terça-feira, 13 de dezembro de 2011

BLUSCHWITZ

Já fazia alguns minutos que aquele homem contemplava a arquitetura do Teatro Carlos Gomes. Imóvel, indiferente a tudo que acontecia ao seu redor, sua atenção voltava-se para a pequena sacada postada no alto do prédio. Com seus Ipês florescendo e o desabrochar das flores decorando todos os cantos da cidade, Blumenau era realmente um pedacinho da Alemanha no Sul do Brasil. Era o que qualquer turista que visitasse os principais pontos turísticos pensaria ao se deparar com tamanha beleza oferecida pela mãe natureza. Entretanto, o homem ali parado não era nenhum visitante, mas antes, um autêntico germânico, cujas raízes genealógicas remetiam à Berlim do século passado. E esta lembrança o enchia de orgulho e fazia com que tivesse a certeza de que aquela construção não havia sido realizada por acaso.

Momentaneamente, seus olhos se fecharam. Do jardim do Teatro, mais parecendo brotar do próprio gramado, violinos executavam uma bela melodia que embalavam e traziam à tona sonhos de grandeza há muito adormecidos. “Isso só pode ser Wagner... como amo as Valkyrias!”, falando consigo mesmo, em meio a movimentos que lembravam um maestro conduzindo uma orquestra. De repente, como não acreditando naquilo que seus próprios olhos lhe mostravam, sua visão voltou-se novamente para a fachada em forma de quepe e, em meio a gestos entusiasmados e frases inflamadas que clamavam por ordem e justiça, uma emblemática figura abandonara os livros de história e se fazia ali presente: era Adolf Hitler. E, das cinco janelas um pouco mais abaixo, seus capitães Göring, Himmler, Goebbels, Heydrish e Mengele, o reverenciavam com o tradicional cumprimento nazista.

Sonho? Delírio? Se questionado, talvez ele não soubesse dizer ao certo. Mas um leve toque em suas costas o despertou e uma pergunta veio em sua direção: “Com licença, mas este é o prédio da Sociedade Dramático-Musical Carlos Gomes?”. Ao se virar para o lado, um indivíduo alto, de cabelos loiros, pele clara e olhos azuis, trazendo consigo uma câmera fotográfica pendurada em seu pescoço, o encarava e aguardava ansiosamente uma resposta. “O próprio!”, respondeu-lhe secamente. “Curiosa aquela fachada e a pequena sacada, não acha?”, indagava o visitante, no intervalo de uma fotografia e outra. “Foi construída para a vitória do nosso Führer e seria a sede do 3º Reich aqui na América Latina se aqueles malditos não tivessem estragado tudo...”, respondeu o Blumenauense com um sorriso no rosto, sem conseguir esconder a nítida satisfação proporcionada por aquelas palavras. “Por acaso, me chamo Assis”, apresentou-se a estranha figura, estendendo o braço em sua direção. “Venho da cidade Gaúcha de Cândido Godói, e ouvi várias histórias interessantes sobre este lugar”, continuou o turista. “Seja bem-vindo à nossa cidade. Meu nome é Adolar e meus avôs vieram para cá depois da Segunda Guerra”, disse o Blumenauense, apertando a mão do visitante com força. E, continuou: “Sabe, é uma desgraça que a história não possa mais ser mudada... Com certeza nós estaríamos em outra posição... não precisaríamos ter de caminhar na mesma calçada que aqueles maca... nem ter de agüentar aqueles vermes jogando lixo pelo chão. É realmente uma pena que não vencemos a guerra, porque aí tudo seria diferente!”. Após aquele desabafo, ambos calaram-se por algum tempo, com Assis regulando o foco de sua câmera e Adolar encarando seu próprio punho cerrado.

Com o silêncio reinando temporariamente entre os dois homens, um grupo formado por artistas locais preparavam-se para encenar uma apresentação no hall de entrada do Teatro. O turista gaúcho observava intrigado e tentava imaginar que tipo de peça seria ali executada. Subindo os degraus da pequena escada, um dos atores posicionava uma mesa e sua respectiva cadeira, daquelas encontradas em escolas e, ajeitando-se da melhor maneira possível, uma menina aparentando não ter mais do que 15 anos de idade sentou-se e começou a escrever ininterruptamente em um diário cujas páginas já bem amareladas denunciavam seu avançado estado de deteriorização. Formando um círculo ao redor da jovem, outro integrante desenrolava alguns metros de arame farpado, que impediam tanto sua fuga quanto a aproximação de outras pessoas. Assim, segurando um lápis entre os dedos, ela levantou a cabeça e olhou para os dois homens estáticos em sua frente, indagando: “Quem fez isso contra nós? Quem nos separou de todo o resto? Quem nos colocou neste sofrimento?*”

Após uma seqüência de flashes disparados pelo turista de Cândido Godói, este voltou a fazer inúmeras perguntas ao blumenauense: “Você sabe quem é esta menina? Ou qual é o nome desta peça? Mesmo aparentando certo descontentamento, ele tentou sanar todas as suas dúvidas: “Seu nome é Anne Frank. Era uma judia que viveu com os pais escondidos durante três anos no interior de uma fábrica enquanto nós caçávamos os judeus. Todos os anos realizam esta encenação ao ar livre. Na verdade eu nunca li seu diário. Não tenho tempo para infantilidades. Dizem que ela foi levada para um campo de concentração e morreu meses depois. Dizem também que seu corpo foi jogado em uma vala qualquer. Sobre o nome “Blushwitz”, não sei o seu significado ao certo, mas acredito ter alguma relação com estes dois nomes: Blumenau + Auschwitz. “Deve ser isso mesmo...”, pensou. Surpreendentemente, como se a menina acompanha-se atentamente a conversa dos ali presentes, manifestou-se outra vez: “Para mim é praticamente impossível construir a vida sobre um alicerce de caos, sofrimento e morte. Vejo o mundo transformado aos poucos numa selva, ouço o trovão que se aproxima e que, um dia, irá nos destruir também, sinto o sofrimento de milhões. E, mesmo assim, quando olho para o céu, sinto de algum modo que tudo mudará para a melhor, que a crueldade também terminará, que a paz e a tranqüilidade voltarão.”*

