domingo, 10 de abril de 2011

Quando a minha família não é a sua...

“Fazer uso do outro como meio de satisfação e segurança, não é amor. O amor nunca é segurança; o amor é um estado em que não existe desejo de estar em segurança; é um estado de vulnerabilidade; é o único estado em que a “exclusão”, a inimizade e o ódio são impossíveis. Neste estado, uma família pode tornar-se existente, mas não será “exclusiva”, egocêntrica”. (J. Krishnamurti)

Os primeiros raios de sol anunciavam o nascimento de um novo dia. Uma cortina mal fechada sempre deixa algumas frestas expostas. No alto das paredes, teias decoram o ambiente, livros empoeirados atiçam a renite e, ali dentro, naquele quarto escuro, o frio parece mais intenso; mesmo sabendo que ainda estamos no verão...

Dentro da minha casa está a minha família, já naquela, do outro lado da rua, está a sua. Eu não os conheço, não sei nada sobre vocês. O muro, as grades nas janelas e as cercas eletrificadas atrapalham a minha visão. Seu cachorro latindo também não ajuda. Onde vocês trabalham? Qual é o nome dos seus filhos? Por que nunca paramos para conversar?

Eu sei, eu sei... a minha família não é a sua. Como você mesmo já disse uma vez. Eu sei, eu sei... o relógio não para. Como poderia? Quem não usa hoje em dia? Depois que o meu parou, nunca mais usei. Prefiro andar. Ir caminhando em direção ao meu destino. Eu sei, eu sei... parece coisa de louco. Todo dia parece uma noite chuvosa. Ninguém nas ruas.

Sabe, por não ter com quem conversar resolvi falar comigo mesmo. Cansei de falar com gente que não respira mais. “Você não tem medo de ficar louco quando ficar velho?”, pergunta engraçada que voltou à minha memória. “Eu não quero ter uma depressão!”, outra lembrança curiosa. Deixe que eu a carregue por você. Quanto a ficar louco, muito antes de você me fazer esta pergunta eu já estava doente. Só acho que não é preciso ficar grisalho para perceber que algo não está certo aí fora nem aqui dentro.

Realmente, a minha família não é a sua. O seu carro não é meu. Seus pais não são meus. Eu não estou no seu álbum de fotografias. Se eu perder alguém querido, posso ir até a sua casa? Fazer parte da sua família? Acho melhor fechar as cortinas e voltar a dormir.

0 comentários: