domingo, 6 de dezembro de 2009

As Rosas

"Amiga das horas em que ninguém resta
quando tudo é recusado ao coração amargo;
consoladora cuja presença atesta
tantas carícias que nos têm confortado.

Se renunciamos à vida, se renegamos
o que foi e o que pode acontecer,
jamais pensaremos o bastante nessa fiel amiga
essa fada constante sempre a nosso lado".

( Rainer Maria Rilke)

Este pequeno poema me marcou muito neste domingo, por me fazer constatar uma feliz verdade: é provável que eu tenha realmente renunciado ao mundo, mas pelo menos, para minha sorte, meus olhos ainda podem vê-la...

William, desejando um feliz natal para todas as pessoas que acompanharam este blog.

domingo, 26 de julho de 2009

Chuva Ácida

Sufocado pelas areias do tempo em uma terra desolada pela loucura e a ilusão, ele só precisava de uma moeda para voltar a viver...

Não três, mas apenas um pedido...
Arremessando ela em direção à fonte dos desejos, ele já podia voltar a sonhar...

Já começava a pingar... escurecia rapidamente...covas eram submersas...dia e noite se confundiam...dançar na chuva, era o que restava...

Com seu guarda-sonhos, ele se protegia de sua beleza pálida...
Escorrendo por seu corpo, lavando suas feridas, despedaçando sua pele e seus ossos, era tudo aquilo que ele sempre desejou...

Uma chuva ácida... capaz de corroer sua alma e dissolver para sempre suas lembranças...

quarta-feira, 22 de julho de 2009

O Fim da Crença

Por um momento, uma árvore me fez acreditar...
Num fantasma, que na cruz chorou no final...
Mas, apoiado em Schopenhauer...
A franja dos olhos eu quis retirar...

Asas de anjo...
Pensamento de demônio...
Voando e rastejando, chorando e sorrindo...
Tudo ao mesmo tempo, no mesmo momento...
Que me importa enxergar, com um olho a mais...
Se no fim, na verdade, será apenas mais um para enxugar...

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Bola de Cristal

Prevendo meu futuro, passo os dias a brincar...
Sabendo o que virá no final, agora só me resta esperar...
Um dia, um mês ou 30 anos, não importa; este dia não tardará a chegar...

Sentado na grama, vejo uma luz fraca piscar...
Negando o anjo feito de pedra, busco a lâmina apertar...
Gargalhando para o céu, só tenho uma coisa para falar:
É nos braços de minha Sombra, que desejo ficar.

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Um vulto à espreita

Quando o medo tentar me dominar, a verdade tentarei encontrar...
Se por acaso, um dia, os grilhões voltarem a sangrar, deixarei para o tempo tentar me salvar...
Quando não encontrar em mim uma razão para continuar...
Só me restará as chaves pela janela arremessar...

Vejo traças e vultos ao meu lado caminhar...
Trancado em meu próprio sótão, desejo o retrato também rasgar...
Erguendo uma muralha em volta de mim, busco dos outros me isolar...
Falando com fantasmas, espero a paz um dia encontrar...

domingo, 31 de maio de 2009

Trocando de Pele

A mochila estava pronta. Ele levava poucas coisas consigo; queria deixar o máximo para trás. Levou apenas as duvidas consigo. Parou alguns instantes em frente à porta, antes de fechá-la para sempre. Observou de forma bastante hesitante todas aquelas coisas que moldaram sua personalidade por inúmeros anos, mas que aos poucos, foram deixando de dominar suas ações para se tornarem apenas retratos em um álbum de família. Fossem as companhias literárias, as guitarras distorcidas, o Hellraiser na parede, as conversas íntimas com os fantasmas, ou a janela que indicava as estrelas, não importava, tudo desvaneceu no mesmo instante que ela se fechou à suas costas. Se desapegar nunca é fácil. Assim, depois de sentir um profundo alívio, dirigi-se ao elevador e depois segue pela rua movimentada. Para onde nosso herói estava indo? O que pretendia encontrar? Digamos apenas, que ele precisava trocar de pele, regressar ao seio dela, ouvir mais uma vez o murmúrio de seu filho, resumindo: buscava uma cura para todo aquele veneno acumulado em sua alma.

