domingo, 3 de janeiro de 2010

LUZ FRACA

PARTE I: A VOLTA DA SOMBRA


Finalmente, mesmo em toda sua timidez, a noite parece ter atendido suas preces: nuvens negras haviam ouvido seu apelo e tecendo uma aliança sombria entre ambas as partes, encobriram para sempre a luz das estrelas com um manto negro bordado pela sua crescente tristeza. Ele buscava esquecê-las, pois elas eram a ponte que ligava este mundo ao lado de lá. Um rosto desconhecido ele buscava traçar, ligando pontos luminosos espalhados por sua mente e coração, que aos poucos iam se silenciando para sempre. Porque, quando a luz é fraca, o destino se dissolve...

Moscas... Ultimamente, havia centenas delas por todos os lados. Voando e zumbindo, elas buscavam alcançar o seu corpo. Estavam no seu cabelo, na sua boca, em seu nariz e nos seus ouvidos. Atraídas principalmente pelo odor fétido exalado por seu pensamento, a presença destes insetos representavam bem o estado de espírito em que ele se encontrava naquele momento: em decomposição. Sim, ele pensava muito na morte física do corpo, do seu corpo. E também no surgimento de doenças e na chegada da velhice. Tão grande era o seu medo naquela época, que a franja postada em frente aos seus olhos nunca mais foi cortada ou penteada para o lado, limitando de forma proposital seu próprio campo de visão. Ele tentava afastá-las, mas elas continuavam ali, chegando cada vez em maior número, adentrando seus sentidos, contaminando sua vontade, as moscas...

Uma semente... Detentora de toda a sua esperança no amanhã. Dela talvez surgisse a única flor de seu estéril jardim. Era o que ele queria acreditar. Porém, não sabia o que fazer com ela. Regar ou esmagar? Cuidar ou ignorar? Como o medo e a indecisão eram suas únicas virtudes, só restava-lhe procurar os conselhos de seus oráculos, heróis de sua juventude, uma vez mais. Ao abrir o pequeno portão de seu quintal, ele seguiu em frente por meio de um estreito corredor formado por grandes árvores tanto à sua esquerda quanto à sua direita, ao qual deveria percorrer. Nesta caminhada, algo luminoso chamou sua atenção. Olhando para o chão, ele pôde perceber uma trilha formada por inúmeras placas feitas de mármore, que traziam incrustadas em sua superfície pensamentos de vidas passadas: “O único cristão morreu na cruz”, do filósofo Nietzsche; “Viver é sofrer”, de Schopenhauer; e também “Não te procures fora de ti”, de Emerson; todos colocados em seu caminho desde muito cedo, servindo ao mesmo tempo de consolo e prisão. Na verdade, ele estava lutando para ser livre, mas até aquele momento não havia conseguindo livrar-se da tirania das palavras...

A cada passo dado, ele se voltava vez ou outra para trás e ficava surpreendido ao constatar que a estrada já percorrida ia desaparecendo sob seus ombros. Mais adiante, o estreito corredor ia se alargando até desenhar um círculo coberto pelas copas das árvores. O ruído de uma pequena queda d`água agora começava a chegar de forma clara e cristalina aos seus ouvidos. Aos poucos, uma fonte se materializava perante seus olhos e trazia junto de si a estatua de um anjo esculpido na pedra. Tendo suas asas banhadas incessantemente pelas águas jorradas sobre si, o mensageiro dos céus tinha seu rosto voltado para o alto e repousava em ambas as mãos uma espada medieval. Logo atrás, guardando sua retaguarda, encontrava-se um poste de luz que iluminava todo o ambiente. Contudo, mesmo em meio a toda aquela beleza talhada no granito, um detalhe em especial o inquietava: o anjo segurava a espada não pelo seu cabo, mas pela própria lâmina...