Retirando a câmera do pescoço e depositando-a no chão, Assis, o turista de Cândido Godói, subiu alguns degraus e se aproximou da menina. Sentindo a nuca aquecida pelos primeiros raios solares daquela manhã de primavera e o coração disparado pela visão do arame farpado junto aos seus pés, ele começou a falar com os olhos umedecidos: “Olha, da onde eu vim, dizem que eles estiveram por lá... ninguém sabe ao certo se é verdade... ele chegou e disse que era médico... perguntou sobre as grávidas... se é verdade eu não sei... espero que não... eu mesmo talvez seja... como posso viver com esta dúvida? Será que nós não passamos apenas de um experimento macabro? E, ao tentar adentrar a linha demarcada pelo arame farpado, dois dos artistas da companhia teatral – agora vestidos com uniformes nazistas -, agarraram seus braços e o arrastaram de volta para junto da platéia. Esta, surpreendida pelo realismo e paixão emanadas da apresentação, responderam com gritos, assobios, palmas e com o braço direito estendido para o alto.

Depois de recuperar o fôlego e reconstituir a calma, o turista de Cândido Godói pôde perceber que o jovem blumenauense já não estava mais no meio daquela multidão, mas sim atrás dele, próximo a uma fonte que decorava e embelezava ainda mais o jardim do Teatro. Dando às costas para a menina e à fachada histórica, ele caminhou até lá e observou cada detalhe daquela obra de arte, minuciosamente, encantado principalmente com todos aqueles rostos talhados em ferro, que abasteciam com água o interior da fonte. Contemplando o reflexo de sua própria imagem, Adolar comentou: “Fiquei curioso com a sua história. Qual a ligação entre a sua cidade e o Nacional Socialismo? Acredito que você seja um dos nossos... sua aparência não nega. Sabe, eles não compreendem... faz anos que venho a este lugar... é o único lugar em que me sinto verdadeiramente feliz... aquele trabalho maldito... aquele ônibus maldito... eu os vejo desfilando em seus carros... como eu os odeio... não passam de seres inferiores... Vermes! Porque não vencemos... com certeza eu não estaria nesta condição miserável!”. Ao qual, voltando-se e dando uma espiada por sob o ombro para a pequena sacada, o turista gaúcho respondeu: “Josef Mengele... o Anjo da Morte... médico nazista. Não me importa seu nome ou como o chamam. Você sabe algo sobre ele? Pois é, eu também gostaria de saber mais. É provável que tudo não passe de folclore, lendas, só para trazer mais turistas. Acho que a idéia é muito diferente da coisa em si. Os campos, os fuzilamentos, os gritos, as fotografias, tudo aquilo foi real! Eu posso sentir isso dentro de mim... Talvez ainda não tenhamos a real noção do que foi tudo aquilo, aquele período”.

E, desta forma, entregues à reflexão e perdidos nos mais diversos pensamentos, tanto Assis quanto Adolar sentiam suas vidas entrelaçadas, unidas por acontecimentos aos quais não tiveram participação. Estavam ali, sim, não por suas próprias idéias e ações, mas porque a vontade de outros ainda moldava suas vidas. Por outro lado, independentemente deste peso enorme em seus corações e absortos como estavam por aquelas lembranças, algo pôde despertá-los daquele transe momentâneo no qual se encontravam e lhes trouxe novamente para a realidade: um sujeito, aos tropeções, vinha correndo na direção de ambos e gritava a plenos pulmões o nome de Assis. Era o irmão do turista de Cândido Godói. Sua aparência não se diferenciava muito da dele: alto, loiro, olhos azuis e pele clara; na realidade, tratava-se de gêmeos. E um pouco mais ao lado, ainda contemplando aquelas duas imagens exatamente iguais refletidas sob as águas da fonte, Adolar, um alemão de Blumenau, ouviu o som repetitivo de uma buzina, a qual fez com que seu rosto se voltasse em direção à rua XV de novembro, provocando um arrepio que percorreu todo o seu corpo e o fez esfregar os olhos como aqueles que acabam de estar presenciando uma miragem: estacionado em frente ao Teatro Carlos Gomes estava parado um ônibus de turismo vermelho e branco e, de seu interior, começaram a desembarcar inúmeros pares... não... trincas de gêmeos, todos com as mesmas roupas, os mesmos olhos, o mesmo terror...

Este conto é uma homenagem para todas as almas roubadas pelo nazismo. Em especial para Anne Frank. Eles podem ter roubado sua juventude e seu sonho de viver, mas seu coração pulsa em cada palavra, sentimento e lágrima contida em seu diário. E, independentemente de todas as atrocidades que eles cometeram e, em detrimento daqueles que ainda cultivam ideais em relação ao passado, seu espírito continua vivo, e impedirá que o mal retorne outra vez.

*Passagens retiradas do relato documental O Diário de Anne Frank, escrito entre 12 de junho de 1942 e 1º de agosto de 1944.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Angústia e Solidão

“Só existe um problema filosófico realmente sério: o suicídio. Julgar se a vida vale ou não vale a pena ser vivida é responder a pergunta fundamental da filosofia”. (Albert Camus)

Depois de dias mal dormidos e um sentimento de angústia crescente como há tempos eu não sentia, me lembrei da citação aí de cima. Resolvi voltar a olhar para esta questão com mais seriedade. Saber se vale ou não a pena viver. Vale? Não vale? É nisso que andei pensando nestes dias. De certo ponto parece ser um assunto ridículo, ainda mais se levarmos em conta que tenho tudo aquilo que preciso para levar uma existência digna: casa, comida, trabalho, amigos e o conhecimento necessário para seguir em frente. Entretanto, sou obrigado a admitir uma coisa para vocês: sou um grande mentiroso para comigo e para com os outros. Como sei disso, talvez você esteja se perguntando, não? Respondo com o maior prazer: constato isso todos os dias antes de dormir. Quando está tudo em silêncio. Quando o dia está chegando ao fim. Quando não sei mais o que fazer...

