuvens carregadas, avistou também um helicóptero sobrevoando a região. Afastando rapidamente a caneca dos lábios, fechou a cortina e foi receber seus convidados. 

O jornal Povo à Margem ia ao ar todos os dias pontualmente às 6hs. Seu apresentador Ricardo “O implacável”, como era chamado pelos amigos da patota de futebol, sempre foi um cidadão preocupado com a ordem e os bons costumes da comunidade onde vivia. Sua missão, como sempre dizia, era limpar as ruas da chamada doença social. E, para tanto, naquele dia, havia convocado algumas pessoas envolvidas com a principal notícia e preocupação que aterrorizava os trabalhadores da cidade de Blumenau: um leão havia fugido de um circo e agora estava à espreita.

Sentados ao seu redor, estavam o proprietário do circo, que já se preparava para deixar a cidade; o comandante da policia militar ambiental, responsável pela operação de captura do grande felino; e o comerciante José da Silva, primeiro a encontrar o animal durante uma de suas caminhadas noturnas. Após todos ajeitarem seus microfones e acomodarem-se da melhor maneira possível, o âncora do programa começou a falar:

- Primeiramente, gostaria de agradecer a presença de todos. Como vocês bem sabem, o medo se instalou definidamente em nossa cidade. Um leão está à solta. O nosso telefone não para um segundo. É preciso que alguma coisa seja feita rapidamente, para que as pessoas possam voltar ao trabalho, voltar à normalidade. E para discutirmos um pouco mais sobre o caso é que chamei os senhores até aqui hoje.

Virando-se de repente, e olhando fixamente hora para um, depois para os outros, estes já se preparavam para os mais diversos questionamentos, sobre o felino e suas próprias atividades, entretanto, não foi o que aconteceu. Ricardo não passou a palavra aos homens ali reunidos, mas expôs sua própria opinião.

- Como já sabemos, o circo não abrigava nenhum animal selvagem. Nem elefante, muito menos leão. Já colocamos no ar o depoimento de várias pessoas que ouviram o rugido enquanto tomavam banho; outras, disseram que não se tratava de um leão, mas de uma pantera; e finalmente: que tudo não passava de um engano, tratando-se apenas de um gato doméstico de aproximadamente 11 kg chamado Tadeu. Desta forma, os senhores em casa podem suspeitar da seriedade destes relatos. Na verdade, me parece que as pessoas estão até se divertindo com tudo isso... Não tenho dúvida que este tipo de acontecimento dá um pouco de cor à nossa rotina diária, mas não seria o caso de nos preocuparmos com aquilo que é realmente importante? O que realmente nos ameaça? Será o tal do leão? Acho que não. Vejamos se vocês não concordam comigo. Não seria uma ameaça muito maior todos estes desocupados dormindo em nossas ruas? Roubando, violentando, consumindo drogas e matando? Não é hora de nossas autoridades seguirem o exemplo de outras cidades no combate a estes marginais? A construção de rampas e bancos antimendigo já se mostraram eficientes em outros Estados. Colocar pedras em baixo de pontes e viadutos também pode ajudar... Não acham?

Interrompendo repentinamente e mostrando sinais claros de estar visivelmente aborrecido com toda aquela situação, Ricardo se livrou dos fones de ouvido e, um pouco antes de virar todo o conteúdo de sua caneca num gole só, chamou o intervalo. Próximo da janela acendeu um cigarro e ficou por algum tempo observando seu carro parado do lado de fora. Após jogar a bituca pela janela e desligar o celular, o apresentador do rádio jornal sentou-se novamente e falou aos seus ouvintes em tom solene: - Caros ouvintes, tenho novidades sobre o caso do nosso leão. Acabo de receber notícias de que ele foi encontrado! Nosso repórter Silvio Savior está junto dos agentes da policia militar, e acabam de chegar ao local onde dizem estar escondido o animal. Vamos acompanhá-los...

