terça-feira, 13 de dezembro de 2011

BLUSCHWITZ

Já fazia alguns minutos que aquele homem contemplava a arquitetura do Teatro Carlos Gomes. Imóvel, indiferente a tudo que acontecia ao seu redor, sua atenção voltava-se para a pequena sacada postada no alto do prédio. Com seus Ipês florescendo e o desabrochar das flores decorando todos os cantos da cidade, Blumenau era realmente um pedacinho da Alemanha no Sul do Brasil. Era o que qualquer turista que visitasse os principais pontos turísticos pensaria ao se deparar com tamanha beleza oferecida pela mãe natureza. Entretanto, o homem ali parado não era nenhum visitante, mas antes, um autêntico germânico, cujas raízes genealógicas remetiam à Berlim do século passado. E esta lembrança o enchia de orgulho e fazia com que tivesse a certeza de que aquela construção não havia sido realizada por acaso.

Momentaneamente, seus olhos se fecharam. Do jardim do Teatro, mais parecendo brotar do próprio gramado, violinos executavam uma bela melodia que embalavam e traziam à tona sonhos de grandeza há muito adormecidos. “Isso só pode ser Wagner... como amo as Valkyrias!”, falando consigo mesmo, em meio a movimentos que lembravam um maestro conduzindo uma orquestra. De repente, como não acreditando naquilo que seus próprios olhos lhe mostravam, sua visão voltou-se novamente para a fachada em forma de quepe e, em meio a gestos entusiasmados e frases inflamadas que clamavam por ordem e justiça, uma emblemática figura abandonara os livros de história e se fazia ali presente: era Adolf Hitler. E, das cinco janelas um pouco mais abaixo, seus capitães Göring, Himmler, Goebbels, Heydrish e Mengele, o reverenciavam com o tradicional cumprimento nazista.

Sonho? Delírio? Se questionado, talvez ele não soubesse dizer ao certo. Mas um leve toque em suas costas o despertou e uma pergunta veio em sua direção: “Com licença, mas este é o prédio da Sociedade Dramático-Musical Carlos Gomes?”. Ao se virar para o lado, um indivíduo alto, de cabelos loiros, pele clara e olhos azuis, trazendo consigo uma câmera fotográfica pendurada em seu pescoço, o encarava e aguardava ansiosamente uma resposta. “O próprio!”, respondeu-lhe secamente. “Curiosa aquela fachada e a pequena sacada, não acha?”, indagava o visitante, no intervalo de uma fotografia e outra. “Foi construída para a vitória do nosso Führer e seria a sede do 3º Reich aqui na América Latina se aqueles malditos não tivessem estragado tudo...”, respondeu o Blumenauense com um sorriso no rosto, sem conseguir esconder a nítida satisfação proporcionada por aquelas palavras. “Por acaso, me chamo Assis”, apresentou-se a estranha figura, estendendo o braço em sua direção. “Venho da cidade Gaúcha de Cândido Godói, e ouvi várias histórias interessantes sobre este lugar”, continuou o turista. “Seja bem-vindo à nossa cidade. Meu nome é Adolar e meus avôs vieram para cá depois da Segunda Guerra”, disse o Blumenauense, apertando a mão do visitante com força. E, continuou: “Sabe, é uma desgraça que a história não possa mais ser mudada... Com certeza nós estaríamos em outra posição... não precisaríamos ter de caminhar na mesma calçada que aqueles maca... nem ter de agüentar aqueles vermes jogando lixo pelo chão. É realmente uma pena que não vencemos a guerra, porque aí tudo seria diferente!”. Após aquele desabafo, ambos calaram-se por algum tempo, com Assis regulando o foco de sua câmera e Adolar encarando seu próprio punho cerrado.

Com o silêncio reinando temporariamente entre os dois homens, um grupo formado por artistas locais preparavam-se para encenar uma apresentação no hall de entrada do Teatro. O turista gaúcho observava intrigado e tentava imaginar que tipo de peça seria ali executada. Subindo os degraus da pequena escada, um dos atores posicionava uma mesa e sua respectiva cadeira, daquelas encontradas em escolas e, ajeitando-se da melhor maneira possível, uma menina aparentando não ter mais do que 15 anos de idade sentou-se e começou a escrever ininterruptamente em um diário cujas páginas já bem amareladas denunciavam seu avançado estado de deteriorização. Formando um círculo ao redor da jovem, outro integrante desenrolava alguns metros de arame farpado, que impediam tanto sua fuga quanto a aproximação de outras pessoas. Assim, segurando um lápis entre os dedos, ela levantou a cabeça e olhou para os dois homens estáticos em sua frente, indagando: “Quem fez isso contra nós? Quem nos separou de todo o resto? Quem nos colocou neste sofrimento?*”

Após uma seqüência de flashes disparados pelo turista de Cândido Godói, este voltou a fazer inúmeras perguntas ao blumenauense: “Você sabe quem é esta menina? Ou qual é o nome desta peça? Mesmo aparentando certo descontentamento, ele tentou sanar todas as suas dúvidas: “Seu nome é Anne Frank. Era uma judia que viveu com os pais escondidos durante três anos no interior de uma fábrica enquanto nós caçávamos os judeus. Todos os anos realizam esta encenação ao ar livre. Na verdade eu nunca li seu diário. Não tenho tempo para infantilidades. Dizem que ela foi levada para um campo de concentração e morreu meses depois. Dizem também que seu corpo foi jogado em uma vala qualquer. Sobre o nome “Blushwitz”, não sei o seu significado ao certo, mas acredito ter alguma relação com estes dois nomes: Blumenau + Auschwitz. “Deve ser isso mesmo...”, pensou. Surpreendentemente, como se a menina acompanha-se atentamente a conversa dos ali presentes, manifestou-se outra vez: “Para mim é praticamente impossível construir a vida sobre um alicerce de caos, sofrimento e morte. Vejo o mundo transformado aos poucos numa selva, ouço o trovão que se aproxima e que, um dia, irá nos destruir também, sinto o sofrimento de milhões. E, mesmo assim, quando olho para o céu, sinto de algum modo que tudo mudará para a melhor, que a crueldade também terminará, que a paz e a tranqüilidade voltarão.”*