É claro que teorizar sobre o suicídio é fácil. Você não morre por pensar. Quando não se pensa nestas coisas é porque já se está morto e não se percebe. Mas não precisam se preocupar, eu não vou embora. Não tenho coragem para isso. É triste pensar nestas coisas quando se é jovem, ainda mais quando existem tantas coisas para me distrair por aí. Mas eu não consigo. Devo buscar a coragem dentro de mim e dizer: “Olha, você não quer acreditar na realidade dos fatos, você sabe que não importa o que faça nada vai mudar, que este mundo é uma mistura de beleza e tristeza, e que angústia e solidão nascem da compreensão. Compreender que todas aquelas vezes que você parava e fechava os olhos para ouvir as diversas vozes dentro do ônibus, nada mais eram do que um eco dentro de sua pequena prisão: uma prisão feita de carne!”. Ora, se estou preso, encarcerado aqui dentro, e ando de um quarto para o outro, de um canal de televisão para outro, de um número de telefone a outro, e tenho vontade, às vezes, de sair desta prisão, o que posso fazer?

É claro que se pode deixar o tempo e os dias correrem. Isso não requer nada de mais, apenas covardia. Para se ter uma idéia de como a angústia dentro do peito - sentimento este que muitas vezes não conseguimos entender -, sufoca e nos faz olhar para os objetos ao nosso redor de uma forma apática, basta saber que dormir é o melhor remédio para este mal. Deitar-se de forma consciente, sem sono, sem necessidade aparente. Perder a consciência de forma tirânica. Esquecer de tudo por livre e espontânea vontade. Dormir para não precisar mais pensar me nada.

Então, o que representa o suicídio? Sou capaz de responder a pergunta primordial da filosofia? Sinceramente, não. Conheci pessoas que já levaram a cabo esta idéia, mas elas tinham motivos sérios para justificá-las. Meu único motivo é que não consigo entender o motivo de tudo isso. Sim, sou alguém que nasceu e por isso precisa viver, mas realmente existem momentos que nada mais faz sentido.

Filosofar é ser criança; é perguntar e voltar a brincar; é amar e não se preocupar.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Lágrimas Desperdiçadas

“A sinceridade é o único modo de falar e escrever que não passará jamais de moda. O argumento desprovido de poder, de ir ao encontro de minha própria prática, falhará também em ir ao encontro da vossa. Escreve para um público eterno aquele que escreve para si mesmo”. (Ralph Waldo Emerson)

Ultimamente, ando pensando se realmente devo sofrer nesta vida. Sim, eu sei que as pessoas se acostumaram com a idéia de que através dele a gente cresce e aprende; mas, para falar sinceramente, não posso concordar com esta afirmação. Não concordo porque não seria justo. Afinal, já não estamos aqui sem saber o motivo? Sem saber o que vai acontecer no futuro? Isso já não seria motivo suficiente para sentir o peito apertando?

Acredito que todos os nossos problemas são originados dá nossa falta de visão de mundo. Não existe outra explicação. Eis o fato de que nos destrói por dentro: nascemos, lutamos e morremos. E isso é o que acontece na maioria das vezes. Entretanto, além de sermos jogados neste Planeta sem sabermos ao certo os motivos, existe algo que nos foi dado como compensação para nos amenizar da dor desta jornada: um cérebro.

Tanto o cérebro quanto a visão devem trabalhar constantemente juntos para nos guiar adiante. Para começar, somos egoístas a partir do momento que vivemos e não pensamos naquilo que nossas ações podem desencadear; principalmente, quando estamos falando da alteração do destino de outras pessoas. Pode parecer absurdo, mas no momento que eu penso sobre o mundo e minha participação nele, evito sofrimento para inúmeras pessoas.

Vou dar um exemplo simples: Numa manhã qualquer, num dia frio e chuvoso, aguardo a chegada do ônibus que vai me levar até o trabalho. Minhas meias estão encharcadas e não sinto minhas mãos e orelhas. Eu embarco, pago a passagem e busco com o olhar um lugar para me sentar. Não existe nenhum disponível. O trânsito está um caos. Chegarei atrasado mais uma vez. Olho pela janela e vejo um outdoor com a propaganda de uma moto qualquer. O que passa pela minha cabeça neste instante? Eu iria economizar uma grana e ganharia tempo. Pronto! Já conhecemos o restante da história.

Não importa se sofro um acidente de moto ou de carro, se bebo e causo angústia aos meus familiares ou se resolvo usar os outros para suprir minhas necessidades materiais ou emocionais, a partir do momento que minha mente toma as decisões por mim outros irão sofrer. Não me importa que Jesus tenha morrido na cruz, de que meus pais não tiveram o discernimento para mudarem suas próprias vidas, de que a Sociedade espera que eu faça parte dela, na hora que o dizer não fez parte da minha vida, eu deixei de sofrer, e de derramar lágrimas em vão.

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Adaptar?...Ou será suportar?

“Que esperança existe de que, como humanidade coletiva, sejamos capazes de controlar as forças que desencadeamos?” ( Anthony Giddens)

“O perigo envolvendo as Mudanças Climáticas”... já faz algum tempo que não ouço mais este tipo de alerta. Parece que a poeira baixou. O assunto deixou às páginas dos jornais, o horário nobre dos noticiários, as capas das revistas semanais. As pessoas já não pensam mais neste assunto. Mas passados quatro anos desde o lançamento dos Relatórios ambientais do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) da ONU, de 2007, e da conferência do Clima de Copenhague (COP 15), em 2009, o que aconteceu com toda aquela preocupação ambiental com o futuro dos países mais pobres e com as catástrofes ambientais que podem se agravar nas próximas décadas se nada for feito para conter as emissões de gases (CO²) que provocam o aquecimento do planeta Terra? Acredito que todo este silêncio atual já anuncia a sentença pela qual todos os seres humanos – tanto aqueles que caminham atualmente quanto os que ainda não foram concebidos - foram sentenciados por nossos atuais governantes: adaptar-se e suportar todas as mudanças no clima que surgirão num futuro próximo.