 - É isso mesmo Ricardo. Estamos aqui em frente ao prédio abandonado da antiga prefeitura municipal acompanhando a captura do leão. Segundo informações dos próprios policiais, o animal estaria junto de um grupo de moradores de rua que o estariam alimentando desde a última madrugada. Nós não podemos nos aproximar muito devido ao alto risco que esta operação representa. A única coisa que posso fazer é descrever para você e aos seus ouvintes aquilo que estou vendo. São aproximadamente cinco moradores de rua vivendo neste local. A equipe de policiais que foi até o lugar gira em torno de dez homens. Todos armados com redes e armas-tranquilizantes. Um cerco formado pelos carros da guarda de trânsito limita o acesso ao local. É possível ouvir o rugido do animal mesmo há certa distância. É assustador. Só para você ter uma ideia Ricardo, nunca antes, em toda história desta cidade, um caso como este havia sido registrado. Um momento... parece que começaram a sair. Vamos chegar um pouco mais perto... três soldados vêm puxando o leão para fora. Não tenho certeza, mas é provável que os sedativos já começaram a fazer efeito... ninguém demonstra resistência. Pois é Ricardo, após mais uma cobertura especial diretamente do centro da cidade eu vou me despedindo dos amigos em todo o Vale do Itajaí. É certo que o animal seja encaminhado ao zoológico de Pomerode nos próximos dias. Com isso, terminamos nossa participação. Nos vemos no decorrer de nossa programação.

Próximo dali, na cabine de transmissão, Ricardo que se esquecera de respirar no que parecia ser uma espera sem fim por mais informações, não se segurou mais e bradou: - E os mendigos? O que aconteceu com eles? Não respondendo de imediato e, de repente, após proporcionar um silêncio angustiante entre convidados e ouvintes, o repórter se fez presente e respondeu tranquilamente: “Pelo que me foi dito pela polícia militar, o efeito não deve durar muito e, se tudo correr bem, ainda hoje, todos serão despertados e mandados de volta para suas casas". 

quarta-feira, 25 de julho de 2012

A SOMBRA NA NÉVOA


A luz do dia sempre foi motivo de regozijo para a maioria das pessoas. Sua presença traz segurança e enche de calor o coração dos homens. Cada nuvem que se afasta, pássaro que canta ou criança que segue rumo à escola, contribui para o surgimento de ruas congestionadas em mais uma véspera de final de semana. Porém, este não era o caso de Ricardo. Não importava se o dia acabara de nascer ou se já passara da hora do almoço, seus olhos sempre a repudiavam. Nada mais normal, afinal, fazia uma semana que ele não sabia o que era uma boa noite de sono e, ao voltar para aquele lugar cheio de lembranças sombrias, nada seria mais fácil do que pular e acabar com todo aquele sofrimento. Entretanto, não era este o motivo de seu desespero...

Apoiado como estava sobre a murada de proteção da ponte, contemplando as águas do rio Itajaí-Açu, era difícil para qualquer transeunte que por ali passasse desconfiar dos motivos que levavam aquele homem a estar ali.  Passados alguns minutos da hora do almoço e dando as costas para os carros e seus condutores, sua atitude era de total desdém para com as obrigações sociais. Por outro lado, seus constantes movimentos e olhares para ambos os lados demonstravam uma crescente ansiedade, e davam a impressão de estar à espera de alguém. Após um ciclista buzinar pedindo passagem e o tédio tornar-se quase insuportável, eis que surge ao seu lado, como num passe de mágica, seu amigo Eder Weiss. 
  
- Achei que você não viria... , disse Ricardo ao voltar-se novamente para o rio. 

- Desculpe o atraso, mas chegar do jornal até aqui com todo este trânsito maluco não foi uma tarefa fácil, respondeu o repórter com um singelo sorriso enquanto colocava o gravador sobre a murada de proteção. - Quando percebi que era você do outro lado da linha, até me assustei. Quanto tempo faz que não nos falamos? Dois anos? Três, talvez?

- A última vez foi em 2009, quando nos formamos em Jornalismo... , respondeu Ricardo, ao retirar os óculos escuros e colocá-los em um dos bolsos da calça. E continuou:

- Agradeço por ter vindo. Sabe, hoje o dia está tão diferente... Eu não sabia mais a quem recorrer, ainda mais agora que todo mundo acha que eu fiquei louco. Você ainda escreve para aquela seção do jornal?