Resolveu ir parte da viagem de ônibus. Naquele dia em especial, a manhã pareceu-lhe ainda mais bela do que sua musa inspiradora, a noite. Apesar de deixar muitas coisas para trás, uma parecia ser impossível de ser abandonada: sua amiga Sombra. Ela estava sentada no banco e acenava em sua direção. Ele sorriu; no fundo abominava a solidão. Quando o motorista parou o ônibus, ambos entraram e se sentaram no fundo dele. A paisagem ia passando perante seus olhos e toda aquela beleza cinza e gélida – que no fundo era aquilo que o estava matando -, foi dando lugar para um conjunto de montanhas e florestas, que protegidas por um grande volume de água, aliviavam seu coração. Depois de uma parada, uma senhora aproxima-se dele e educadamente pergunta-lhe: “Importa-se de eu me sentar ao seu lado?”. “Está ocupado...”, foi o que ele respondeu ainda com o rosto colado na janela. Ela arregalou os olhos e ao procurar outro lugar para sentar-se, sussurrou: “Maluco!”. Sem ao menos voltar-se para dar-lhe atenção, adormeceu.

Os dias agora passavam mais devagar. Seguiam o curso da natureza; com calma e tranqüilidade. O rio ia seguindo seu curso. O borbulhar da vida se fazia presente em toda parte, abrilhantando ainda mais o seu mundo inconsciente. Após despertar com a passagem de uma gigantesca ave de rapina, que cortava os céus com seu fascinante mergulho, ele teve a percepção exata de onde estava e na companhia de quem. Estava deitado em um pequeno bote, que deslizava suavemente pela correnteza prateada e era conduzido por sua amiga Sombra rumo há uma cachoeira. O som da queda era monstruoso. Sem pensar duas vezes, ergue-se e joga-se na água gelada. Depois de debater-se em desespero por não saber nadar, ele percebe que estava sentado e que a água não chegava nem mesmo aos seus joelhos. Lentamente, coloca-se de pé e adentra o interior de uma misteriosa floresta às margens do rio. Felizmente, desta vez, o chamado da natureza chegou aos seus ouvidos.

A tarde chegava ao seu fim. Ele resolveu parar sua caminhada e descansar um pouco. O lugar era como aquelas áreas verdes intocadas pelo homem, onde o canto dos pássaros se mistura com a paz de uma mente livre de preocupações e medos. Passou alguns minutos observando as estrelas sob as copas das árvores; porém, seu espírito inquieto fez com que esquecesse as belezas do cosmo e abruptamente seguisse em sua busca. Os sinais de fumaça começaram a atiçar os seus sentidos. Sua fome crescia a cada momento. Naquele lugar, seus sentidos estavam muito mais aguçados; não existia conforto, manipulação ou obrigação de ser domesticado. Tudo era selvagem e primitivo. Foi-se aproximando aos poucos. Em meio a uma clareira, situada em um círculo descampado no interior da mata fechada, ele foi ao encontro de um velho índio, que totalmente concentrado em manter o fogo de sua pequena fogueira ardendo, ignorava por completo a sua chegada.

Os olhos atentos de uma pequena coruja vigiavam o desenrolar daquele encontro inusitado. Ele sentou-se próximo ao velho ancião. Este possuía a imagem de uma pantera nebulosa desenhada no peito, que ocultada em parte pela pele de um urso cinzento, davam-lhe um aspecto ainda mais fantasmagórico. Enquanto a chama incandescente estava longe de se extinguir, nosso herói finalmente se manifestou: “Estou doente, sinto o veneno correndo nas veias!”. E, em pleno desespero, continuou: “Eles estão me matando!”. O velho índio sem mostrar nenhuma comoção, respondeu: “Ela está aí, não está?”. Neste instante, mais lenha era lançada ao fogo e línguas flamejantes tentavam tocar as estrelas.

Permaneceu com a cabeça baixa e os braços envoltos dos joelhos por um longo período. A lua e as estrelas emergiam por trás das nuvens e iluminavam toda a paisagem naquela noite fria. Como o caminhar de um espectro, o velho índio levantou-se e segurando uma pequena vasilha em ambas as mãos, lançou em direção do fogo todo o seu conteúdo, silenciando e escurecendo tudo a sua volta. “Você não precisa mais dela!”, foram as palavras que chegaram aos seus ouvidos. Dirigindo-se ao encontro do atormentado jovem, o Xamã coloca a mão sobre seu ombro e o aconselha: “Chegou o momento... apenas troque de pele!”.

“Senhor?... Chegamos, senhor!” No momento que estas palavras chegaram ao seu pensamento, pôde abrir os olhos com certa dificuldade. Observando os prédios e casas, ele soube que tinha voltado ao seu calabouço. Ao descer os degraus do coletivo, sentiu uma paz e tranqüilidade que há muito tempo não sentia. E resolveu observar por alguns instantes o ponto de ônibus e a entrada perto do seu apartamento, só para confirmar uma certeza: ninguém mais acenava ou sorria em sua direção. Então, um sorriso sarcástico nasceu em seu rosto, e pôde seguir em frente. Após procurar o molho de chaves dentro dos bolsos de sua calça, abriu a porta e entrou em sua residência. Por alguns instantes, suas pernas estavam petrificadas e seu coração havia silenciado. O imóvel estava totalmente vazio. Nenhum móvel, objeto ou lembrança. Tudo havia sumido. Em seu centro, apenas uma pele de cobra no chão, que insistia em decorar o ambiente. Acreditou ser mais um dos seus inúmeros pesadelos, e dando as costas para o local, ele teve a certeza: “Eu realmente não preciso mais dela...”.