Pode parecer ridículo, mas quando olho as pessoas – principalmente as crianças -, se divertindo nos parques de Blumenau nos finais de semana sempre me lembro “Do perigo envolvendo as Mudanças Climáticas”. É realmente uma ameaça silenciosa. Enquanto a bola de futebol rola tranquilamente pelo cimento, a fila do escorregador cresce, as conversas nos bancos vão se animando e os aparelhos de exercícios trabalham a todo vapor, algo sobe até os céus e muda não só a vida daquelas pessoas, mas também a de indivíduos que vivem a milhares de quilômetros de distância: a fumaça negra que sai dos escapamentos dos carros todos os dias e vai parar na atmosfera terrestre. É provável que, na verdade, os governantes tenham apenas levado a cabo o nosso desejo inconsciente de não se incomodar, de escapar da responsabilidade de nossos atos, de relegar àqueles que ainda não estão entre nós a solução deste problema. Pode ser...

“As estações já não são mais como antigamente”... Esta é apenas uma das colocações que escuto minha avó fazer ocasionalmente em relação às tempestades, ondas de frio e calor intensas e a dificuldade em prever se vai chover ou não. Pode parecer bobagem, mas os anos que vão se passando trazem consigo alguns sentimentos de estranhamento em todos nós. A catástrofe ambiental de 2008, uma das maiores da história de Blumenau, é apenas uma delas. Tivemos anos em que se passaram meses sem cair uma única gota de chuva em nossa cidade. Mais recentemente, a intensidade na queda de relâmpagos também deixou muitos perplexos. Infelizmente, não são provas cientificas, mas apenas indícios de algo que está no ar.

Que me desculpem os teóricos e os lideres mundiais, mas para mim – no caso específico das mudanças climáticas -, adaptar é o mesmo que suportar: Suportar as mesmas visões e sofrimentos de 2008. Uma chuva ininterrupta de três dias, casas vindo abaixo, pessoas sem luz elétrica, sem água potável, sem comida, sem notícia de seus entes queridos. Eu não gostaria de vivenciar novamente aquele mês de novembro. Entretanto, parece que no momento que a reunião de Copenhague falhou no diálogo entre as nações para se chegar a um consenso do que se fazer, silenciosamente, de dentro de nossas casas, todos nós apertamos as mãos e olhamos pela janela a chuva cair mansamente... e decidimos esperar.

domingo, 24 de abril de 2011

A insustentável leveza das idéias

“Faz parte do amor a profundidade e fidelidade do sentimento, pois sem elas o amor não seria amor, mas simples capricho. O verdadeiro amor sempre pressupõem um vínculo duradouro e responsável. Precisa da liberdade para a escolha, não para a realização. Todo amor verdadeiro e profundo é um sacrifício. A gente sacrifica possibilidades, ou melhor, as ilusões de suas possibilidades. Se não houvesse necessidade desse sacrifício,nossas ilusões impediriam o surgimento do sentimento profundo e responsável e, com isso, ficaríamos privados também da possibilidade de experimentar o verdadeiro amor”. (Jung)

Há alguns anos, quando estava na faculdade e cursava jornalismo, tive a oportunidade de me defrontar com pessoas de idéias incomuns e estilos de vida alternativos. Muitas delas provenientes das ciências humanas, mais precisamente da Filosofia, Psicologia, Sociologia e Antropologia. Nelas, um ponto se destacava e era sempre sinônimo de discussão: a liberdade. Mais precisamente: a necessidade de tornar-se um espírito livre. Uma existência capaz de adentrar as inúmeras moradas da alma que caminham pelas grandes cidades e não criar vínculos duradouros; percorrer as páginas dos livros sagrados e fechá-los sem presenciar nenhum tipo de marca permanente; enfim, viver suas próprias idéias. Porém, neste instante, aquela velha dúvida que me assaltava já naqueles tempos retorna e eu a repito a mim mesmo: será mesmo possível?

Uma das questões mais polêmicas envolvia a idéia de viver o amor livre. Ela baseava-se num acordo de livre vontade, onde ambas as partes viviam as mais diversas experiências sem correr o risco de apresentarem nenhum tipo de remorso ou sentimento de culpa. Era exercitado um desapego tanto físico quanto emocional. Busco na memória este assunto porque as pessoas que viviam estas idéias naquela época – e que provavelmente vivem até hoje - não falavam apenas da boca para fora, na intenção de impressionar alunos ou amigos, mas porque aquilo fazia parte deles. E o que tento constatar com o retorno desta lembrança? Simplesmente se estas idéias são firmes o suficiente para resistir ao tempo, ao tempo que nos é dado para viver.

Imaginem a seguinte situação: uma mulher, de meia-idade, bonita, que vive um relacionamento aberto com seu companheiro, o qual apresentou estas idéias para ela, encontra-se sozinha dentro de seu apartamento e vai até o banheiro fazer suas necessidades básicas. Lá, decide tomar uma ducha. Abre o chuveiro e espera a água esquentar. De repente, por acaso, enxerga sua imagem nua refletida no espelho. O que ela vê? O que ela pensa? O que ela sente? Nenhuma idéia emprestada por outra pessoa pode habitar o nosso ser por muito tempo. E numa mulher, menos ainda.

“Na nossa sociedade, as jovens participam dos mitos masculinos do herói porque, como os rapazes, precisam educar-se e desenvolver uma personalidade própria sólida. Mas há uma região, ou uma camada mais antiga das suas mentes, que parece vir à superfície dos seus sentimentos para as tornar mulheres, e não imitações de homem. Quando esse antigo conteúdo da psique começa a aparecer, a jovem moderna tem a tendência de reprimi-lo, já que representa uma ameaça às suas mais recentes prerrogativas: a emancipação e a igualdade de competição com os homens”.(Jung)

Esta passagem contida em uma obra de Jung apareceu num momento oportuno. O tempo em que vivemos é um tempo triste. Por quê? No instante em que as mulheres tentam ser iguais aos homens ou buscam viver da mesma forma que eles, tornam-se homens. E uma sociedade só com homens tende a ser doente por falta de equilíbrio. É uma pena que o espelho carregado dentro de tantas bolsas não consiga refletir também aquilo que se esconde por trás da carne.