- Claro. Como já te falei hoje de manhã, estou escrevendo semanalmente sobre Ufologia. Está sendo uma experiência única viajar pelo Brasil em busca de novos relatos e aparições. Só para você ter uma ideia, hoje, quando cheguei na redação, meu chefe disse que terei de ir até o Rio Grande do Sul entrevistar uma família que jura ter visto um disco voador cair próximo de uma fazenda. Bacana, não? Mas voltando ao assunto, me diga: o que foi que aconteceu? Você me parece doente. Não me diga que foi abduzido?

- O gravador está ligado? Confira se está tudo certo, por favor! Não quero ficar aqui falando em vão. Olha, eu não quero ser rude... Só não sei mais em quem confiar... Na verdade, eu não tenho muito tempo... , suplicou Ricardo em meio a inúmeros espirros e soluços, que confirmavam seu estado de saúde debilitado.

- Como você quiser..., disse Weiss ao iniciar a gravação.

“Tudo aconteceu há uma semana. Naquele dia eu iria começar a trabalhar mais cedo, às 5h da manhã. Lembro-me que garoava e fazia um frio miserável. Não tinha ninguém na rua, exceto alguns cachorros revirando as latas de lixo. Da minha casa até o ponto de ônibus são uns dez minutos, por isso tive de apressar o passo. Quando eu passava por esta mesma ponte, fiquei assustado com um fato muito curioso que não costumava ver todos os dias: um nevoeiro cobria toda a extensão do rio Itajaí-Açu. Num primeiro momento eu fiquei encantado, mas depois aquilo começou a me incomodar. Eu não conseguia ver um palmo na frente dos olhos. Lembro-me de ter parado em frente à murada onde estamos agora e olhado fixamente lá para baixo. É verdade que eu já estava atrasado para o trabalho, porém, algo me prendia. Foi aí que eu enxerguei uns pontos luminosos em meio à neblina. Eram três. Na mesma hora puxei minha mochila para mais perto e peguei meu celular. Infelizmente, eu estava tão nervoso que deixei ele cair na água. Quando olhei de novo para o local onde estavam os três pontos, senti os pêlos do meu braço se arrepiarem e quase perdi a respiração. Já não tinha só três pontos, mas dezenas deles. Se espalhavam por toda à margem. Você deve estar se perguntando o que era aquelas luzes, não? Pois é, eu também não sei ao certo. Mas ouvi vozes. Era uma cantoria sinistra. De repente, a névoa cobriu toda a ponte e comecei a correr desesperado. Pensei nos contos do Lovecraft. Naquela semana eu estava lendo demais, eu acho. Deve ter afetado a minha mente.Outra coisa: bastava os cachorros uivarem para o meu coração disparar. Você acredita em mim, não? Com aquele monte de possas espalhadas pelo chão era óbvio que a chance de eu cair um tombo era grande, mas fazer o quê? Aquelas vozes eram horríveis, pensei que tinha um monte de corvos sobre a minha cabeça. Depois de arrebentar minhas mãos e joelhos na queda, eu levantei com certa dificuldade. Sem saber ao certo o motivo, olhei novamente lá para baixo. Maldita hora que fiz isso! Cada vez que eu olhava para dentro daquela estranha névoa, ela parecia cobrir todo o meu corpo. Aí eu escutei uma respiração. O vento parecia ter mudado de direção e os pontos luminosos não estavam mais lá. É claro que já tivemos algumas celebrações religiosas à beira do rio, mas nunca na calada da noite. E, de repente, eu vi aquela coisa voando na minha direção. Meu Deus! Ela tinha asas de anjo num corpo de réptil! Na verdade, parecia uma mulher... Será mesmo ela? Juro que tentei gritar, mas não consegui.  Acho que ela voou na direção de alguma destas montanhas. Só sei que quando aquele monstro partiu os cabos da rede elétrica, eu desmaiei. Não me lembro de mais nada depois. Só recobrei a consciência quando o sol já batia na minha cara e um monte de gente estava falando sem parar ao meu redor. Naquela hora, o nevoeiro já havia se dissipado.