domingo, 24 de maio de 2009

A Coruja e a Garota Dissolvida

“Em nossa mente, quando o ato de reflexão se faz presente, quando nós nos enxergamos à luz do pensamento, descobrimos que nossa vida é cercada pela beleza”. (Ralph Waldo Emerson)

Por um breve momento, pude ouvir o chamado de uma alma...
Por um breve instante, pude pousar em seu ombro...
Ao pousar, pude sentir toda a dor e sofrimento deste mundo...
Todo peso de um passado que não cicatriza...

Mãos invisíveis me guiaram até você...
Minhas asas não conseguiam mais se mexer...
Era como se eu estivesse conversando com o além...
Um mistério que me intrigou...

Em cima de um galho de árvore, passei a lhe acompanhar...
Observando suas idas e vindas, que quase me fizeram chorar...
Morrendo aos poucos, era a forma que restava afinal...
Para que em um novo dia, um sorriso voltasse a brilhar...

Dissolvendo abraços e sorrisos, você foi se encontrando...
Rasgando a própria alma, você foi mudando...
Com um aceno, seu fantasma se perdeu...
Olhando para o céu, você me disse adeus...

* William, desejando que um dia a alegria volte ao seu coração...

segunda-feira, 18 de maio de 2009

Do Lado de Lá... *

Apenas sinais, apenas vestígios...
Um mundo feito de ar, um mundo feito de vidro...
Ambas as paredes me intrigam, por querer enxergar?
O desconhecido te fascina, por não saber explicar?

Algo me envolve e fascina...
Não encontro as palavras certas para explicar...
O nosso medo não nos move adiante...
Nossa coragem é que nos leva avante...
Quero entender o que existe do lado de lá...

Um reflexo daquilo que não tem rosto...
Um sussurro do mundo dos sonhos...
Uma imagem refletida sob a luz do luar...
A certeza de que existe algo do lado de lá...

Dei de encontro com o meu eu...
Fui além dos meus medos...
Minha verdade está ao seu alcance...
Não há certezas... apenas tentativas...

Você acredita e eu quero acreditar...
buscando através das nuvens, a ampulheta desvirar.
Perdido em sonhos, tento seus segredos decifrar...
Com um pé em cada lado, é onde devo continuar...

Presa ao passado...
Por todos os lados,
Tudo me condena, tento me encontrar.
Espíritos me perseguem,
algo querem revelar?
Estou acorrentada do lado de lá.

* Escrito por William Wagner e a Garota Dissolvida.

domingo, 10 de maio de 2009

O Grito do Silêncio *

Perdida em meus pensamentos...
Difícil dizer coisas que não podem ser ditas...
A verdade mora no silêncio que existe em volta das palavras...
Se não entende o meu silêncio de nada irá adiantar as palavras...
O silêncio é resposta...
O silêncio é um espião.

Ao mesmo tempo cercado, ao mesmo tempo sozinho...
de mãos dadas com o infinito, de mãos dadas com o vazio...
posso tentar lhe dizer tudo o que vive além do saber...
mas buscando as palavras, é o silêncio que me faz sofrer...

Procuro respostas e o silêncio permanece...
Esse é o meu medo... até onde irá esse silêncio?...
Verdades não podem ser escondidas... porque meias verdades não existem.

Em frente ao penhasco, vejo meu destino clamar...
Por trás de meu sorriso, sinto uma lágrima rolar...
O que trago dentro de mim?...O que escondo dentro de mim?...
Só a verdade poderá revelar....

Caminho sem destino...

Presa em pensamentos...
Silêncio que esconde sentimentos...
Evitando perguntas... calando respostas...
Dissolvendo segredos no silêncio da verdade...


* Escrito por William Wagner e a Garota Dissolvida....

