“Faz parte do amor a profundidade e fidelidade do sentimento, pois sem elas o amor não seria amor, mas simples capricho. O verdadeiro amor sempre pressupõem um vínculo duradouro e responsável. Precisa da liberdade para a escolha, não para a realização. Todo amor verdadeiro e profundo é um sacrifício. A gente sacrifica possibilidades, ou melhor, as ilusões de suas possibilidades. Se não houvesse necessidade desse sacrifício,nossas ilusões impediriam o surgimento do sentimento profundo e responsável e, com isso, ficaríamos privados também da possibilidade de experimentar o verdadeiro amor”. (Jung)
Há alguns anos, quando estava na faculdade e cursava jornalismo, tive a oportunidade de me defrontar com pessoas de idéias incomuns e estilos de vida alternativos. Muitas delas provenientes das ciências humanas, mais precisamente da Filosofia, Psicologia, Sociologia e Antropologia. Nelas, um ponto se destacava e era sempre sinônimo de discussão: a liberdade. Mais precisamente: a necessidade de tornar-se um espírito livre. Uma existência capaz de adentrar as inúmeras moradas da alma que caminham pelas grandes cidades e não criar vínculos duradouros; percorrer as páginas dos livros sagrados e fechá-los sem presenciar nenhum tipo de marca permanente; enfim, viver suas próprias idéias. Porém, neste instante, aquela velha dúvida que me assaltava já naqueles tempos retorna e eu a repito a mim mesmo: será mesmo possível?
Uma das questões mais polêmicas envolvia a idéia de viver o amor livre. Ela baseava-se num acordo de livre vontade, onde ambas as partes viviam as mais diversas experiências sem correr o risco de apresentarem nenhum tipo de remorso ou sentimento de culpa. Era exercitado um desapego tanto físico quanto emocional. Busco na memória este assunto porque as pessoas que viviam estas idéias naquela época – e que provavelmente vivem até hoje - não falavam apenas da boca para fora, na intenção de impressionar alunos ou amigos, mas porque aquilo fazia parte deles. E o que tento constatar com o retorno desta lembrança? Simplesmente se estas idéias são firmes o suficiente para resistir ao tempo, ao tempo que nos é dado para viver.
Imaginem a seguinte situação: uma mulher, de meia-idade, bonita, que vive um relacionamento aberto com seu companheiro, o qual apresentou estas idéias para ela, encontra-se sozinha dentro de seu apartamento e vai até o banheiro fazer suas necessidades básicas. Lá, decide tomar uma ducha. Abre o chuveiro e espera a água esquentar. De repente, por acaso, enxerga sua imagem nua refletida no espelho. O que ela vê? O que ela pensa? O que ela sente? Nenhuma idéia emprestada por outra pessoa pode habitar o nosso ser por muito tempo. E numa mulher, menos ainda.
“Na nossa sociedade, as jovens participam dos mitos masculinos do herói porque, como os rapazes, precisam educar-se e desenvolver uma personalidade própria sólida. Mas há uma região, ou uma camada mais antiga das suas mentes, que parece vir à superfície dos seus sentimentos para as tornar mulheres, e não imitações de homem. Quando esse antigo conteúdo da psique começa a aparecer, a jovem moderna tem a tendência de reprimi-lo, já que representa uma ameaça às suas mais recentes prerrogativas: a emancipação e a igualdade de competição com os homens”.(Jung)
Esta passagem contida em uma obra de Jung apareceu num momento oportuno. O tempo em que vivemos é um tempo triste. Por quê? No instante em que as mulheres tentam ser iguais aos homens ou buscam viver da mesma forma que eles, tornam-se homens. E uma sociedade só com homens tende a ser doente por falta de equilíbrio. É uma pena que o espelho carregado dentro de tantas bolsas não consiga refletir também aquilo que se esconde por trás da carne.
A sociedade pode mudar constantemente, mas a mulher não. O espelho mostra aquilo que ela é: nada. E ela sabe disso. A falta de segurança corrói sua beleza e seu coração. Ela precisa de uma casa, de um jardim, de cachorros, de abraços... de um futuro. Ela precisa zelar pelos outros. Quando Buda dizia ter medo e receio das mulheres, este temor tinha uma explicação: elas carregam a verdade da vida, e nelas esta verdade dói e aparece de forma mais nítida: a velhice, a doença e a morte.
0 comentários:
Postar um comentário