Mesmo com o fim daquele relato, Ricardo não se voltou para Eder Weiss. Continuava imóvel, apenas observando o desenho montanhoso que caracterizava a região. Sendo assim, o repórter guardou seu pequeno gravador em um dos bolsos de sua jaqueta e, quando já se preparava para partir, comentou:

- É uma história curiosa, Ricardo. Acho que pode render uma matéria interessante. Apesar de eu ouvir algumas lendas sobre esta cidade, pouca coisa realmente acontece aqui. Nada de um ET de Varginha, Chupa-Cabra ou monstro do rio. Nada. Em outras regiões do Brasil estas coisas acontecem com mais frequência. Não é como dizia Shakespeare: “Existem mais coisas entre o Céu e a Terra do que tu vã filosofia pode imaginar”. Não é isso? Então, quem pode garantir que não exista uma criatura vivendo neste Vale? Ou algum peixe pré-histórico nas águas deste rio?

Ao terminar de falar, o repórter foi surpreendido pela chegada de três homens vestidos de branco que cercaram seu amigo e lhe imobilizaram. Tudo foi muito rápido: dois seguraram seus braços enquanto um terceiro tampava sua boca. Uma fila de carros se estendia por toda a extensão da ponte. Próximo ao local, bloqueando a passagem dos outros veículos, uma viatura do SAMU aguardava com suas sirenes ligadas. O repórter, por um momento, pensou em acabar com toda aquela insanidade, mas foi detido por uma estanha mulher, que ao puxá-lo pela camisa, aconselhou:

- Deixe ele... eu sei que você quer ajudar, mas este não é o tipo de ajuda que ele precisa agora. Como mãe, eu sei o que é o melhor para ele. Ricardo está doente. Acredito que ele deve ter lhe contado alguma história de monstro ou pesadelo, não? Nesta manhã ele fugiu do hospital e só agora, depois do almoço, é que descobrimos o seu paradeiro. Quase achei que chegaríamos tarde. Peço desculpas pelo meu filho. Sei que vocês estudaram juntos, mesmo assim, acredite: ele não é mais o mesmo. Fica inventando mentiras e atormenta a vida dos vizinhos e familiares. Sei que estou fazendo o melhor para ele...

Fechada as portas da ambulância, Ricardo foi levado para o Hospital Santa Catarina. O trânsito foi se normalizando aos poucos e só restava para Eder Weiss voltar para o trabalho. Mas sua curiosidade falou mais alto e ele quis ir até o local descrito por seu amigo de faculdade. Após alguns metros percorridos, chegou até a descida que levava à margem do rio. Traspondo algumas tábuas, - nitidamente colocadas para evitar a passagem -, ele se viu rodeado por pegadas. Ás árvores caídas também lhe causavam algum espanto – pareciam terem sido arrancadas da própria terra, com suas grandes raízes apontadas para o céu. Olhando para o alto, em direção à ponte, lembrou-se por um instante das olheiras, da palidez e dos cabelos grisalhos de seu colega dos tempos de faculdade. Tinha certa dúvida quanto à sanidade dele, mas os inúmeros relatos que havia coletado nestes últimos anos tinham abalado um pouco o seu ceticismo. E, ao refazer o trajeto de volta rumo ao jornal, apenas uma pergunta se fazia presente e trazia à tona o mesmo espírito dos tempos de estudante: “Será mesmo possível?”. 

