domingo, 24 de abril de 2011

A insustentável leveza das idéias

“Faz parte do amor a profundidade e fidelidade do sentimento, pois sem elas o amor não seria amor, mas simples capricho. O verdadeiro amor sempre pressupõem um vínculo duradouro e responsável. Precisa da liberdade para a escolha, não para a realização. Todo amor verdadeiro e profundo é um sacrifício. A gente sacrifica possibilidades, ou melhor, as ilusões de suas possibilidades. Se não houvesse necessidade desse sacrifício,nossas ilusões impediriam o surgimento do sentimento profundo e responsável e, com isso, ficaríamos privados também da possibilidade de experimentar o verdadeiro amor”. (Jung)

Há alguns anos, quando estava na faculdade e cursava jornalismo, tive a oportunidade de me defrontar com pessoas de idéias incomuns e estilos de vida alternativos. Muitas delas provenientes das ciências humanas, mais precisamente da Filosofia, Psicologia, Sociologia e Antropologia. Nelas, um ponto se destacava e era sempre sinônimo de discussão: a liberdade. Mais precisamente: a necessidade de tornar-se um espírito livre. Uma existência capaz de adentrar as inúmeras moradas da alma que caminham pelas grandes cidades e não criar vínculos duradouros; percorrer as páginas dos livros sagrados e fechá-los sem presenciar nenhum tipo de marca permanente; enfim, viver suas próprias idéias. Porém, neste instante, aquela velha dúvida que me assaltava já naqueles tempos retorna e eu a repito a mim mesmo: será mesmo possível?

Uma das questões mais polêmicas envolvia a idéia de viver o amor livre. Ela baseava-se num acordo de livre vontade, onde ambas as partes viviam as mais diversas experiências sem correr o risco de apresentarem nenhum tipo de remorso ou sentimento de culpa. Era exercitado um desapego tanto físico quanto emocional. Busco na memória este assunto porque as pessoas que viviam estas idéias naquela época – e que provavelmente vivem até hoje - não falavam apenas da boca para fora, na intenção de impressionar alunos ou amigos, mas porque aquilo fazia parte deles. E o que tento constatar com o retorno desta lembrança? Simplesmente se estas idéias são firmes o suficiente para resistir ao tempo, ao tempo que nos é dado para viver.

Imaginem a seguinte situação: uma mulher, de meia-idade, bonita, que vive um relacionamento aberto com seu companheiro, o qual apresentou estas idéias para ela, encontra-se sozinha dentro de seu apartamento e vai até o banheiro fazer suas necessidades básicas. Lá, decide tomar uma ducha. Abre o chuveiro e espera a água esquentar. De repente, por acaso, enxerga sua imagem nua refletida no espelho. O que ela vê? O que ela pensa? O que ela sente? Nenhuma idéia emprestada por outra pessoa pode habitar o nosso ser por muito tempo. E numa mulher, menos ainda.

“Na nossa sociedade, as jovens participam dos mitos masculinos do herói porque, como os rapazes, precisam educar-se e desenvolver uma personalidade própria sólida. Mas há uma região, ou uma camada mais antiga das suas mentes, que parece vir à superfície dos seus sentimentos para as tornar mulheres, e não imitações de homem. Quando esse antigo conteúdo da psique começa a aparecer, a jovem moderna tem a tendência de reprimi-lo, já que representa uma ameaça às suas mais recentes prerrogativas: a emancipação e a igualdade de competição com os homens”.(Jung)

Esta passagem contida em uma obra de Jung apareceu num momento oportuno. O tempo em que vivemos é um tempo triste. Por quê? No instante em que as mulheres tentam ser iguais aos homens ou buscam viver da mesma forma que eles, tornam-se homens. E uma sociedade só com homens tende a ser doente por falta de equilíbrio. É uma pena que o espelho carregado dentro de tantas bolsas não consiga refletir também aquilo que se esconde por trás da carne.