Esta constatação o perturbou muito. Por que aquele anjo apertava a lâmina com as mãos nuas? Neste instante, de uma forma totalmente inconsciente, sua mão tateou o interior de seu casaco em busca de algo que fizesse seu pensamento parar, que lhe proporcionasse um esquecimento completo. Ali, ele pôde sentir seu coração pulsar de forma desordenada e o sangue morno e viscoso começar a escorrer por seu peito e pernas, criando uma pequena poça sob seus pés. Entre seus dedos brancos, longos e finos, ele apertava cada vez mais intensamente a lâmina de um pequeno punhal. Isso fez com que o foco de luz proveniente do poste elétrico começasse a piscar de forma ininterrupta, evocando mais uma vez sua amiga Sombra. Em um primeiro momento, ele podia vê-la no alto daquela fonte, abraçada à cintura da estatua angelical, sorrindo em sua direção, imitando-a num ato de zombaria. Depois, só uma constatação o interessava: as moscas, que antes eram atraídas pela iluminação elétrica, agora passavam a circular apenas em volta da Sombra...

Após todos estes acontecimentos, ele caminhou lentamente até a fonte e aceitando o convite de sua companheira - que tinha a mão estendida em sua direção -, ambos dançaram por algum tempo. Gotas vermelhas então caíram sem parar de seu corpo e inundaram todo o gramado. Em seguida, ao conseguir desvenciliar-se dos braços dela, mergulhou seu rosto no fundo daquelas águas e, ao perder os sentidos, nunca mais voltou a emergir...

PARTE II: O APARTAMENTO

Em frente a porta de entrada do seu apartamento, uma mensagem desenhada no tapete recebia de forma calorosa o Garoto-Sombra de volta ao lar: “ Seja Bem Vindo”. Ao entrar, qual não foi a sua surpresa ao enxergar o imóvel passando por reformas e perceber muitas pessoas andando de um lado para o outro, carregando e mudando inúmeros móveis de lugar. Pintores, encanadores, arquitetos e decoradores se revezavam na tarefa de dar um novo aspecto, novas cores, um novo sentido para aquele ambiente marcado predominantemente pelo cinza. O lugar agora não estava mais vazio como outrora. Muita coisa mudou: as teias de aranha haviam sumido das paredes, as cortinas permaneciam por mais tempo abertas e os seus livros tinham sido encaixotados e depositados no fundo de seu guarda-roupa. Outras, como o incansável trabalhar dos ponteiros, o findar dos meses e dias e as cicatrizes em sua mão, nunca mudam...

Um dos decoradores volta-se para o Garoto-Sombra e lhe pergunta onde ele gostaria que fosse colocada uma velha pintura há muito pendurada na parede da sala. O quadro trazia desenhada a imagem de uma ponte, que cobria um grande rio e mostrava um menino de um dos lados e uma Sombra do outro. “Não sei o que fazer com ela”, respondeu ele para o profissional. “Na verdade, não me lembro bem dela”, disse ele para si mesmo com um olhar ainda fixo ao quadro. Olhando para o lado, ele apanhou em cima do crido-mudo, encostado próximo à janela, um baralho muito especial: eram as cartas xâmanicas. Em relação a elas, ele nutria um sentimento de crença e ceticismo, que caminhavam lado a lado. Queria acreditar. Por isso, quando a dúvida em relação ao futuro se fazia presente, ele concentrava todo o seu pensamento na origem de sua angústia e, ao embaralhá-las, retirava uma. Ao puxar aquela indicada pelo seu coração, duas caíram sobre o assoalho de seu apartamento, bem na sua frente. Ele sabia que aquele era um sinal. Mas qual das duas desvirar? Fechando os olhos, ele se decidiu e teve uma grande surpresa...

“Lagarto... O sonhador”. “Eu já tirei esta carta antes!...” Após este ato, um bilhete surge por baixo da porta. Nesta hora, o Garoto-Sombra abre a porta e espia pelo corredor em busca do responsável, mas não avista ninguém. Ao abrir o bilhete e começar a ler o seu conteúdo, mais interrogações o assaltam. Nele, estavam escrito as seguintes palavras: “Hoje, inauguração da mais nova loja de tatuagens da região, sonhos e pesadelos a preços promocionais para os primeiros clientes”. Ele não entendia nada daquilo. Não possuía nenhuma tatuagem em seu corpo, nem sabia o que era sonhar. Então, dois detalhes naquele anúncio fizeram, por um instante, sua mão voltar a buscar seu casaco: a logomarca da loja e seu horário de funcionamento. O símbolo correspondia a uma mão feminina, que apertava a lâmina de uma adaga voltada para baixo; e, em seu cabo, era possível visualizar o desenho de um morcego. Quanto ao horário, esta só atendia ao público do período das 22hs às 5hs da manhã...