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

O CATA-VENTO

“Certas pessoas parecem separadas da angústia apenas pela pobreza de sua imaginação, como se fossem por demais tolas ou por demais inteligentes para ter medo. Invejo-as às vezes, mas erroneamente. A angústia faz parte de nossa vida. Abre-nos para o real, para o futuro, para a indistinta possibilidade de tudo”. (André Conte- Sponville)
Uma após a outra, suas pálpebras foram se abrindo com certa dificuldade. Por entre nuvens carregadas, os primeiros raios solares se infiltravam através das cortinas e inundavam todo o quarto, trazendo à consciência o nascer de um novo dia. Ainda deitado em sua cama, sentia faltar-lhe as forças necessárias para se levantar e, por esta razão, apenas contemplava o ambiente ao seu redor. Percebeu então que as paredes e janelas tremiam de forma esporádica, lembrando pequenos terremotos. Mesmo os pingos de chuva que caiam lá fora e se chocavam contra o telhado, abafando um pouco os ruídos vindos da rua, não conseguiram dispersar seu pensamento, muitas vezes considerado rígido e obsessivo: “É, mais um caminhão que se vai... parece que outra construção teve início...”
Ao se pôr de pé, Guilherme, um jovem pesquisador independente, preparava-se para realizar suas tarefas rotineiras que tanto gostava nas manhãs de domingo. Num dia como aquele, onde os horários não tinham tanta importância e as pessoas deixavam seus carros nas garagens, realizar atividades como andar descalço sob o piso gelado, trocar a água dos cães e gatos, abrir portas e janelas e, principalmente, ir até o jardim e recolher o periódico entregue pelo jornaleiro, eram pequenos prazeres insuperáveis aos quais ele não abria mão, ainda mais se tratando de finais de semana. Infelizmente, naquele dia, seu caderno de notícias não estava lá. Roubado? Entregue em outra residência por engano? Não podia saber. Acreditou por um instante ser alguma travessura de seu cachorro Peter, entretanto, este dormia profundamente agarrado a um osso de brinquedo e não demonstrava preocupação com o que acontecia no mundo lá fora.
De volta ao interior da casa, mais precisamente à sala de TV, resolveu se distrair um pouco com a tela de alta definição enquanto os outros membros da sua família ainda dormiam. No relógio da parede era possível visualizar o horário: 6hs. Esticado como estava sobre o sofá, Guilherme pôde ouvir pequenas batidas na janela que dividia sua casa do terreno de seu vizinho Renato. Surgindo por entre as árvores, este o cumprimentou. Era um senhor de estatura mediana e, aposentado há muitos anos por questões de saúde, dedicou grande parte de sua vida a manutenção e conservação de seu quintal. Seja cortando galhos já ressecados pela troca das estações ou simplesmente aparando a grama alta, bastava apenas apurar um pouco os ouvidos para acompanhar as cantigas populares em forma de assobios, que anunciavam sua chegada nas primeiras horas da manhã. E, por entre as grades da janela, como fazia durante todo o ano, entregou a Guilherme um saco cheio de acerolas ao qual sentenciou: “Não esqueça que o primeiro copo de suco é meu, entendeu?”. Com um sorriso no rosto, acreditou ser esta a melhor forma de agradecer aquele gesto singelo.
Após colocar as acerolas no freezer e apanhar o molho de chaves em cima da geladeira, dirigiu-se até o portão e saiu sem deixar recado. Caminhando pela estrada recém asfaltada, acompanhou com o olhar as casas dos vizinhos e buscou seus rostos através da memória. “Infelizmente, a minha família não é a deles..., pensou. Teve a oportunidade também de visualizar, ao longe, a chaminé de uma grande empresa têxtil na qual trabalhou por alguns anos. Ela expelia uma fumaça negra, espessa, que logo foi desaparecendo no ar. Lembrou-se então do jornal. De repente, num gesto inconsciente, acelerou a passada e, mudando de forma abrupta a direção e ignorando o caminho até então percorrido, seguiu em frente rumo à única banca de jornal do bairro. Ao passar os olhos pelas publicações, nenhuma delas chamou tanto sua atenção quanto a conversa entre o dono da banca e outro cliente que folheava uma revista semanal. Ambos discutiam sobre uma notícia que se tornou capa dos grandes jornais e gerou grande repercussão: a construção de uma Usina Nuclear na cidade de Blumenau.