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

No Limiar

Nestes últimos dias fui surpreendido como nunca antes. Eu que costumo sempre falar da morte e do vazio da vida, tive de me defrontar desta vez com um caso no mínimo angustiante. O suicídio de um amigo da minha família. Assunto este, que sempre deixa um rastro de indignação e raiva pelo caminho. Depois de acompanhar o desenrolar dos acontecimentos, passei alguns dias refletindo sobre o assunto, e resolvi falar um pouco mais sobre ele. Não pretendo julgar os motivos que o levaram a tomar esta atitude, mas sim sobre aquilo que se escondia dentro de sua mente e coração, que no fim, é o que realmente nos interessa. Tentarei observar as escolhas no limiar.
Eu não o conhecia pessoalmente. O que sei sobre sua vida é aquilo que me foi contado pelas pessoas mais próximas a ele. Era uma pessoa que havia trabalhado por muitos anos em uma mesma empresa, e após um longo período, resolveu deixá-la para trás. Beirava já os cinqüenta anos de idade, e não estava mais conseguindo trabalho em lugar algum. Possuía certa estabilidade econômica, uma casa grande e confortável, e uma família que nutria por ele um grande sentimento de afeto. Porém, mesmo todas estas coisas não foram suficientes para impedir que ele deixasse este planeta por conta própria. Muitos diziam que ele tinha tudo e que havia sido muito egoísta. Será? Acredito que basta apenas ficarmos um pouco sozinhos com nós mesmos em nossos quartos escuros, para entendermos de forma clara todas as suas razões.
Um fato curioso: muitos deixam para pensar sobre a vida quando já não há mais tempo. Ou você tem a coragem de abrir mão de futilidades e pensa sobre os motivos que fazem de você um ser humano ridículo ainda quando é jovem, ou passa a vida toda andando como um zumbi por aí e espera despertar apenas quando já for tarde demais. Não é assim que funciona? Os amigos e familiares já estranhavam seu comportamento há algum tempo. Vivia isolado dentro de casa, não atendia e não queria mais receber visitas, tomava doses cada vez maiores de remédios para depressão, sem prescrição médica. Passava horas observando o local onde seu cachorro havia sido enterrado, nos fundos de sua casa. Todos estes sinais claros de alguém que já estava com as malas prontas. No fim, ele foi derrotado e engolido por duas das mais belas virtudes de nossa idolatrada sociedade: Individualismo e solidão. Lembrando sempre, que ele não foi o primeiro nem será o último a ser apanhado por ela.
Certo dia, um bilhete foi encontrado em cima da cama. Tudo tinha sido deixado para trás: documentos, roupas, cartões de crédito, amigos, familiares, esperança; restando apenas os remédios em seu pensamento. Ele ficou desaparecido por quatro dias. Perguntas e dúvidas estampavam o rosto de amigos e familiares que não conseguiam entender os motivos que o levaram a fazer isto. Após os quatro dias em que esteve desaparecido, seu corpo foi encontrado boiando às margens do rio. Os bombeiros e especialistas relataram que ele havia se suicidado já no mesmo dia em que havia escrito o bilhete para seus entes queridos. Naquela hora, ele já não possuía mais família.
Não colocarei neste papel palavras hipócritas. É um direito de cada um. Cada um sabe o quanto o peito aperta. Imagino o momento em que ele se encaminhou rumo ao rio, e parou em sua frente. Não tenho dúvidas de que por alguns instantes ele olhou para trás e observou os carros, as casas, os rostos, as árvores, os pássaros e as lembranças, tudo aquilo que ele amava e que ia ser deixado de lado. No final, só ele sabia o que passava em sua cabeça, e quão difícil foi tomar aquela decisão. No momento que escrevo estas palavras, apenas uma pergunta cruza meu pensamento e me faz baixar a cabeça: “Será que lhe foi permitido chorar no limiar?”. Espero que sim.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

B... e a Banda dos Zumbis

O grande dia havia chegado. Ambas estavam muito ansiosas. B... esperou por este show toda sua vida, enquanto L... estava prestes a sofrer um ataque de nervos. Os ingressos tremiam em suas mãos. Buzinas do lado de fora já mostravam a impaciência geral; a fumaça vinda do escapamento sufocava até mesmo as plantas do jardim. Seguiram para o show em um fusca amarelo – o único que podiam pagar com o salário de bibliotecárias -, que ao som da banda Paramore, ia amenizando a ansiedade cada vez mais crescente das duas. E, para ilustrar ainda mais aquele momento histórico, batizaram o pobre veículo com um apelido que combinava perfeitamente com a cor do carro e também com o tamanho de seus apetites: “Polenta”. A apresentação teria a abertura de uma banda desconhecida chamada Cova Rasa, que costumava tocar em lugares um tanto estranhos, como cemitérios e necrotérios, e que por um algum motivo até então desconhecido, não possuía muitos fãs vivos. Assim, B..., L... e Polenta, seguiram para o tão esperado concerto com um sorriso de satisfação estampado no rosto, e a certeza de que este dia seria lembrado como uma coisa do outro mundo.