O badalar dos sinos da igreja protestante, próxima ao seu apartamento, anunciavam a chegada da meia-noite. Resolveu sair na madrugada e saber onde ficava esta tal loja e quem havia desenhado aquela imagem. Pegou o elevador e, ao sair do prédio, foi correndo até o endereço indicado no folder. Nas ruas, de ambos os lados, inúmeras pessoas transitavam apressadas em busca de seus interesses; naquele dia, não havia carros rodando pelas estradas. Cada contato com as pessoas que trombavam com ele pelas calçadas apertadas contribuía de forma decisiva para a deterioração de sua sanidade já muito abalada. Nas pernas, nos braços, no peito e nas costas, pesadelos - que um dia tinham-no atormentado - encontravam-se agora imortalizados na pele destes indivíduos. A Sombra, a lâmina, o anjo e o poste elétrico também estavam lá, tatuados em seus corpos...

O Garoto-Sombra já estava cansado de tanto caminhar e por mais que procurasse, não encontrava a direção correta. E, para piorar ainda mais a situação, as luzes provenientes da iluminação pública simplesmente se apagaram de uma hora para outra. Deixando-o às cegas. Adiante, alguns passos à frente, podiam chegar aos seus ouvidos vozes que cantavam músicas de louvor a Deus e se aproximavam rapidamente do lugar onde ele se encontrava. Sentou-se no meio-fio e lembranças de seu passado corroíam o seu peito e, se lágrimas ainda pudessem ser derramadas naquele instante, assim ele as teria feito. Próximo dele, um grupo formado por cerca de vinte religiosos, entre eles homens e mulheres, faziam uma procissão pelas ruas anunciando a chegada do fim do mundo. Na linha de frente, um padre chamado Gonzalo erguia para o alto uma grande vela, que iluminava tudo e todos.

Naquele tempo, muitos mendigos dormiam nas ruas, assim como cães e ratos. Alguns destes estavam próximos e, sentados em bancos e agarrados às suas garrafas de pinga, esperavam ansiosamente a doação de qualquer quantia por parte dos fiéis. Então, em um momento de terror e desespero coletivo, a luz da grande vela iluminou a presença do Garoto-Sombra e, ao obrigá-lo a proteger seus olhos com ambas as mãos, uma silhueta demoníaca foi refletida atrás dele, fazendo com que tanto os evangélicos quanto os mendigos saíssem em disparada pela avenida. Em meio a gritos desvairados e sinais da cruz esporádicos, a vela ainda rolava pelo chão e continuava ardendo intensamente quando sua luz trouxe a tona também outro casal de rostos que observava a tudo de forma impassiva e já se preparavam para partir. “Por que eles não fugiram como os outros?”. “Que música é esta?”, foram perguntas lançadas ao vento por ele, mas sem qualquer resposta aparente...

PARTE III: A NOTA MUDA

A normalidade voltava a se apoderar da cidade. Com o restabelecimento da energia elétrica, a cidade já deixava a escuridão e todos voltavam às suas rotinas diárias. O Garoto-Sombra estava admirado com aquele casal. Pelo pouco que ele conhecia, tratava-se de jovens artistas de rua, que ganhavam a vida com suas apresentações artísticas. O homem chamava-se Ricardo e aparentava ter vinte e poucos anos; este usava óculos e mantinha-se concentrado em arrumar sua bolsa, guardando com extremo cuidado o instrumento de seu sustento: um violino. Ela, por sua vez, possuía o nome de Penélope e seu cabelo era crespo e um profundo sentimento de tristeza habitava o fundo dos seus olhos. Com o auxílio de uma cartola, ambos arrecadavam o dinheiro de sua musicalidade; e também do trabalho de vidente, que ela exercia ocasionalmente com a leitura das mãos.