“Quanto custa?”, perguntou Guilherme ao colocar o jornal na mochila. “R$ 6,00, meu filho”, respondeu o proprietário. “Custa um a mais por causa do frete...”, tentou se explicar, após certo constrangimento gerado pelo valor cobrado ser diferente do que constava na primeira página. A discussão entre os dois senhores girava em torno de alguns assuntos interessantes, desde geração de energia até as dificuldades de se encontrar um local adequado para iniciar as obras. “Eles não percebem o perigo... este plano da Dilma de construí-las é uma loucura!... Duas no Nordeste, duas no Sudeste... e agora uma no Sul? Como assim, decisão irrevogável? Eles que vão construir uma na frente da casa deles!”, esbravejando ao mesmo tempo em que se censurava pela ingenuidade. Ao ir se afastando, estes pensamentos geraram vários tipos de sentimentos, como indignação e frustração, que acabaram contribuindo para o surgimento de uma intuição que lhe tomou de assalto a atenção e provocou uma onda de esbarrões entre ele e as inúmeras sacolas de compras carregadas pelos transeuntes vindos do mercado: “Prédio que nada, casa que nada, aqueles caminhões estão a serviço do governo...
No trajeto de volta para casa, seu coração já não batia tão forte e sua respiração aos poucos foi voltando ao ritmo normal. Ao optar por uma rua menos movimentada, foi de encontro às Areias Beckhauser. Era um local aonde inúmeros caminhões iam e vinham constantemente e várias pessoas utilizavam como via de acesso para irem pescar nos dias de folga. Ultrapassando o portão principal e esquivando-se dos montes de areia que obstruíam sua passagem, Guilherme foi descendo uma pequena ladeira até chegar à beira do rio. Lá encontrou Renato pescando na companhia de seus dois netos. Sem se fazer notar, sentou-se ao lado deles e apenas observou o momento em que o anzol era lançado pela primeira vez. Enquanto acompanhava este movimento, na outra margem do rio, acima das copas das árvores, seu senso de escala foi surpreendido pela visão de uma gigantesca turbina eólica. Tendo apenas sua hélice visível, começou a trocar palavras consigo mesmo, como de costume: “Desde quando ela está aí”? E, continuou, admirando-se do fato constatado: “Eu nunca tinha visto uma de perto... não havia percebido...”.
De repente, um assobio se fez presente. Não era o vento zumbindo por sobre suas cabeças ou os lixeiros trabalhando próximo dali; em Blumenau, o vento não se faz presente: apenas o calor e a chuva. E este fato podia ser constatado pela fina garoa que chegava e partia constantemente, e também pelas gotículas de água que iam acumulando-se por sobre as folhas e galhos estáticos. Renato sabia que não podia mais confiar nas previsões meteriológicas como antigamente, e acenava para seus netos e pedia que estes colocassem suas capas. Quando estes, Penélope e Ricardo, já apresentavam sinais claros de aborrecimento proporcionados por uma pescaria enfadonha e brincavam longe dali, Guilherme aproveitou para se aproximar e perguntou enquanto não tirava os olhos do enorme cata-vento: “Por acaso o senhor ficou sabendo da notícia sobre a usina aqui na cidade?”. Após forçar o molinete duas vezes para trás, sem nada conseguir fisgar, ele respondeu: “Hoje de manhã quando fui até o mercado comprar pão e leite para as crianças e depois passei lá na banca, o seu Ernesto me contou. Eu achei curioso. Na verdade eu nem tenho muita noção de como seja uma. Por acaso já escolheram o lugar?”. Guilherme ouviu com atenção aquela resposta e sua pergunta subseqüente, mas não respondeu. “Ainda não... mas pode ser em qualquer lugar Seu Renato... no meu bairro, no seu... na minha rua, na sua... de preferência perto de um rio... basta apenas eles quererem...”, respondendo apenas em pensamento, enquanto o bater de asas de uma ave na direção contrária à correnteza, rio acima, mostrava todo o empenho da natureza em sua luta diária por alimento.
Enquanto Renato remexia um pequeno pote onde guardava suas iscas e preparava-se para um novo arremesso, entregou uma garrafa para o jovem pesquisador, dizendo: “Quando nós chegamos aqui hoje de manhã, Penélope a encontrou no meio daquelas pedras e trouxe correndo para cá. Deve ser alguma carta de amor ou algo assim... Não sei... também pode ser outra coisa...”. Era uma típica garrafa de vinho, destas facilmente encontradas em mercados e mercearias. Não possuía rótulo e, dentro dela - como já seria de se imaginar - não havia nenhum líquido, mas uma mensagem. Ao retirar a rolha e desenrolar o laço que prendia o pequeno manuscrito, Guilherme começou ao lê-lo. “Leia em voz alta, fazendo o favor... Também quero saber o que está escrito nela”, pediu encarecidamente o velho senhor, logo após perceber a linha partida e ter a certeza de que não levaria nenhum almoço para casa naquele dia.