O que elas foram prestigiar era o Paramore e não o Nevermore. Mas na verdade, elas nunca mais esqueceriam aquele dia. Mesmo polenta tendo apresentado alguns problemas técnicos durante o percurso – tanque na reserva e pneus carecas -, conseguiram chegar vivas até o lugar indicado no verso do ingresso. O lugar mais parecia um grande circo, talvez, em virtude da grande tenda que se estendida por toda uma área desmatada, e que em outras horas servia de estacionamento para uma grande companhia de ônibus. Caminharam alguns passos e se juntaram as inúmeras pessoas que aguardavam na fila. Cuidando da entrada, estava um homem alto e magro, que usando uma fantasia de palhaço parou perante as duas, e lhes presenteou com um sorriso amarelado e uma estranha pergunta que deixou ambas perturbadas: “Vocês não são vegetarianas? São?”. Nenhuma delas respondeu, e achando que se tratava apenas de mais um maluco qualquer, entraram correndo pela tenda.

Lá dentro, a fumaça que pairava no ar continha um estranho odor, o qual não podia ser identificado facilmente. Uns diziam que era formol, outros, que se tratava de banha de porco. Ambas acharam estranho o fato de que pelo chão estavam espalhadas unhas e chumaços de cabelos, porém, foi apenas uma preocupação momentânea, já que estavam há apenas alguns minutos de realizarem seus sonhos mais profundos. Entre os ilustres convidados na platéia estavam representantes ilustres do mundo dos mortos, como: o cineasta George Romero, criador do clássico A Noite dos Mortos Vivos, o cineasta e ator José Mojica da Silva, conhecido pelo personagem Zé do Caixão, os ilustres Albert Wesker e Nemesis, ambos vindos diretamente do game Residente Evil, além, é claro, dos integrantes da banda Canibal Corpse, que não poderiam deixar de prestigiar um grupo que tanto os influenciou. Todos esperavam ansiosos o início. Então, ao som da trilha sonora do filme psicose, todas as atenções se voltaram para o palco.

O palco era pouco iluminado. Lá em cima estavam o baterista, o baixista e o tecladista da Banda Cova Rasa. O baterista Jack “Pus” da Silva, usava uma camiseta do Sepultura, não possuía mais uma das orelhas, e, além disso, tinha os cabelos desgrenhados por sobre o rosto, o que tornava impossível reconhecê-lo por de trás da bateria. Por sua vez, o baixista Ernesto “Necrófilo” Batista, usava uma camisa preta da banda americana Testament, que contrastava muito bem com o aspecto cadavérico de sua pele. Curiosamente, ele sempre tocava seu instrumento com o rosto voltado para o chão. Já o tecladista Rick “Gangrena” Souza, vestia o uniforme completo da banda Grave Digger e detinha os olhos totalmente costurados. Parecia doente. Em muitos momentos, ele levantava sua cabeça para o alto e produzia uns ruídos horripilantes, ruídos estes, capazes de gelar o sangue que corre nas veias. Todos usavam uma espessa maquiagem e capuzes negros que escondiam seus rostos. Tanto B... quanto L..., estavam próximas do palco e continuavam achando o cheiro pútrido do lugar insuportável. Naquele instante, o estranho palhaço surge em cima do palco e com uma coleção de dentes incompletos, dirigi-se ao público presente.

Ao aumentar o pedestal do microfone para uma altura mais conveniente para seus mais de 2 metros de altura, o palhaço lança uma pergunta em direção das possíveis refeições: “Quem de vocês gostaria de ser uma estrela do Rock?”, sem ouvir nenhuma resposta imediata, dirigi-se então para nossas queridas “Roqueiras”. Após se abaixar de forma inesperada, o estranho palhaço estica seu longo braço e puxa B... pelos cabelos para o alto do palco junto da Banda Cova Rasa, e entrega uma bela guitarra para ela. A guitarra, um modelo SunBurn toda ilustrada com pequenas caveiras, que se adaptou muito bem em suas mãos, levando B... a achar que estava vivendo algum tipo de sonho. Mesmo sem entender nada do que estava acontecendo, B... aproxima-se do microfone. O excêntrico palhaço pede-lhe que cante a música de maior sucesso da banda – Nas asas da podridão - cuja letra estava colocada junto ao microfone. B... afina sua guitarra e começa a cantar pedaços da bela canção.

“Eu vou me arrastando pelo palco
Não sei se to vivo ou to morto
Eu chamo teu nome
B...
Eu vou deixando meus pedaços podres pelo chão
Eu vou te agarrar
Eu vou te morder
B...
Um dia... eu vou te pegar!”