Num primeiro momento, foi a música imitida pelas cordas do violino que o trouxeram até ali. Ela era calma, apaziguadora e levava-o a fechar os olhos. “É Mozart”, disse o violinista. “Você conhece?”, perguntou em direção ao Garoto-Sombra. “Nunca ouvi”, respondeu. “O que achou?”, perguntando novamente. “Me faz bem”, respondeu ele de forma melancólica. “Gostaria que eu continuasse a tocá-la?” - disse, fitando os olhos do filósofo. “Não...”, foi a resposta que obteve por sua gentileza. A partir daí o silêncio reinou entre eles. Penélope, que até então se manteve afastada, surpreende o Garoto-Sombra e segura uma de suas mãos. Ela começa a observar as linhas contidas em sua palma e depois fixa um olhar sério em seu rosto. “Cicatrizes?”, pensando alto. “Eu vejo você... falando sozinho... não... de mãos dadas... não... você não era um, mas dois...”, largando subitamente sua mão, ela finalizou: “Você me dá medo!”.

Depois de ouvir aquelas palavras, o Garoto-Sombra sentiu-se mortalmente sozinho. Eles não o entendiam. Não podiam imaginar a extensão da sua miséria. O quanto ele havia pensado em todas as questões da existência. No vazio, na falta de alguém com quem conversar, na lápide com seu nome... Porém, havia alguém que lhe entendia, que não o julgava, com quem poderia contar seus segredos mais horrendos: sua amiga Sombra. Ele sabia que bastava apenas pensar nela por alguns instantes, buscá-la próxima ao seu peito, que ela viria ao seu encontro e a dor deixaria de existir. Tendo este intento em mente, deu as costas para os dois artistas e apertou seu punhal. Então, todas as luzes da cidade começaram a piscar de forma continua e as moscas voltaram em grande número ao lugar. Gargalhadas misturaram-se aos soluços, fios prateados desprendiam-se de sua cabeça e suas roupas estavam cada vez mais folgadas...

Penélope conhecendo a alma do Garoto-Sombra como poucos, pede a Ricardo que tocasse uma última melodia. Então, seu violino ressoou alto e seus olhos se fecharam. Ele era todo abandono, todo entrega. Parecia estar em outra dimensão. Cada nota atraía as pessoas afastadas, as unia para perto dos seus semelhantes, lhes traziam os sorrisos de volta. Ao terminar e regressar a este mundo, seu violino veio ao chão e partiu-se ao meio. Algo aterrador havia deixado suas mãos pesadas como chumbo e acimentado seus pés junto ao concreto: Penélope estava caída de bruços perto do Garoto-Sombra. Ela não se mexia mais. Seu sangue descia rapidamente pela calçada e contornava os sapatos dele como a correnteza de um rio obstruído por uma grande pedra. Junto aos dois – Penélope e o Garoto-Sombra -, encontrava-se Gonzalo. Ajoelhado próximo ao corpo inanimado da jovem vidente, o religioso segurava em ambas as mãos uma espada medieval ensangüentada, que servia de apoio para seu corpo.

Enquanto Ricardo entoava sua sinfonia da compaixão, com a intenção de acalmar o espírito do Garoto-Sombra, Gonzalo se espreitava nas sombras da noite. Após o episódio referente à procissão, onde a vela havia revelado parte da personalidade do Garoto-Sombra, suas crenças tinham entorpecido sua razão. Estava convencido do fato de que aquele jovem possuía uma ligação com o demônio e aceitava a missão lhe imposta pelos céus: extinguir as Sombras de dúvida do coração humano. Assim, no momento no qual os focos e lâmpadas da cidade começaram a piscar continuamente, Gonzalo deixou seu esconderijo e sacando sua espada, lançou-se sobre o Garoto-Sombra. Gritos de “Demônio”, “Anticristo” e “Maldito” ecoavam pelo ar. Penélope então correu e postou-se em frente ao Garoto-Sombra e teve seu ventre trespassado por uma lâmina. Isto pôs fim as visões sobre o futuro e as notas se calaram, deixando espaço para uma única frase sussurrada, que atravessou o pensamento do Garoto-Sombra como um relâmpago em uma tempestade:“ Realmente, ele estava certo... O único cristão morreu na cruz...”