O LEGADO DE CHERNOBYL,
Algum cara cometeu um erro. Apertou o botão errado na hora errada. E em 20 segundos não era mais possível pará-lo.
Milhares e milhares de toneladas de material radioativo foram expelidos no ar, apanhados em uma enorme tempestade e começaram a mover-se através do país.
Setenta por cento desse material radioativo caiu na Bielorrússia. O reator não era deles.
As primeiras pessoas a aparecerem foram duas companhias de bombeiros.
Ivan Shavre, um dos sobreviventes: “Eu acordei em um hospital em Moscow. De início nós gracejamos sobre a radiação. Então nós ouvimos que um camarada começou a sangrar pelo nariz e pela boca. E seu corpo ficou preto. E morreu.”
Onde quer que exista radiação, as pessoas vivem com ela. Comem-na em seu alimento. Bebem-na em sua água.
Os garotos em Novinki que tem problemas são diagnosticados e categorizados… A, B, C, D.
D, é sem esperança, eles nunca vão ser seres humanos reais. Nunca vão ter muito. Todos vão a Novinki.
E, uma vez que estejam lá, se sobreviverem e viverem, serão enviados ao asilo principal.
Era como se uma raça diferente estivesse sendo criada, pois eles parecem humanos, mas todos obviamente tinham problemas.
Alesya era uma menina quando foi diagnosticada com câncer. Tinha sido exposta à radiação quando era muito pequena, com mais ou menos 2 anos, quando começou a correr para brincar.
E nesse dia a chuva era escura e oleosa e ficou conhecida como a chuva negra de Chernobyl. Nove anos depois ela estava com leucemia.
Eu me encontrei com ela no hospital quando ela tinha dezesseis. Esta garota de dezesseis anos era muito bonita. Eu voltei no dia seguinte e Alesya estava em coma. E seus pais estavam devastados. Era um dia terrível para se ver uma mãe perder sua filha.
Antes de começar a tirar fotografias eu perguntei se não tinha problema. E sua resposta foi, “sim, nós queremos que todos saibam o que eles fizeram”.
O horror que foi aquilo, nós não podemos nem mesmo ousar pensar que possa acontecer novamente.
Todos dizem que nunca acontecerá. Pois é, nós sempre falamos isso, nunca acontecerá, mas tudo que nós humanos fazemos quebra. Tudo quebra. Tudo se desgasta...
Belarus, Ucrânia, 1997.
Paul Fusco, fotógrafo.
Suavemente, foi sentindo seu rosto todo sendo coberto por uma fina camada e gotas começaram a cair da ponta de seus cabelos, dissolvendo letras, distorcendo frases, mudando significados. Mesmo com o término daquela leitura, seus dedos não conseguiam largar aquele pedaço de papel que por acaso tinha chegado até suas mãos. A emoção era visível, ainda mais, talvez, pelo badalar dos sinos da igreja evangélica que anunciavam o encerramento do culto dominical. “Pois é, acho que tá na hora de eu ir”, foi falando Renato, na mesma hora que começava a recolher seus pertences. “Minha mulher já deve estar indo para casa preparar o almoço, e quando ela souber que não vai ter peixe hoje, tu já sabes!”, rindo de forma descontraída ao ir se levantando. E, ao ficar de pé, gritou: “Penélope, Ricardo, está na hora da gente ir almoçar!”.
Ao acompanhar a chegada das duas crianças, que vinham em sua direção, Guilherme se lembrou de Alesya. A menina do relato de Fusco. A garoa que caia em Blumenau também o recordava. Olhando para aquela família, em seu intimo, ele próprio se questionava se não estava se preocupando demais, desperdiçando seus dias com preocupações futuras, com algo que poderia nunca acontecer. “Eles dizem que elas são seguras, que são a única forma de evitar o aquecimento global, que as chances de voltar a acontecer uma catástrofe são remotas... Eu também gostaria de ser como eles, mas não posso. Parece até que ela não sabe que uma única decisão pode mudar o destino de um monte de gente. Parece até que eles não sabem que existem outras alternativas...”. Guilherme sabia de tudo isso e também de muito mais, mas a decisão já tinha sido tomada. Por isso jogou a garrafa de volta ao rio, sem hesitar. Renato já subia a ladeira segurando a mão de cada um de seus netos e não se voltou mais para trás, até que Penélope desvencilhando-se do avô voltou para perto do jovem pesquisador e lhe ofereceu um presente: um cata-vento de brinquedo, em forma de girassol. Antes que o jovem o pegasse e levasse junto para sua casa, a garotinha o colocou perto de seu rosto, fechou os olhos e assoprou. Ao qual ele pensou: “É, a gente só precisa assoprar...”