quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

A Jornalista e o Astronauta

De mãos dadas com a esperança, elas tentavam se proteger da tempestade que se anunciava. Tanto Penélope quanto Ricardo observavam pela janela do quarto a chuva torrencial que voltava a castigar a cidade de Blumenau. Em mais uma noite fria e úmida de inverno, o ribombar dos trovões e o clarão dos relâmpagos faziam com que os cobertores fossem puxados para mais perto dos rostos, deixando expostos apenas dois pares de olhos carregados de medo e curiosidade. E estes, vigiados por um céu sem estrelas, acompanhavam com deleite o rastro incandescente deixado pela cauda de uma estrela-cadente, que rasgando e manchando o horizonte de vermelho, criou naquelas crianças o desejo irrefreável de fazerem um pedido: que no futuro, seus pais não fossem para o trabalho, passando assim mais tempo junto deles...

A maçaneta agora girava devagar. Pela porta entreaberta do quarto, Mariana observava seus filhos adormecerem. Postada ali, em frente às suas camas, perdida nos mais diversos pensamentos, sentia até certo receio de se aproximar. Naquele instante, seu olhar percorreu toda a extensão do cômodo e buscou pousá-lo sob seus semblantes despreocupados; acompanhava com interesse o compasso de suas respirações, tentando adivinhar o que habitava seus sonhos. Entretanto, no fundo, tudo aquilo lhe soava estranho e distante. Na verdade não conhecia seus filhos. Sabia seus nomes e suas idades, onde estudavam, alguns de seus amigos, porém, desconhecia seus sonhos, seus medos, aquilo no qual se tornaram ou que estavam para se tornar. E esta súbita tomada de consciência fez com que um pequeno frasco trazido junto ao peito caísse e rolasse pelo assoalho, espalhando pequenas cápsulas por todos os lados. Ao ajuntá-lo, ela pôde perceber sua natureza e a leitura de seu nome ressoou por um longo período em sua mente: PROZAC*.

Pela manhã, após mais uma noite mal dormida, Mariana preparava o café e assistia o noticiário pela televisão. A porta da geladeira ia e vinha constantemente. Assim como os cigarros até sua boca. Muitos relatos sobre os estragos causados pela enxurrada da noite anterior chegavam agora aos seus ouvidos. Casas destelhadas, ruas alagadas, deslizamentos de terra e engarrafamentos já eram até coisas naturais em se tratando daquele lugar. Porém, uma notícia em especial chamou sua atenção: a queda de um foguete espacial às margens do rio Itajaí- Açu, próximo à prefeitura municipal. “Ora, esse não é o tipo de coisa que a gente ouve todo dia...”, pensou. Com a mesa já posta, diminuiu o volume do televisor a uma altura que não despertasse o restante de sua família e continuou a travar uma batalha sem fim contra seu isqueiro que insistia em permanecer apagado - o qual a quase levou à loucura -; e pôde em meio a tudo isso ainda acompanhar o âncora do telejornal dar uma última informação sobre o incidente. Segundo fontes oficiais, até aquele instante, nenhum sobrevivente havia sido encontrado.

Mariana adorava sua casa; principalmente a cozinha. Era ali onde recebia os amigos do trabalho e da faculdade para relembrar situações engraçadas dos tempos de estudante; neste lugar aconteciam animadas conversas de marido e mulher, sobre acontecimentos rotineiros do dia-a-dia; e, às vezes, propício também para se aventurar na preparação de algum prato especial. Naquele espaço, sempre existia algo que podia distraí-la. E o PROZAC era uma dessas coisas. Sempre presente ao seu lado, seja em cima da mesa ou dentro da bolsa. Preenchendo o vazio ou tampando buracos. Junto com seu Malboro, eles formavam uma companhia perfeita para os tempos de solidão.

Um pouco depois do término do telejornal, o celular de Mariana não parou mais de chamar. Nutria um sentimento de amor e ódio por ele. Tinha uma necessidade louca de ficar sozinha, mas o mundo parecia não permitir. Só que não atendeu de imediato como seria de se esperar. Tinha seus sentidos voltados para as cortinas esvoaçantes e a janela por elas descoberta. Dois vasos com flores há muito esquecidos decoravam-na. “Um presente do dia das mães...”, foi a lembrança resgatada por aquela imagem. Com o passo hesitante e a respiração ofegante, ela se aproximou delas: “Estão secas... há quanto tempo não são regadas?”. E, de repente, o telefone voltou a tocar. Despertada do transe momentâneo, seus dedos conduziram o aparelho para mais perto de seu rosto e a voz do outro lado linha revelou-se mais familiar do que nunca: era o editor do jornal onde Mariana trabalhava como repórter.