Enquanto os presentes quase se matavam para conseguir repetir o refrão, B... começava a se perguntar por que a sua banda não conseguia acompanhar o seu ritmo e empolgação. Após todas as descrições, o leitor pode imaginar que os integrantes da banda Cova Rasa não só perdiam o compasso, mas também outras partes do corpo durante a execução da bela balada. Em seu solo de bateria, Jack “Pus” da Silva tenta jogar as baquetas para a platéia enlouquecida com sua velocidade e técnica apurada. Após a baqueta ser jogada – coincidentemente na direção de L... -, todos se surpreendem ao perceberem que não havia sido apenas a baqueta que tinha sido arremessada ao público, mas que junto dela, ela recebeu de brinde também o antebraço do mórbido baterista. Num ato inconsciente e hilário, ela levanta seu tesouro para o alto, e leva o lugar a se transformar num verdadeiro pandemônio. Em meio a gritos de desespero, B... pula na galera – que infelizmente, já não estava mais lá para segura-lá - , e após perceber que todos os ossos estavam no lugar, corre junto com L... em direção da saída de emergência.

Quando saíram pela porta, o carismático palhaço tenta agarrá-las, porém, sem sucesso. Então frustrado, lamenta-se: “Eu perguntei se vocês eram vegetarianas, não perguntei?”, e acompanhado de sua divertida buzina, solta gargalhadas por todo o lugar. B... e L... correm em direção do seu querido Polenta, que as aguardava embaixo de uma árvore. Ao se encaminharem para casa, B... liga o rádio e sintoniza numa rádio qualquer apenas para relaxar e esquecer toda aquela loucura. Em meio a conversa empolgada, ambas sentem o coração disparar com o anúncio do estranho locutor: “ E agora com vocês, mais uma estréia mortal aqui na sua Podreira FM, a belíssima canção Nas asas da podridão, da revelação mundial Cova Rasa. B... então vira-se para L... e comenta: “ Quer saber de uma coisa?". L... responde positivamente com a cabeça. “ Não quero mais saber desse negócio de guitarra, de hoje em diante, vou tocar é gaita!".

* Este texto é uma pequena homenagem para L... e B... . Espero que gostem.

domingo, 25 de janeiro de 2009

Oásis

A TV continuava ligada. Chuviscos e ruídos davam o tom da programação. O controle remoto jogado em cima da cama e a garrafa de vodka já pela metade, mostravam seu profundo interesse pela vida; companhias estas, ideais para uma noite repleta de pesadelos. Não existia ânimo para se levantar. Pensou: “Para quê?”. Não era o tipo de sujeito que possuía compromissos importantes. Não era ladrão, drogado ou prostituta, enfim, nada que justificasse caminhadas noturnas. Após despertar todo suado e constatar que uma crescente sede começava a tomar corpo, levanta-se com dificuldade e parte em busca de um pouco de água. Depois de se aproximar da pia imunda, infestada por baratas, escolhe um copo quebrado e leva-o ruma à boca, e graças a uma de suas intuições - tão raras ultimamente – depara-se com mais uma peça do instigante quebra-cabeça que acabou se tornando sua vida inconsciente: era ela a estranha ligação que existia entre a água, as emoções e o sonhar. Em seu íntimo, ele sabia que mais um mergulho devastador se aproximava.

Naquele dia em especial, o tédio e a solidão tomavam proporções insuportáveis até mesmo para ele, que com o passar do tempo havia se tornado um mestre na arte de falar e gesticular para si mesmo. Sabia que precisava conversar com alguém. Mas quem? Não existiam muitas opções. Então, como sempre acontecia – principalmente quando a loucura batia à sua porta –, ele apanhou um livro qualquer jogado perto do tapete e começou a folheá-lo de forma apática. Desta vez, o sorteado foi O Viajante e sua Sombra, do filósofo Nietzsche, pelo qual nutria um sentimento de amor e ódio. Enquanto o segurava entre os dedos, foi tomado por um momento de desespero que o levaram a rasgá-lo em mil pedaços. Sendo assim, atendendo ao seu chamado inconsciente, sua amiga Sombra retorna após um longo período de silêncio, e senta-se em um canto pouco iluminado de seu quarto. Ela o surpreende falando sozinho, e com uma salva de palmas, cobre todo o ambiente com sua deliciosa gargalhada.

Apesar de todos os risos e gargalhadas, seu humor não estava dos melhores naquele dia. Assim, pondo-se de pé, caminha até as cortinas e volta a fechá-las. Outra vez sozinho. Agora tudo estava quieto e tranqüilo. Situação esta, interrompida casualmente por um longo bocejo que dividia espaço com os pingos que corriam mansamente pela pia do banheiro e ecoavam por toda casa. Depois de beber dois copos com água, voltou a dormir; curiosamente, voltou também a sonhar. Normalmente, não conseguia lembrar-se de seus sonhos, coisa que não aconteceu naquela noite. Via-se atravessando um grande deserto. Ela vinha ao seu lado. Ambos caminharam por horas embaixo de um calor escaldante, fato que incentivava cada vez mais os abutres a pousarem e exercitarem sua paciência sobre os galhos secos de uma velha árvore. Ele, que já começava a sofrer com as alucinações causadas pela total falta de água do lugar, não se conteve mais e perguntou: “Por um acaso, você não saberia dizer onde fica o oásis mais próximo?”. E, continuou: “Eu não agüento mais, preciso de um pouco de água”. Sem receber qualquer resposta, ela lhe dirige um sorriso, e seguem deixando seus rastros pelas areias asfixiantes do deserto.