A sociedade pode mudar constantemente, mas a mulher não. O espelho mostra aquilo que ela é: nada. E ela sabe disso. A falta de segurança corrói sua beleza e seu coração. Ela precisa de uma casa, de um jardim, de cachorros, de abraços... de um futuro. Ela precisa zelar pelos outros. Quando Buda dizia ter medo e receio das mulheres, este temor tinha uma explicação: elas carregam a verdade da vida, e nelas esta verdade dói e aparece de forma mais nítida: a velhice, a doença e a morte.

domingo, 17 de abril de 2011

O desejo de fazer o bem... usando o mal

“– Não! - gritou Gandalf, levantando-se de repente. – Com esse poder eu teria um poder grande e terrível demais. E comigo o Anel ganharia uma força ainda maior e mais fatal. – Seus olhos brilharam e seu rosto se ascendeu como se estivesse iluminado por dentro. – Não me tente! Pois eu não quero ficar como o próprio Senhor do Escuro. Mas o caminho do Anel até meu coração é através da piedade, piedade pela fraqueza e pelo desejo de ter forças para fazer o bem. Não me tente! Não ouso tomá-lo, nem mesmo para mantê-lo a salvo, sem uso. O desejo de controlá-lo seria grande demais para minhas forças”. (Gandalf, O Senhor dos Anéis)

Quando Jung, em um de seus escritos chamado “A Luta com as Sombras” chamava a atenção para fatos curiosos que pôde observar ao analisar os sonhos de inúmeros pacientes alemães no ano de 1918, nunca imaginei que algo estudado há tantos anos pudesse hoje, quase um século depois, causar ainda uma impressão tão forte em mim. Causa, é verdade, mas por um motivo especial: o tempo não existe dentro de nossa mente inconsciente, e todas as informações e acontecimentos do passado continuam vivos em nós através do inconsciente coletivo.

Aqueles sonhos apresentavam aspectos em comuns - mesmo sabendo que aquelas pessoas não se conheciam ou que tinham histórias de vidas diferentes-, todos exprimiam primitividade, violência e crueldade. Porém, o seu oposto também aparecia constantemente, sob a forma de imagens que retratavam a ordem tão buscada depois da destruição e das misérias causadas pela Primeira Guerra. Mas afinal, o que tudo isso tem a ver com o desejo de fazer o bem... usando o mal?

Nestes últimos tempos tenho me feito uma pergunta muito curiosa: O que eu faria se tivesse o poder em minhas mãos? Ou ainda: No que eu acabaria me tornando, se minha vontade fosse lei? Tudo aquilo que Jung refletiu naquele período sobre algumas características incomuns que o povo alemão carregava consigo estão dentro de mim. O mesmo desejo de ordem e a mesma crueldade. Até onde eu sou uma pessoa virtuosa, que se preocupa de verdade com os outros? Sendo sincero, o meu pensamento não é meu.

Sim, é verdade, tudo aquilo que vejo me perturba e pensamentos estranhos tomam conta de mim. Quando o lixo é jogado no chão ou em direção às águas do rio... quando uma árvore é derrubada... as pessoas dormindo nas ruas... as crenças ridículas... os indivíduos inferiores, que são apenas um peso morto para a sociedade. Ter esta consciência do monstro existente dentro de mim me ajuda a evitar os mesmos erros do passado. Quantos não possuem os mesmos sentimentos? Quantos não sentem certo incômodo quando a ordem social é ameaçada?

Hora, eu desejo ter o poder para fazer o bem para outras pessoas. Quando assisto uma matéria no noticiário relatando a destruição da floresta amazônica ou do aumento da criminalidade nas grandes cidades, o que eu faria? Colocaria o exército lá dentro e aquele que for pego desmatando pagaria com a... e aqueles que roubassem ou matassem seriam... os culpados pela desordem social seriam mandados para os campos... Tudo com o intuito de promover a ordem e o bem-estar social. Tudo para me livrar do anonimato insuportável, do vazio, da morte, da minha própria mediocridade...

Eu gosto de conversar com minha própria Sombra. Quando penso sobre as questões envolvendo o surgimento do nazismo e os estudos psicológicos de Jung, ela torna-se menos escura. E evita que uma velha profecia volte a tornar-se realidade novamente: “No momento que esses símbolos aparecem e não são assimilados, eles começam a unir com força magnética os indivíduos isolados. Assim tem origem uma massa. Rapidamente surgirá o líder no coração daquele que possuir a menor força de resistência, a menor consciência de responsabilidade e que, devido à sua inferioridade, demonstrar a mais forte vontade de poder. Libertará das correntes tudo o que está em estado de irrupção e a massa o seguirá com a força arcaica e incontrolável de uma avalancha” (Jung).

domingo, 10 de abril de 2011

Quando a minha família não é a sua...

“Fazer uso do outro como meio de satisfação e segurança, não é amor. O amor nunca é segurança; o amor é um estado em que não existe desejo de estar em segurança; é um estado de vulnerabilidade; é o único estado em que a “exclusão”, a inimizade e o ódio são impossíveis. Neste estado, uma família pode tornar-se existente, mas não será “exclusiva”, egocêntrica”. (J. Krishnamurti)

Os primeiros raios de sol anunciavam o nascimento de um novo dia. Uma cortina mal fechada sempre deixa algumas frestas expostas. No alto das paredes, teias decoram o ambiente, livros empoeirados atiçam a renite e, ali dentro, naquele quarto escuro, o frio parece mais intenso; mesmo sabendo que ainda estamos no verão...