Ultimamente, Mariana não encontrava mais prazer em seu trabalho. Sempre as mesmas pautas rotineiras, entrevistas enfadonhas e o aborrecimento diário de lidar com um chefe debochado. “O dinheiro não traz satisfação quando é preciso trabalhar por ele; porque quando se trabalha para ganhá-lo não há tempo para gastá-lo**”, lia Mariana em uma folha de papel colada na porta da geladeira, ao lado de algumas provas escolares, enquanto conversava ao celular. “Preciso que você vá até o local da queda e faça algumas imagens, Mara”, impôs seu chefe. “Não sei como chegarei lá boss, levei meu carro para a oficina ontem e estará pronto somente na semana que vem”, enfatizou, depois de depositar mais algumas chepas no vaso transformado em cinzeiro inconscientemente. “Simples, te pago uma passagem e tu vais de ônibus!”, gargalhou, após levantar a possibilidade. “Antes, me diz uma coisa: é sério mesmo esse negócio de foguete espacial? Aqui em Blumenau? Nunca escutei coisa mais maluca...”, respondeu, convencida de ser a única pessoa sã em todo o planeta. “Maluca? Claro que é! Por isso vai direto para a primeira página! Você nunca ouviu falar de OVINIs? 2012 está quase aí, não está?”, ironizou. Encerrada a ligação, Mariana correu para apanhar sua câmera fotográfica, seu bloco de notas e seu guarda-chuva, afinal, por mais maluca que fosse aquela pauta, esta poderia representar a grande chance que ela tanto ansiava para dar uma guinada em sua carreira.

Impossibilitada como estava de usar seu automóvel, Mariana aproveitou que o marido iria levar seus filhos para a escola e decidiu pegar uma carona. A princípio, usar o transporte público estava fora de cogitação, não que ela tivesse algum receio de voltar às origens – sim, ela usou diariamente há alguns anos -, mas porque desconhecia os horários e sabia que precisava chegar logo até o ponto do acidente para levantar todas as informações necessárias. Voltava a chover forte novamente. Ao desembarcar do veículo, em frente a um dos cartões postais de Blumenau, o castelinho da Havan, Mariana abriu seu guarda-chuva e caminhou apressada pela Avenida Beira-Rio, hora desviando das inúmeras poças d água hora dos cachorros encharcados e mal-cheirosos que parecendo não acreditarem também na história do foguete, teimavam em acompanhá-la por todo o percurso.

No local do incidente, fitas de isolamento restringiam tanto o acesso da imprensa quanto dos curiosos, formando um grande círculo em volta do ponto de ônibus. Para sua sorte, Mariana conhecia um dos guardas que faziam a segurança do local, e não teve receio de se aproximar. “Me quebra este galho só desta vez Janga, só umas fotos e eu caio fora”, abrindo um grande sorriso em direção ao policial. “Tu sabes que eu posso ser repreendido por isso, levar um gancho, sabias?”, perguntou ele, ao mesmo tempo em que fazia uma varredura completa sob o corpo da jovem jornalista. “Mas como hoje estou de bom humor, vou deixar você passar, porém, você me deve uma, ouviu? E nós vamos...”, sendo interrompido de forma brusca pela passagem dela por baixo da fita, que gerou uma onda de repórteres indignados e empurra-empurra geral. De maneira abrupta, ela aproximou-se da murada de proteção, cuja vista renderia belíssimas imagens. Só que no momento de soltar o primeiro flash, qual não foi a sua surpresa quando seus olhos captaram algo muito mais raro recostado naquela proteção de ferro, algo que parecia ter saído de algum filme ou documentário sobre ficção-científica: um homem vestindo um traje espacial fitava serenamente os destroços do foguete serem levados para longe pelas águas do rio Itajaí- Açu. Quem era ele? O que fazia ali? De todas as dúvidas que assaltaram Mariana naquele instante, apenas uma veio a se dissipar com aquela visão: sobreviventes havia, e aquela presença era prova mais que suficiente.