A cada passo que davam, aumentava o seu desespero, e sentia seu corpo se tornando semelhante a um galho seco. Perguntava-se o porquê daquela caminhada. O motivo daquele tormento. Perturbado como estava, começa a imaginar lugares que a razão havia-lhe levado no passado. Lugares estes, indiscutivelmente reais. De um lado, estava o hospital, com suas ambulâncias entrando e saindo, seus médicos, remédios e lamentos sem fim. Um lugar capaz de fazer sangrar velhas feridas.

“Tudo era branco.
O guarda-pó, o lençol, as paredes e também a esperança.
Ela veio do céu trazendo consigo as mentiras que são contadas, e quando enxerguei manchas de sangue no chão, fiz questão de espantá-la.
Um frasco e um copo de água é tudo do que preciso agora.”

Já à sua esquerda, estava o manicômio. Lugar este que habitava muitas de suas personalidades. Casa de pessoas que pensavam demais e que esqueceram de viver. Ele tinha medo daquele lugar, pelo simples fato de que ninguém pode prever o futuro. Certamente, um lugar que o deixava dividido.

“Tanto um quanto o outro são enfermos, e se não assinarem logo um tratado de paz, correm um sério risco de acabarem dentro de uma camisa de força.”
Muitos dos que hoje vivem em manicômios não nasceram assim.
Eles se tornaram!”

E por último, e não menos aterrador, estava o cemitério. Sempre envolto em sua áurea soturna e delirante. Ele podia ver claramente o portão fechado, as flores, as fotos, as datas e também seu fiel cão de estimação. Ao contemplar aquele lugar por alguns segundos, sentiu o peito apertar e suas mãos congelarem como se já estivesse morto há muito tempo.

“Poderia sempre contar com seu cão de estimação, que adorava brincar naquele lugar sombrio. Ao qual ele havia dado um nome mais do que apropriado para o tipo de maldição que havia recebido: Sofrimento.”

“Aqui Sofrimento”... “Vem Sofrimento”


Mesmo não acreditando naquilo que seus olhos insistiam em lhe mostrar, estas lembranças começavam a fazer sentido. Sentia que tinha se tornado um escravo da razão. Que não sentia mais nada. Caminhava pelo deserto, porque ele próprio era o deserto. Que a água representava a vida e também as emoções. Sabia que para sobreviver, era preciso encontrá-las. E, por esta razão, estava sempre há procura de um oásis. Percebeu também, que tudo aquilo não era real, mas que representavam memórias fossilizadas em sua mente, as quais ele não cansava de reviver e relembrar.

Naquela hora, uma coisa rara aconteceu. Uma chuva fina caía sobre as areias do deserto. Pensou: “Ainda resta alguma esperança”. Ele já se sentia muito melhor, e olhando diretamente nos olhos dela, lança sua última pergunta: “Será que um dia eu conseguirei encontrar um oásis nesta terra árida?”. Ela, que estava cansada de todos os seus lamentos, caminha lentamente em sua direção com os braços abertos e responde prontamente: “No deserto da razão não existe oásis!”.

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Corrente Sangüínea

Eram 5h da manhã. Mais uma noite fria se fazia presente. Pingos grossos como pregos martelavam constantemente a calha do prédio, e anunciavam a chegada de mais um dia miserável repleto de resfriados e meias encharcadas. Sua mão tateava com dificuldade a superfície do criado-mudo buscando o maldito despertador, o qual nunca descansava e podia ser ouvido do outro lado da cidade. Já estava atrasado para o trabalho. Havia muito tempo que suas obrigações tinham perdido o sentido. A melancolia causada pela rotina o esmagava. Não importava se fosse a prateleira cheia de livros, a comida espalhada pelo chão, o cheiro fétido vindo do banheiro, os antidepressivos depositados em cima da mesa ou o guarda-chuva encostado na parede da sala, tudo lhe causava náuseas e o levavam constantemente a se esconder no terraço de seu prédio em busca de respostas.