Dentro da minha casa está a minha família, já naquela, do outro lado da rua, está a sua. Eu não os conheço, não sei nada sobre vocês. O muro, as grades nas janelas e as cercas eletrificadas atrapalham a minha visão. Seu cachorro latindo também não ajuda. Onde vocês trabalham? Qual é o nome dos seus filhos? Por que nunca paramos para conversar?

Eu sei, eu sei... a minha família não é a sua. Como você mesmo já disse uma vez. Eu sei, eu sei... o relógio não para. Como poderia? Quem não usa hoje em dia? Depois que o meu parou, nunca mais usei. Prefiro andar. Ir caminhando em direção ao meu destino. Eu sei, eu sei... parece coisa de louco. Todo dia parece uma noite chuvosa. Ninguém nas ruas.

Sabe, por não ter com quem conversar resolvi falar comigo mesmo. Cansei de falar com gente que não respira mais. “Você não tem medo de ficar louco quando ficar velho?”, pergunta engraçada que voltou à minha memória. “Eu não quero ter uma depressão!”, outra lembrança curiosa. Deixe que eu a carregue por você. Quanto a ficar louco, muito antes de você me fazer esta pergunta eu já estava doente. Só acho que não é preciso ficar grisalho para perceber que algo não está certo aí fora nem aqui dentro.

Realmente, a minha família não é a sua. O seu carro não é meu. Seus pais não são meus. Eu não estou no seu álbum de fotografias. Se eu perder alguém querido, posso ir até a sua casa? Fazer parte da sua família? Acho melhor fechar as cortinas e voltar a dormir.

domingo, 3 de abril de 2011

Sobre outro tipo de amor

“O amor reza”. (Ralph Waldo Emerson)

O mundo está cheio de manifestações daquilo que se entende por amor. Basta olharmos para o lado e lá estão elas: as mãos entrelaçadas, os olhares, os sorrisos, a indiferença em relação ao resto das coisas vivas. Tudo isso representa um tipo de amor; aquele que possui uma missão sagrada com a natureza e irá se concretizar de uma maneira ou de outra. Independente de gostarmos ou não da idéia.

Porém, sempre me perguntei se existia outro tipo de amor. Algo que dificilmente é observado no dia-a-dia, uma coisa oculta dentro da mente, que apenas se manifesta em meio ao terror da solidão e do medo. Uma coisa que aparece de repente, nos muda, faz com que deixemos de nos preocupar com o trabalho, com a escola, com os pais e amigos, com o dinheiro e, também, com o futuro. Nossa atenção volta-se exclusivamente para ele.

É possível carregar consigo este outro tipo de sentimento? Ou melhor, esta coisa realmente existe? Seria hipocrisia de minha parte dizer que tenho certeza de sua existência. Depois de sua passagem, resta apenas uma vaga lembrança. Mas ela nos modifica de alguma forma. Invade nosso pensamento e, principalmente, confisca nossos olhos.

Não se pode mais fazer mal a ninguém. Cada local onde antes havia uma área verde torna-se sagrada; causa uma tristeza profunda observar pedreiros levando seus carrinhos-de-mão de lá para cá, escavadeiras arrancando raízes que levaram anos para se desenvolverem por baixo da terra, e saber que aquela placa de “vende-se” cravada em meio ao terreno representa um caminho sem volta. Uma terrível constatação e mensagem ao mero racionalismo dos tempos atuais: este outro tipo de amor não se importa com o progresso e nem com a segurança.

E, para finalizar, acredito que este outro tipo de amor possui algo de religioso. Não me refiro à igreja ou qualquer livro, mas sobre o enxergar o planeta de fora; do entender a superficialidade dos relógios e calendários; do sofrer em silêncio; do olhar e não mais falar palavra alguma; do se sentir velho muito cedo; de aceitar aquilo que me mata. Existe mesmo este outro tipo de amor?

domingo, 6 de março de 2011

Dois Pares de Asas

De mãos dadas com minha Sombra meus dias vão passando...

Seu dedo aponta cada volta do ponteiro, cada sol poente...

Sua presença é sentida, sua imagem refletida...

Mas o que desejo de verdade é poder abraçá-la tranqüila.


Sob a luz artificial, sua forma já não é tão nítida...

A fina garoa agora corrói suas asas malignas...

Por trás de cada tragada, um anjo bate asas e ilumina inúmeras vidas.


Porém, a caminhada é longa e preciso ir...

Para o lado olho e a vejo subir...

A cada dia que passa, fica mais difícil continuar...

Mas olhando para cima, ao menos já posso respirar.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

A Jornalista e o Astronauta

De mãos dadas com a esperança, elas tentavam se proteger da tempestade que se anunciava. Tanto Penélope quanto Ricardo observavam pela janela do quarto a chuva torrencial que voltava a castigar a cidade de Blumenau. Em mais uma noite fria e úmida de inverno, o ribombar dos trovões e o clarão dos relâmpagos faziam com que os cobertores fossem puxados para mais perto dos rostos, deixando expostos apenas dois pares de olhos carregados de medo e curiosidade. E estes, vigiados por um céu sem estrelas, acompanhavam com deleite o rastro incandescente deixado pela cauda de uma estrela-cadente, que rasgando e manchando o horizonte de vermelho, criou naquelas crianças o desejo irrefreável de fazerem um pedido: que no futuro, seus pais não fossem para o trabalho, passando assim mais tempo junto deles...

A maçaneta agora girava devagar. Pela porta entreaberta do quarto, Mariana observava seus filhos adormecerem. Postada ali, em frente às suas camas, perdida nos mais diversos pensamentos, sentia até certo receio de se aproximar. Naquele instante, seu olhar percorreu toda a extensão do cômodo e buscou pousá-lo sob seus semblantes despreocupados; acompanhava com interesse o compasso de suas respirações, tentando adivinhar o que habitava seus sonhos. Entretanto, no fundo, tudo aquilo lhe soava estranho e distante. Na verdade não conhecia seus filhos. Sabia seus nomes e suas idades, onde estudavam, alguns de seus amigos, porém, desconhecia seus sonhos, seus medos, aquilo no qual se tornaram ou que estavam para se tornar. E esta súbita tomada de consciência fez com que um pequeno frasco trazido junto ao peito caísse e rolasse pelo assoalho, espalhando pequenas cápsulas por todos os lados. Ao ajuntá-lo, ela pôde perceber sua natureza e a leitura de seu nome ressoou por um longo período em sua mente: PROZAC*.