A sociedade pode mudar constantemente, mas a mulher não. O espelho mostra aquilo que ela é: nada. E ela sabe disso. A falta de segurança corrói sua beleza e seu coração. Ela precisa de uma casa, de um jardim, de cachorros, de abraços... de um futuro. Ela precisa zelar pelos outros. Quando Buda dizia ter medo e receio das mulheres, este temor tinha uma explicação: elas carregam a verdade da vida, e nelas esta verdade dói e aparece de forma mais nítida: a velhice, a doença e a morte.

domingo, 17 de abril de 2011

O desejo de fazer o bem... usando o mal

“– Não! - gritou Gandalf, levantando-se de repente. – Com esse poder eu teria um poder grande e terrível demais. E comigo o Anel ganharia uma força ainda maior e mais fatal. – Seus olhos brilharam e seu rosto se ascendeu como se estivesse iluminado por dentro. – Não me tente! Pois eu não quero ficar como o próprio Senhor do Escuro. Mas o caminho do Anel até meu coração é através da piedade, piedade pela fraqueza e pelo desejo de ter forças para fazer o bem. Não me tente! Não ouso tomá-lo, nem mesmo para mantê-lo a salvo, sem uso. O desejo de controlá-lo seria grande demais para minhas forças”. (Gandalf, O Senhor dos Anéis)

Quando Jung, em um de seus escritos chamado “A Luta com as Sombras” chamava a atenção para fatos curiosos que pôde observar ao analisar os sonhos de inúmeros pacientes alemães no ano de 1918, nunca imaginei que algo estudado há tantos anos pudesse hoje, quase um século depois, causar ainda uma impressão tão forte em mim. Causa, é verdade, mas por um motivo especial: o tempo não existe dentro de nossa mente inconsciente, e todas as informações e acontecimentos do passado continuam vivos em nós através do inconsciente coletivo.

Aqueles sonhos apresentavam aspectos em comuns - mesmo sabendo que aquelas pessoas não se conheciam ou que tinham histórias de vidas diferentes-, todos exprimiam primitividade, violência e crueldade. Porém, o seu oposto também aparecia constantemente, sob a forma de imagens que retratavam a ordem tão buscada depois da destruição e das misérias causadas pela Primeira Guerra. Mas afinal, o que tudo isso tem a ver com o desejo de fazer o bem... usando o mal?

Nestes últimos tempos tenho me feito uma pergunta muito curiosa: O que eu faria se tivesse o poder em minhas mãos? Ou ainda: No que eu acabaria me tornando, se minha vontade fosse lei? Tudo aquilo que Jung refletiu naquele período sobre algumas características incomuns que o povo alemão carregava consigo estão dentro de mim. O mesmo desejo de ordem e a mesma crueldade. Até onde eu sou uma pessoa virtuosa, que se preocupa de verdade com os outros? Sendo sincero, o meu pensamento não é meu.

Sim, é verdade, tudo aquilo que vejo me perturba e pensamentos estranhos tomam conta de mim. Quando o lixo é jogado no chão ou em direção às águas do rio... quando uma árvore é derrubada... as pessoas dormindo nas ruas... as crenças ridículas... os indivíduos inferiores, que são apenas um peso morto para a sociedade. Ter esta consciência do monstro existente dentro de mim me ajuda a evitar os mesmos erros do passado. Quantos não possuem os mesmos sentimentos? Quantos não sentem certo incômodo quando a ordem social é ameaçada?

Hora, eu desejo ter o poder para fazer o bem para outras pessoas. Quando assisto uma matéria no noticiário relatando a destruição da floresta amazônica ou do aumento da criminalidade nas grandes cidades, o que eu faria? Colocaria o exército lá dentro e aquele que for pego desmatando pagaria com a... e aqueles que roubassem ou matassem seriam... os culpados pela desordem social seriam mandados para os campos... Tudo com o intuito de promover a ordem e o bem-estar social. Tudo para me livrar do anonimato insuportável, do vazio, da morte, da minha própria mediocridade...

Eu gosto de conversar com minha própria Sombra. Quando penso sobre as questões envolvendo o surgimento do nazismo e os estudos psicológicos de Jung, ela torna-se menos escura. E evita que uma velha profecia volte a tornar-se realidade novamente: “No momento que esses símbolos aparecem e não são assimilados, eles começam a unir com força magnética os indivíduos isolados. Assim tem origem uma massa. Rapidamente surgirá o líder no coração daquele que possuir a menor força de resistência, a menor consciência de responsabilidade e que, devido à sua inferioridade, demonstrar a mais forte vontade de poder. Libertará das correntes tudo o que está em estado de irrupção e a massa o seguirá com a força arcaica e incontrolável de uma avalancha” (Jung).

domingo, 10 de abril de 2011

Quando a minha família não é a sua...