Ricardo pegou o corpo já sem vida de Penélope e o carregou em seus braços. Para Gonzalo, só restava-lhe fugir para longe levando consigo sua loucura. O Garoto-Sombra então se aproximou daquele casal de desconhecidos, que no fundo talvez soubessem mais dele do que ele próprio jamais soube, e disse: “Me desculpe”, lamentando-se na direção do violinista. “Não se lamente!”, respondeu de forma brusca. “Entenda, ela queria que você ouvisse aquele som que nenhuma nota pode reproduzir, que necessita do silêncio, da verdadeira morte e não dessa sua infantilidade!”, disse o artista em meio às lágrimas. “Eu não entendo...”, interrompeu de forma intrigada o Garoto-Sombra. “Ouça, estamos aqui para que você compreenda, para que você a deixe de lado... eu também já tive uma ao meu lado, só que a música me salvou e ela se foi para sempre... não me refiro à Penélope, mas àquilo que você reflete sobre os outros!”.

O táxi então avançou a barreira feita pelos policiais e se aproximou. Depois de Ricardo colocar o corpo de Penélope dentro do veículo e indicar ao motorista o local onde gostaria de ser levado, ele se despediu do Garoto-Sombra: “Desejo que você seja feliz”, disse o violinista ao fechar a porta do carro. “Não ande em má companhia!”, continuou agora rindo. “Busque aquilo que realmente lhe falta, não consolos efêmeros!”, levantando o vidro. Nisso, o ronco do motor se fez presente e mais duas pessoas especiais passaram de forma rápida e marcante pela vida do Garoto-Sombra, fazendo com que ele parasse e refletisse mais uma vez sobre seus atos e convicções. A noite continuava presente e a lembrança daquele encontro ficaria para sempre em seu pensamento. Entretanto, ele ainda precisava achar a tatuadora de sonhos e seus pesadelos...

PARTE FINAL: A LOJA DE TATUAGENS

Os ponteiros da igreja indicavam o horário: 4h da madrugada. O tempo estava se esgotando para o Garoto-Sombra. Ele precisava encontrá-la. Depois de interromper seus passos e voltar a consultar o endereço da loja de tatuagens no misterioso bilhete, seguiu em frente decidido. A cidade durante a noite era bela. Painéis e outdoors gigantescos iluminavam a paisagem urbana e anunciavam em cores de néon inúmeros produtos e serviços. Mas nenhuma destas revelava a presença daquilo que ele tanto buscava. Ao voltar-se para baixo por um momento, onde a noite reinava e as paredes dos prédios pichados e mal conservados davam o tom, ele avistou algo no alto de uma placa que arrepiou os pêlos de seus braços e fez as cicatrizes em sua mão voltarem a sangrar: “Adriana Kally, tatuadora de sonhos”.

“Deve ser este o lugar”, repetiu inúmeras vezes para si mesmo o Garoto-Sombra, sem ter certeza de suas próprias palavras. Ao colocar a mão na maçaneta da porta e preparar-se para entrar, morcegos pendurados de cabeça para baixo no alto dos prédios começaram a ensaiar rasantes sob sua cabeça e, agarrados ao seu pescoço, anteciparam de forma atrapalhada sua chegada até aquele lugar. Quase sem fôlego e com marcas em sua nuca, ele fechou a porta atrás de si de forma violenta e visualizou o interior da loja. Lá dentro, o silêncio só não era total em razão do ruído de uma agulha, que contornando suavemente a pele de um homem deitado em uma maca, revelava a presença de uma estranha mulher. “Fique a vontade!”. “Quando eu terminar aqui, irei atendê-lo”, foram as palavras que chegaram aos ouvidos do Garoto-Sombra, enquanto ela mantinha seus olhos fixos no desenho.

O Garoto-Sombra então se sentou em uma cadeira e esperou. Ela já tinha terminado seu trabalho. Ao se levantar da maca, o indivíduo seguiu até um espelho próximo e apreciou o resultado de toda sua dor: ali, uma mão esquelética segurava uma adaga pela própria lâmina. Quando o homem ia agradecendo a tatuadora pelo trabalho e já se despedia, aquela imagem chegou até as pupilas amareladas do Garoto-Sombra e lembranças dolorosas se fizeram presentes, desviando seu olhar. “Será mesmo?... Que viver é sofrer?”. E, estas perguntas tiveram um impacto muito maior quando ele avistou uma imagem de Jesus Cristo crucificado, que se encontrava pendurada no alto de uma parede. Aquilo tornou sua luz fraca novamente e sua mão fraquejou, buscando mais uma vez o interior de seu casaco e o retorno de sua amiga Sombra. Porém, como num piscar de olhos, a energia elétrica no interior da loja foi interrompida e algo impediu que o Garoto-Sombra continuasse a carregar aquele fardo de forma solitária. Ao seu lado, encontrava-se a tatuadora de sonhos e agora sua mão também dividia a superfície fria, áspera e cortante da lâmina de seu punhal. Ambos suportavam juntos toda aquela dor. E assim ficaram imóveis por alguns segundos, na total escuridão e num silêncio quase mortal; interrompido em pequenos intervalos pelas gotas de sangue que rolavam pelo chão...