Pela manhã, após mais uma noite mal dormida, Mariana preparava o café e assistia o noticiário pela televisão. A porta da geladeira ia e vinha constantemente. Assim como os cigarros até sua boca. Muitos relatos sobre os estragos causados pela enxurrada da noite anterior chegavam agora aos seus ouvidos. Casas destelhadas, ruas alagadas, deslizamentos de terra e engarrafamentos já eram até coisas naturais em se tratando daquele lugar. Porém, uma notícia em especial chamou sua atenção: a queda de um foguete espacial às margens do rio Itajaí- Açu, próximo à prefeitura municipal. “Ora, esse não é o tipo de coisa que a gente ouve todo dia...”, pensou. Com a mesa já posta, diminuiu o volume do televisor a uma altura que não despertasse o restante de sua família e continuou a travar uma batalha sem fim contra seu isqueiro que insistia em permanecer apagado - o qual a quase levou à loucura -; e pôde em meio a tudo isso ainda acompanhar o âncora do telejornal dar uma última informação sobre o incidente. Segundo fontes oficiais, até aquele instante, nenhum sobrevivente havia sido encontrado.

Mariana adorava sua casa; principalmente a cozinha. Era ali onde recebia os amigos do trabalho e da faculdade para relembrar situações engraçadas dos tempos de estudante; neste lugar aconteciam animadas conversas de marido e mulher, sobre acontecimentos rotineiros do dia-a-dia; e, às vezes, propício também para se aventurar na preparação de algum prato especial. Naquele espaço, sempre existia algo que podia distraí-la. E o PROZAC era uma dessas coisas. Sempre presente ao seu lado, seja em cima da mesa ou dentro da bolsa. Preenchendo o vazio ou tampando buracos. Junto com seu Malboro, eles formavam uma companhia perfeita para os tempos de solidão.

Um pouco depois do término do telejornal, o celular de Mariana não parou mais de chamar. Nutria um sentimento de amor e ódio por ele. Tinha uma necessidade louca de ficar sozinha, mas o mundo parecia não permitir. Só que não atendeu de imediato como seria de se esperar. Tinha seus sentidos voltados para as cortinas esvoaçantes e a janela por elas descoberta. Dois vasos com flores há muito esquecidos decoravam-na. “Um presente do dia das mães...”, foi a lembrança resgatada por aquela imagem. Com o passo hesitante e a respiração ofegante, ela se aproximou delas: “Estão secas... há quanto tempo não são regadas?”. E, de repente, o telefone voltou a tocar. Despertada do transe momentâneo, seus dedos conduziram o aparelho para mais perto de seu rosto e a voz do outro lado linha revelou-se mais familiar do que nunca: era o editor do jornal onde Mariana trabalhava como repórter.

Ultimamente, Mariana não encontrava mais prazer em seu trabalho. Sempre as mesmas pautas rotineiras, entrevistas enfadonhas e o aborrecimento diário de lidar com um chefe debochado. “O dinheiro não traz satisfação quando é preciso trabalhar por ele; porque quando se trabalha para ganhá-lo não há tempo para gastá-lo**”, lia Mariana em uma folha de papel colada na porta da geladeira, ao lado de algumas provas escolares, enquanto conversava ao celular. “Preciso que você vá até o local da queda e faça algumas imagens, Mara”, impôs seu chefe. “Não sei como chegarei lá boss, levei meu carro para a oficina ontem e estará pronto somente na semana que vem”, enfatizou, depois de depositar mais algumas chepas no vaso transformado em cinzeiro inconscientemente. “Simples, te pago uma passagem e tu vais de ônibus!”, gargalhou, após levantar a possibilidade. “Antes, me diz uma coisa: é sério mesmo esse negócio de foguete espacial? Aqui em Blumenau? Nunca escutei coisa mais maluca...”, respondeu, convencida de ser a única pessoa sã em todo o planeta. “Maluca? Claro que é! Por isso vai direto para a primeira página! Você nunca ouviu falar de OVINIs? 2012 está quase aí, não está?”, ironizou. Encerrada a ligação, Mariana correu para apanhar sua câmera fotográfica, seu bloco de notas e seu guarda-chuva, afinal, por mais maluca que fosse aquela pauta, esta poderia representar a grande chance que ela tanto ansiava para dar uma guinada em sua carreira.

Impossibilitada como estava de usar seu automóvel, Mariana aproveitou que o marido iria levar seus filhos para a escola e decidiu pegar uma carona. A princípio, usar o transporte público estava fora de cogitação, não que ela tivesse algum receio de voltar às origens – sim, ela usou diariamente há alguns anos -, mas porque desconhecia os horários e sabia que precisava chegar logo até o ponto do acidente para levantar todas as informações necessárias. Voltava a chover forte novamente. Ao desembarcar do veículo, em frente a um dos cartões postais de Blumenau, o castelinho da Havan, Mariana abriu seu guarda-chuva e caminhou apressada pela Avenida Beira-Rio, hora desviando das inúmeras poças d água hora dos cachorros encharcados e mal-cheirosos que parecendo não acreditarem também na história do foguete, teimavam em acompanhá-la por todo o percurso.