Vaidade e frivolidade nunca foram características presentes na personalidade de Mariana. Tanto era assim, que mesmo aborrecida com as roupas todas molhadas e o cabelo desgrenhado, não deixou se abater pelas adversidades e dirigiu-se de encontro ao estranho viajante: “Olá, meu nome é Mariana e sou repórter de um jornal local, será que o senhor poderia me conceder uma entrevista? , perguntou, depois de parar ao seu lado e tatear os inúmeros bolsos da calça em busca de seu gravador. Não houve resposta imediata. E, com um movimento da cabeça e do dedo indicador em direção à ponte de ferro, ele profetizou em voz baixa, quase num sussurro: “Vê aquele sujeito lá no alto da ponte, sentado na mureta de proteção com as pernas balançando? pois é, logo ele vai se jogar...”.

O estrondo causado por um trovão fez com que Mariana baixasse a cabeça e tampasse os ouvidos assustada. Seu guarda-chuva parecia ser levado cada vez mais para o alto pelas rajadas de vento. Em conseqüência, com um gesto ao mesmo tempo petulante e surpreendente, ela agarrou o braço do astronauta e arrastou-o para baixo da marquise de proteção no ponto de ônibus. Ambos se sentaram. Ela, ainda com o coração batendo a mil, virou-se para trás e procurou por toda a extensão da ponte a figura do jovem que pretendia pular. Não avistando ninguém, dirigiu o olhar para a superfície do rio em busca de algum movimento nas águas. Nada se movia exceto a própria correnteza. “Falta coragem... sempre falta na hora...”, comentou o astronauta como se estivesse em um monólogo, ainda com a cabeça voltada para o chão.

Várias vezes ele se levantou e ameaçou ir embora. Em todas elas Mariana olhou no fundo de seus olhos e o impediu. “Você é algum tipo de astronauta? Da NASA, talvez? Ou será que estão gravando algum filme aqui em Blumenau e ninguém me avisou?”, insistia, ainda duvidando e sem entender nada. Em que finalmente, depois de retirar seu capacete e depositá-lo em seu colo, ele respondeu ainda um tanto contrariado: “Sou um astronauta... não... sou um estrangeiro... alguém que gostaria de ver a Terra novamente de fora... esquecer tudo isso... deixar por aqui relógios e calendários... a gente muda quando está lá... como posso voltar a viver da mesma forma?... diga-me!”. Mariana não sabia o que responder. Por esta razão, voltou a perguntar: “O que aconteceu lá em cima? Como você veio parar aqui? Teve problemas técnicos? E cuja resposta e, lembrança posterior, arrepiaria todos os pêlos de seu corpo ainda por muitos anos no futuro: “Eu senti alguém me chamando... escutei vozes... sei lá... de repente tudo parou, escureceu... acho que foi um sonho... me levavam pela mão... pelas duas... você acredita em anjo-da-guarda?...nunca acreditei nestas coisas... só sei que quando me dei conta, estava jogado às margens deste rio”.

Ela achou estranha aquela resposta; como achava toda aquela situação. Não sabia mais quais perguntas formular. Tanto ela quanto o astronauta continuavam sentados no banco do ônibus sem dizerem nenhuma palavra. Olhando para frente, ela reparou nos canteiros de violetas que embelezavam os arredores da prefeitura de Blumenau. Nunca tinha parado para reparar nelas. Nunca teve tempo para estas coisas. Nunca se sentiu sozinha neste planeta. Lembrou-se então dos vasos de flores; nos filhos de mãos dadas fazendo um pedido em frente à janela do quarto; na queda do foguete espacial em meio à tempestade e no PROZAC. Segundos depois, freando bruscamente, um ônibus amarelo estacionou e abriu suas portas diante dos olhos de Mariana. Levantando-se e apanhando seu capacete, o astronauta entregou um livro para a jornalista e falou antes de embarcar e desaparecer para sempre: “Sabe qual é o nosso problema? A razão pela qual não somos felizes? Somos Humanos em Demasia!”.

Mariana voltou-se para o céu, fechou os olhos, abriu a boca e colocou a língua para fora. Pensou sobre os inusitados encontros que acontecem nesta vida. Nas forças invisíveis que atuam sobre todos nós. No tempo que desperdiçamos. Sentia o gosto da chuva. Nuvens negras despejavam toda sua fúria em seu rosto. Deu alguns passos à frente e encarou o rio. Abriu a bolsa e lançou para o alto o frasco de remédios. E ele foi levado pelas águas. Depois, com o grito e aceno de seu filhos, ela entrou no automóvel com sua família e pediu ao marido que a levasse para casa. Sentados no banco de trás estavam Penélope e Ricardo. Com a chave na ignição, seu esposo perguntou: “Que livro é este que você está lendo?”. Ao qual ela respondeu prontamente: “Humano Demasiado Humano***”.