Então, ela se aproximou do rosto do Garoto-Sombra e sussurrou em seu ouvido: “Eu não irei soltá-la... a dor para mim não representa nada!”. E, continuou a falar impondo seus olhos que mais pareciam duas chamas flamejantes ao cair da noite: “Não sei se você percebeu, mas eu não preciso da sua amiga Sombra aqui em minha loja, nem em minha existência... porque eu não tenho medo da morte... eu não posso morrer... pois não passo de uma maldita vampira acorrentada a esta cadeira, para sempre!”. Mesmo enxergando apenas dois pontos luminosos em toda aquela escuridão, o Garoto-Sombra enfim manifestou-se: “Mas como pode ser?... E aquela imagem na parede?”. Ao qual ela respondeu prontamente: “Não vou mais à Igreja, mas tenho uma fé absurda nele!”. E finalizou: “Deus que me perdoe por dizer isso... mas o que sinto em mim, nem ele preenche...”.

Então, passados alguns instantes do nascimento daquelas tristes palavras, a luz voltou a brilhar dentro da loja de tatuagens e Adriana Kally voltou ao trabalho. De repente, seu celular depositado em cima da mesa começou a tocar e alertou-a sobre o horário. Sentada em sua cadeira ela falou mais uma vez em direção do Garoto-Sombra: “Escute bem: Eu não fui feliz, não sou e nunca serei feliz!... os dias para mim são vazios... procuro coisas que me distraem para passar mais rápido... tanto que fico acordada durante a noite e durmo de dia, para que o dia acabe logo...”. E, guardando seus instrumentos de trabalho, ela apontou para uma folha de papel próxima à sua cadeira e pediu que o Garoto-Sombra a pegasse e lê-se em voz alta. Ao segurar com ambas as mãos o pedaço de papel, ele começou:

Corpo Fechado*

fechei meu corpo
e vou deixar
meu corpo fechado
para o amor
para novas paixões
e velhas formas
de conquista
já não me interessa mais
essa utopia
chamada amor
fechei meu corpo
contra tudoe contra todos
e vou deixar meu corpo fechado
não quero mais meu coração sangrando
meu coração machucado
fechei meu corpo
e as portas atrás de mim
não quero mais sorrisos nem abraços
não o quero mais amar
fechei meu corpo para o amor
para as aventuras e noites de farras
para a bebedeira
vou ficar com o corpo fechado
até me desintoxicar de tudo
do mundo

Com seu término, a tatuadora de sonhos pediu que o Garoto-Sombra fosse embora. Os ponteiros agora marcavam 5h da madrugada. Os morcegos não estavam mais lá. As moscas também não. Não havia mais estrelas no céu. Ele caminhou pelas ruas de cabeça baixa, tentando entender o que realmente tinha acontecido. Sua mão ainda busca o fundo de seu casaco e sua luz ainda pisca vez ou outra, mas aquela lembrança sempre se faz presente nos momentos mais difíceis, servindo como bálsamo para suas feridas abertas; tanto nas mãos quanto na alma. Andando por aquelas calçadas, poderíamos dizer que ele até sorriu uma vez, que agora ele podia acreditar no invisível, mas na verdade, algo ainda faltava em sua vida... algo imortal.

Resquícios de um amanhecer sombrio
amanhecer de alma já morta
que caminha apenas com a sombra
e encontra em um anjo a luz
quando a vida já é só escuridão
e no peito sempre um eco
do vazio que é caminhar por
essas ruas tão marcadas

Quem mergulha em sangue
Sabe que só poderá se encontrar em si
Mesmo quando o eu é outro.
( Tatiana Plens**)


* Esta poesia, se não me engano, é de uma destas bandas: Dimmu Borgir ou Cradle of Filth.
** Tati , uma pessoa especial, que já sentiu a " luz fraca" em sua vida...