No local do incidente, fitas de isolamento restringiam tanto o acesso da imprensa quanto dos curiosos, formando um grande círculo em volta do ponto de ônibus. Para sua sorte, Mariana conhecia um dos guardas que faziam a segurança do local, e não teve receio de se aproximar. “Me quebra este galho só desta vez Janga, só umas fotos e eu caio fora”, abrindo um grande sorriso em direção ao policial. “Tu sabes que eu posso ser repreendido por isso, levar um gancho, sabias?”, perguntou ele, ao mesmo tempo em que fazia uma varredura completa sob o corpo da jovem jornalista. “Mas como hoje estou de bom humor, vou deixar você passar, porém, você me deve uma, ouviu? E nós vamos...”, sendo interrompido de forma brusca pela passagem dela por baixo da fita, que gerou uma onda de repórteres indignados e empurra-empurra geral. De maneira abrupta, ela aproximou-se da murada de proteção, cuja vista renderia belíssimas imagens. Só que no momento de soltar o primeiro flash, qual não foi a sua surpresa quando seus olhos captaram algo muito mais raro recostado naquela proteção de ferro, algo que parecia ter saído de algum filme ou documentário sobre ficção-científica: um homem vestindo um traje espacial fitava serenamente os destroços do foguete serem levados para longe pelas águas do rio Itajaí- Açu. Quem era ele? O que fazia ali? De todas as dúvidas que assaltaram Mariana naquele instante, apenas uma veio a se dissipar com aquela visão: sobreviventes havia, e aquela presença era prova mais que suficiente.

Vaidade e frivolidade nunca foram características presentes na personalidade de Mariana. Tanto era assim, que mesmo aborrecida com as roupas todas molhadas e o cabelo desgrenhado, não deixou se abater pelas adversidades e dirigiu-se de encontro ao estranho viajante: “Olá, meu nome é Mariana e sou repórter de um jornal local, será que o senhor poderia me conceder uma entrevista? , perguntou, depois de parar ao seu lado e tatear os inúmeros bolsos da calça em busca de seu gravador. Não houve resposta imediata. E, com um movimento da cabeça e do dedo indicador em direção à ponte de ferro, ele profetizou em voz baixa, quase num sussurro: “Vê aquele sujeito lá no alto da ponte, sentado na mureta de proteção com as pernas balançando? pois é, logo ele vai se jogar...”.

O estrondo causado por um trovão fez com que Mariana baixasse a cabeça e tampasse os ouvidos assustada. Seu guarda-chuva parecia ser levado cada vez mais para o alto pelas rajadas de vento. Em conseqüência, com um gesto ao mesmo tempo petulante e surpreendente, ela agarrou o braço do astronauta e arrastou-o para baixo da marquise de proteção no ponto de ônibus. Ambos se sentaram. Ela, ainda com o coração batendo a mil, virou-se para trás e procurou por toda a extensão da ponte a figura do jovem que pretendia pular. Não avistando ninguém, dirigiu o olhar para a superfície do rio em busca de algum movimento nas águas. Nada se movia exceto a própria correnteza. “Falta coragem... sempre falta na hora...”, comentou o astronauta como se estivesse em um monólogo, ainda com a cabeça voltada para o chão.

Várias vezes ele se levantou e ameaçou ir embora. Em todas elas Mariana olhou no fundo de seus olhos e o impediu. “Você é algum tipo de astronauta? Da NASA, talvez? Ou será que estão gravando algum filme aqui em Blumenau e ninguém me avisou?”, insistia, ainda duvidando e sem entender nada. Em que finalmente, depois de retirar seu capacete e depositá-lo em seu colo, ele respondeu ainda um tanto contrariado: “Sou um astronauta... não... sou um estrangeiro... alguém que gostaria de ver a Terra novamente de fora... esquecer tudo isso... deixar por aqui relógios e calendários... a gente muda quando está lá... como posso voltar a viver da mesma forma?... diga-me!”. Mariana não sabia o que responder. Por esta razão, voltou a perguntar: “O que aconteceu lá em cima? Como você veio parar aqui? Teve problemas técnicos? E cuja resposta e, lembrança posterior, arrepiaria todos os pêlos de seu corpo ainda por muitos anos no futuro: “Eu senti alguém me chamando... escutei vozes... sei lá... de repente tudo parou, escureceu... acho que foi um sonho... me levavam pela mão... pelas duas... você acredita em anjo-da-guarda?...nunca acreditei nestas coisas... só sei que quando me dei conta, estava jogado às margens deste rio”.

Ela achou estranha aquela resposta; como achava toda aquela situação. Não sabia mais quais perguntas formular. Tanto ela quanto o astronauta continuavam sentados no banco do ônibus sem dizerem nenhuma palavra. Olhando para frente, ela reparou nos canteiros de violetas que embelezavam os arredores da prefeitura de Blumenau. Nunca tinha parado para reparar nelas. Nunca teve tempo para estas coisas. Nunca se sentiu sozinha neste planeta. Lembrou-se então dos vasos de flores; nos filhos de mãos dadas fazendo um pedido em frente à janela do quarto; na queda do foguete espacial em meio à tempestade e no PROZAC. Segundos depois, freando bruscamente, um ônibus amarelo estacionou e abriu suas portas diante dos olhos de Mariana. Levantando-se e apanhando seu capacete, o astronauta entregou um livro para a jornalista e falou antes de embarcar e desaparecer para sempre: “Sabe qual é o nosso problema? A razão pela qual não somos felizes? Somos Humanos em Demasia!”.

Mariana voltou-se para o céu, fechou os olhos, abriu a boca e colocou a língua para fora. Pensou sobre os inusitados encontros que acontecem nesta vida. Nas forças invisíveis que atuam sobre todos nós. No tempo que desperdiçamos. Sentia o gosto da chuva. Nuvens negras despejavam toda sua fúria em seu rosto. Deu alguns passos à frente e encarou o rio. Abriu a bolsa e lançou para o alto o frasco de remédios. E ele foi levado pelas águas. Depois, com o grito e aceno de seu filhos, ela entrou no automóvel com sua família e pediu ao marido que a levasse para casa. Sentados no banco de trás estavam Penélope e Ricardo. Com a chave na ignição, seu esposo perguntou: “Que livro é este que você está lendo?”. Ao qual ela respondeu prontamente: “Humano Demasiado Humano***”.