“– Não! - gritou Gandalf, levantando-se de repente. – Com esse poder eu teria um poder grande e terrível demais. E comigo o Anel ganharia uma força ainda maior e mais fatal. – Seus olhos brilharam e seu rosto se ascendeu como se estivesse iluminado por dentro. – Não me tente! Pois eu não quero ficar como o próprio Senhor do Escuro. Mas o caminho do Anel até meu coração é através da piedade, piedade pela fraqueza e pelo desejo de ter forças para fazer o bem. Não me tente! Não ouso tomá-lo, nem mesmo para mantê-lo a salvo, sem uso. O desejo de controlá-lo seria grande demais para minhas forças”. (Gandalf, O Senhor dos Anéis)
Quando Jung, em um de seus escritos chamado “A Luta com as Sombras” chamava a atenção para fatos curiosos que pôde observar ao analisar os sonhos de inúmeros pacientes alemães no ano de 1918, nunca imaginei que algo estudado há tantos anos pudesse hoje, quase um século depois, causar ainda uma impressão tão forte em mim. Causa, é verdade, mas por um motivo especial: o tempo não existe dentro de nossa mente inconsciente, e todas as informações e acontecimentos do passado continuam vivos em nós através do inconsciente coletivo.
Aqueles sonhos apresentavam aspectos em comuns - mesmo sabendo que aquelas pessoas não se conheciam ou que tinham histórias de vidas diferentes-, todos exprimiam primitividade, violência e crueldade. Porém, o seu oposto também aparecia constantemente, sob a forma de imagens que retratavam a ordem tão buscada depois da destruição e das misérias causadas pela Primeira Guerra. Mas afinal, o que tudo isso tem a ver com o desejo de fazer o bem... usando o mal?
Nestes últimos tempos tenho me feito uma pergunta muito curiosa: O que eu faria se tivesse o poder em minhas mãos? Ou ainda: No que eu acabaria me tornando, se minha vontade fosse lei? Tudo aquilo que Jung refletiu naquele período sobre algumas características incomuns que o povo alemão carregava consigo estão dentro de mim. O mesmo desejo de ordem e a mesma crueldade. Até onde eu sou uma pessoa virtuosa, que se preocupa de verdade com os outros? Sendo sincero, o meu pensamento não é meu.
Sim, é verdade, tudo aquilo que vejo me perturba e pensamentos estranhos tomam conta de mim. Quando o lixo é jogado no chão ou em direção às águas do rio... quando uma árvore é derrubada... as pessoas dormindo nas ruas... as crenças ridículas... os indivíduos inferiores, que são apenas um peso morto para a sociedade. Ter esta consciência do monstro existente dentro de mim me ajuda a evitar os mesmos erros do passado. Quantos não possuem os mesmos sentimentos? Quantos não sentem certo incômodo quando a ordem social é ameaçada?
Hora, eu desejo ter o poder para fazer o bem para outras pessoas. Quando assisto uma matéria no noticiário relatando a destruição da floresta amazônica ou do aumento da criminalidade nas grandes cidades, o que eu faria? Colocaria o exército lá dentro e aquele que for pego desmatando pagaria com a... e aqueles que roubassem ou matassem seriam... os culpados pela desordem social seriam mandados para os campos... Tudo com o intuito de promover a ordem e o bem-estar social. Tudo para me livrar do anonimato insuportável, do vazio, da morte, da minha própria mediocridade...
Eu gosto de conversar com minha própria Sombra. Quando penso sobre as questões envolvendo o surgimento do nazismo e os estudos psicológicos de Jung, ela torna-se menos escura. E evita que uma velha profecia volte a tornar-se realidade novamente: “No momento que esses símbolos aparecem e não são assimilados, eles começam a unir com força magnética os indivíduos isolados. Assim tem origem uma massa. Rapidamente surgirá o líder no coração daquele que possuir a menor força de resistência, a menor consciência de responsabilidade e que, devido à sua inferioridade, demonstrar a mais forte vontade de poder. Libertará das correntes tudo o que está em estado de irrupção e a massa o seguirá com a força arcaica e incontrolável de uma avalancha” (Jung).
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