“Fazer uso do outro como meio de satisfação e segurança, não é amor. O amor nunca é segurança; o amor é um estado em que não existe desejo de estar em segurança; é um estado de vulnerabilidade; é o único estado em que a “exclusão”, a inimizade e o ódio são impossíveis. Neste estado, uma família pode tornar-se existente, mas não será “exclusiva”, egocêntrica”. (J. Krishnamurti)

Os primeiros raios de sol anunciavam o nascimento de um novo dia. Uma cortina mal fechada sempre deixa algumas frestas expostas. No alto das paredes, teias decoram o ambiente, livros empoeirados atiçam a renite e, ali dentro, naquele quarto escuro, o frio parece mais intenso; mesmo sabendo que ainda estamos no verão...

Dentro da minha casa está a minha família, já naquela, do outro lado da rua, está a sua. Eu não os conheço, não sei nada sobre vocês. O muro, as grades nas janelas e as cercas eletrificadas atrapalham a minha visão. Seu cachorro latindo também não ajuda. Onde vocês trabalham? Qual é o nome dos seus filhos? Por que nunca paramos para conversar?

Eu sei, eu sei... a minha família não é a sua. Como você mesmo já disse uma vez. Eu sei, eu sei... o relógio não para. Como poderia? Quem não usa hoje em dia? Depois que o meu parou, nunca mais usei. Prefiro andar. Ir caminhando em direção ao meu destino. Eu sei, eu sei... parece coisa de louco. Todo dia parece uma noite chuvosa. Ninguém nas ruas.

Sabe, por não ter com quem conversar resolvi falar comigo mesmo. Cansei de falar com gente que não respira mais. “Você não tem medo de ficar louco quando ficar velho?”, pergunta engraçada que voltou à minha memória. “Eu não quero ter uma depressão!”, outra lembrança curiosa. Deixe que eu a carregue por você. Quanto a ficar louco, muito antes de você me fazer esta pergunta eu já estava doente. Só acho que não é preciso ficar grisalho para perceber que algo não está certo aí fora nem aqui dentro.

Realmente, a minha família não é a sua. O seu carro não é meu. Seus pais não são meus. Eu não estou no seu álbum de fotografias. Se eu perder alguém querido, posso ir até a sua casa? Fazer parte da sua família? Acho melhor fechar as cortinas e voltar a dormir.

domingo, 3 de abril de 2011

Sobre outro tipo de amor

“O amor reza”. (Ralph Waldo Emerson)

O mundo está cheio de manifestações daquilo que se entende por amor. Basta olharmos para o lado e lá estão elas: as mãos entrelaçadas, os olhares, os sorrisos, a indiferença em relação ao resto das coisas vivas. Tudo isso representa um tipo de amor; aquele que possui uma missão sagrada com a natureza e irá se concretizar de uma maneira ou de outra. Independente de gostarmos ou não da idéia.

Porém, sempre me perguntei se existia outro tipo de amor. Algo que dificilmente é observado no dia-a-dia, uma coisa oculta dentro da mente, que apenas se manifesta em meio ao terror da solidão e do medo. Uma coisa que aparece de repente, nos muda, faz com que deixemos de nos preocupar com o trabalho, com a escola, com os pais e amigos, com o dinheiro e, também, com o futuro. Nossa atenção volta-se exclusivamente para ele.

É possível carregar consigo este outro tipo de sentimento? Ou melhor, esta coisa realmente existe? Seria hipocrisia de minha parte dizer que tenho certeza de sua existência. Depois de sua passagem, resta apenas uma vaga lembrança. Mas ela nos modifica de alguma forma. Invade nosso pensamento e, principalmente, confisca nossos olhos.

Não se pode mais fazer mal a ninguém. Cada local onde antes havia uma área verde torna-se sagrada; causa uma tristeza profunda observar pedreiros levando seus carrinhos-de-mão de lá para cá, escavadeiras arrancando raízes que levaram anos para se desenvolverem por baixo da terra, e saber que aquela placa de “vende-se” cravada em meio ao terreno representa um caminho sem volta. Uma terrível constatação e mensagem ao mero racionalismo dos tempos atuais: este outro tipo de amor não se importa com o progresso e nem com a segurança.

E, para finalizar, acredito que este outro tipo de amor possui algo de religioso. Não me refiro à igreja ou qualquer livro, mas sobre o enxergar o planeta de fora; do entender a superficialidade dos relógios e calendários; do sofrer em silêncio; do olhar e não mais falar palavra alguma; do se sentir velho muito cedo; de aceitar aquilo que me mata. Existe mesmo este outro tipo de amor?