Retirando a câmera do pescoço e depositando-a no chão, Assis, o turista de Cândido Godói, subiu alguns degraus e se aproximou da menina. Sentindo a nuca aquecida pelos primeiros raios solares daquela manhã de primavera e o coração disparado pela visão do arame farpado junto aos seus pés, ele começou a falar com os olhos umedecidos: “Olha, da onde eu vim, dizem que eles estiveram por lá... ninguém sabe ao certo se é verdade... ele chegou e disse que era médico... perguntou sobre as grávidas... se é verdade eu não sei... espero que não... eu mesmo talvez seja... como posso viver com esta dúvida? Será que nós não passamos apenas de um experimento macabro? E, ao tentar adentrar a linha demarcada pelo arame farpado, dois dos artistas da companhia teatral – agora vestidos com uniformes nazistas -, agarraram seus braços e o arrastaram de volta para junto da platéia. Esta, surpreendida pelo realismo e paixão emanadas da apresentação, responderam com gritos, assobios, palmas e com o braço direito estendido para o alto.

Depois de recuperar o fôlego e reconstituir a calma, o turista de Cândido Godói pôde perceber que o jovem blumenauense já não estava mais no meio daquela multidão, mas sim atrás dele, próximo a uma fonte que decorava e embelezava ainda mais o jardim do Teatro. Dando às costas para a menina e à fachada histórica, ele caminhou até lá e observou cada detalhe daquela obra de arte, minuciosamente, encantado principalmente com todos aqueles rostos talhados em ferro, que abasteciam com água o interior da fonte. Contemplando o reflexo de sua própria imagem, Adolar comentou: “Fiquei curioso com a sua história. Qual a ligação entre a sua cidade e o Nacional Socialismo? Acredito que você seja um dos nossos... sua aparência não nega. Sabe, eles não compreendem... faz anos que venho a este lugar... é o único lugar em que me sinto verdadeiramente feliz... aquele trabalho maldito... aquele ônibus maldito... eu os vejo desfilando em seus carros... como eu os odeio... não passam de seres inferiores... Vermes! Porque não vencemos... com certeza eu não estaria nesta condição miserável!”. Ao qual, voltando-se e dando uma espiada por sob o ombro para a pequena sacada, o turista gaúcho respondeu: “Josef Mengele... o Anjo da Morte... médico nazista. Não me importa seu nome ou como o chamam. Você sabe algo sobre ele? Pois é, eu também gostaria de saber mais. É provável que tudo não passe de folclore, lendas, só para trazer mais turistas. Acho que a idéia é muito diferente da coisa em si. Os campos, os fuzilamentos, os gritos, as fotografias, tudo aquilo foi real! Eu posso sentir isso dentro de mim... Talvez ainda não tenhamos a real noção do que foi tudo aquilo, aquele período”.

E, desta forma, entregues à reflexão e perdidos nos mais diversos pensamentos, tanto Assis quanto Adolar sentiam suas vidas entrelaçadas, unidas por acontecimentos aos quais não tiveram participação. Estavam ali, sim, não por suas próprias idéias e ações, mas porque a vontade de outros ainda moldava suas vidas. Por outro lado, independentemente deste peso enorme em seus corações e absortos como estavam por aquelas lembranças, algo pôde despertá-los daquele transe momentâneo no qual se encontravam e lhes trouxe novamente para a realidade: um sujeito, aos tropeções, vinha correndo na direção de ambos e gritava a plenos pulmões o nome de Assis. Era o irmão do turista de Cândido Godói. Sua aparência não se diferenciava muito da dele: alto, loiro, olhos azuis e pele clara; na realidade, tratava-se de gêmeos. E um pouco mais ao lado, ainda contemplando aquelas duas imagens exatamente iguais refletidas sob as águas da fonte, Adolar, um alemão de Blumenau, ouviu o som repetitivo de uma buzina, a qual fez com que seu rosto se voltasse em direção à rua XV de novembro, provocando um arrepio que percorreu todo o seu corpo e o fez esfregar os olhos como aqueles que acabam de estar presenciando uma miragem: estacionado em frente ao Teatro Carlos Gomes estava parado um ônibus de turismo vermelho e branco e, de seu interior, começaram a desembarcar inúmeros pares... não... trincas de gêmeos, todos com as mesmas roupas, os mesmos olhos, o mesmo terror...

Este conto é uma homenagem para todas as almas roubadas pelo nazismo. Em especial para Anne Frank. Eles podem ter roubado sua juventude e seu sonho de viver, mas seu coração pulsa em cada palavra, sentimento e lágrima contida em seu diário. E, independentemente de todas as atrocidades que eles cometeram e, em detrimento daqueles que ainda cultivam ideais em relação ao passado, seu espírito continua vivo, e impedirá que o mal retorne outra vez.

*Passagens retiradas do relato documental O Diário de Anne Frank, escrito entre 12 de junho de 1942 e 1º de agosto de 1944.