terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

No Limiar

Nestes últimos dias fui surpreendido como nunca antes. Eu que costumo sempre falar da morte e do vazio da vida, tive de me defrontar desta vez com um caso no mínimo angustiante. O suicídio de um amigo da minha família. Assunto este, que sempre deixa um rastro de indignação e raiva pelo caminho. Depois de acompanhar o desenrolar dos acontecimentos, passei alguns dias refletindo sobre o assunto, e resolvi falar um pouco mais sobre ele. Não pretendo julgar os motivos que o levaram a tomar esta atitude, mas sim sobre aquilo que se escondia dentro de sua mente e coração, que no fim, é o que realmente nos interessa. Tentarei observar as escolhas no limiar.
Eu não o conhecia pessoalmente. O que sei sobre sua vida é aquilo que me foi contado pelas pessoas mais próximas a ele. Era uma pessoa que havia trabalhado por muitos anos em uma mesma empresa, e após um longo período, resolveu deixá-la para trás. Beirava já os cinqüenta anos de idade, e não estava mais conseguindo trabalho em lugar algum. Possuía certa estabilidade econômica, uma casa grande e confortável, e uma família que nutria por ele um grande sentimento de afeto. Porém, mesmo todas estas coisas não foram suficientes para impedir que ele deixasse este planeta por conta própria. Muitos diziam que ele tinha tudo e que havia sido muito egoísta. Será? Acredito que basta apenas ficarmos um pouco sozinhos com nós mesmos em nossos quartos escuros, para entendermos de forma clara todas as suas razões.
Um fato curioso: muitos deixam para pensar sobre a vida quando já não há mais tempo. Ou você tem a coragem de abrir mão de futilidades e pensa sobre os motivos que fazem de você um ser humano ridículo ainda quando é jovem, ou passa a vida toda andando como um zumbi por aí e espera despertar apenas quando já for tarde demais. Não é assim que funciona? Os amigos e familiares já estranhavam seu comportamento há algum tempo. Vivia isolado dentro de casa, não atendia e não queria mais receber visitas, tomava doses cada vez maiores de remédios para depressão, sem prescrição médica. Passava horas observando o local onde seu cachorro havia sido enterrado, nos fundos de sua casa. Todos estes sinais claros de alguém que já estava com as malas prontas. No fim, ele foi derrotado e engolido por duas das mais belas virtudes de nossa idolatrada sociedade: Individualismo e solidão. Lembrando sempre, que ele não foi o primeiro nem será o último a ser apanhado por ela.
Certo dia, um bilhete foi encontrado em cima da cama. Tudo tinha sido deixado para trás: documentos, roupas, cartões de crédito, amigos, familiares, esperança; restando apenas os remédios em seu pensamento. Ele ficou desaparecido por quatro dias. Perguntas e dúvidas estampavam o rosto de amigos e familiares que não conseguiam entender os motivos que o levaram a fazer isto. Após os quatro dias em que esteve desaparecido, seu corpo foi encontrado boiando às margens do rio. Os bombeiros e especialistas relataram que ele havia se suicidado já no mesmo dia em que havia escrito o bilhete para seus entes queridos. Naquela hora, ele já não possuía mais família.
Não colocarei neste papel palavras hipócritas. É um direito de cada um. Cada um sabe o quanto o peito aperta. Imagino o momento em que ele se encaminhou rumo ao rio, e parou em sua frente. Não tenho dúvidas de que por alguns instantes ele olhou para trás e observou os carros, as casas, os rostos, as árvores, os pássaros e as lembranças, tudo aquilo que ele amava e que ia ser deixado de lado. No final, só ele sabia o que passava em sua cabeça, e quão difícil foi tomar aquela decisão. No momento que escrevo estas palavras, apenas uma pergunta cruza meu pensamento e me faz baixar a cabeça: “Será que lhe foi permitido chorar no limiar?”. Espero que sim.