Naquele lugar, o espetáculo proporcionado pela natureza era indescritível. O pára-raios postado à sua direita tinha o poder de invocar aqueles que iluminavam todo o horizonte com sua ferocidade. Passava horas ali perdido em pensamentos. Pensava se tudo não seria mesmo uma grande mentira. Se por trás de toda aquela certeza e conformismo, não existiria alguma coisa podre. Quem sabe, talvez, uma ilusão. Infelizmente, não era possível ter certeza de nada naquele lugar. Ele achava engraçado o vai-e-vem de pessoas e veículos, sempre se espremendo entre ruas e calçadas estreitas. Ou, ainda, as sacolas de compras que viviam se trombando. Acompanhado de seu inseparável binóculo, eles vigiavam a vida lá embaixo. Até que num certo dia, um estranho brilho surgiu em uma parte afastada da cidade e prendeu sua atenção. O que era aquela luz? Não fazia idéia. Levando consigo aquele brilho dourado para o mundo dos sonhos, ele adormeceu.

No dia seguinte, ao despertar na calada da noite com o chamado do telefone - em meio a sonhos que não faziam o menor sentido-, ele conseguiu voltar a si e perceber que era seu irmão gêmeo do outro lado da linha. Conversaram por algum tempo a respeito destes sonhos que lhe tiravam o sono. Lembrava-se de pouca coisa. No máximo, de uma luz dourada que sempre machucava seus olhos, das folhas que caíam próximas a uma grande árvore, e de uma misteriosa figura que ficava sentado embaixo dela. Na maioria das vezes, seu irmão repetia que ele estava ficando maluco e que deveria procurar ajuda médica ou, que tomasse alguns remédios para se acalmar. Acreditou ser possível desviar seus pensamentos para distrações como a TV e a música, mas era impossível esquecer aquelas estranhas sombras que habitavam os seus sonhos. Ele necessitava saber a verdade.

Caminhou por incontáveis horas, em meio a ruas e vielas infestadas de lixo e animais peçonhentos, perguntando-se se as pessoas que por ali transitavam não saberiam alguma coisa sobre um lugar onde um homem passava seus dias sentado sobre a sombra de uma bela árvore. Ninguém soube responder. Mas, como se por um passe de mágica, as nuvens se afastaram e o sol ajudou a revelar o brilho que permanecia oculto entre a vegetação. Depois de sentir um terrível cansaço e pensar em desistir, decide perguntar a um senhor de cabelos grisalhos que brincava tranquilamente com seu neto, se ele sabia a origem daquela estranha luz. O ancião disse-lhe que naquela direção ficavam as antigas ruínas do que um dia foi um templo budista, e que lá existia a estatua de um Buda forjado em ouro maciço. Ele não podia acreditar. Era isso que tanto perturbava seu sono? Então, passado o susto inicial, acelerou os passos o máximo que pode e se dirigiu ao local indicado pelo velho senhor.

Chegando lá, qual não foi a sua surpresa ao encontrar um lugar muito diferente daquilo que imaginou. Um belo gramado se estendia por toda uma campina descampada e em seu centro erguia-se de forma imponente uma gigantesca árvore, cujas folhas esvoaçavam por todos os lados. E, sentado de pernas cruzadas, com os olhos fechados, as mãos indicando tanto o céu quanto a terra, e um sorriso desconcertante, estava a figura de um Buda dourado. Ficou surpreso ao perceber que não se tratava de uma pessoa em carne e osso, mas sim do trabalho de um artista. Passando o olhar atentamente por toda a base da estatua, pôde perceber algumas palavras que o deixaram intrigado. Eram elas:

A sombra de uma árvore perdida no tempo
Uma mão apontada para o céu
Outra voltada para a terra
Pálpebras que se fecham
O nascer de um sorriso


Aproveitando o raro momento de tranqüilidade e silêncio, resolve também fechar os olhos. Nesta hora, teve a sensação de que todos os seus sentidos haviam desaparecido. Nenhuma dúvida. Nenhum medo. Nenhuma dor. De repente, surpreende-se ao visualizar a imagem do Buda abrindo os olhos e fixando o olhar em seu rosto. Delírio? Loucura? Com o soprar do vento e uma súbita dor na altura da nuca, ele perde os sentidos e cai aos pés da estatua. Mesmo desacordado, consegue vislumbrar por alguns instantes a figura de um homem vestindo um terno preto e óculos escuros, que sorria e estendia a mão em sua direção. Perdendo as últimas forças que lhe restavam, desmaia.

Despertando em meio ao lodo, recobra os sentidos e percebe estar preso a outra pessoa. Era seu irmão. Ambos estavam unidos pelos pulsos, através de uma corrente. Ele continuava inconsciente. Não saberiam dizer ao certo onde estavam. O lugar era cercado por seringas e tubos de ensaio, que vigiados por câmeras de vigilância, monitoravam inúmeros indivíduos exatamente iguais a eles, que passavam seus dias flutuando em uma substância amarelada. Após clamar por seu irmão, ambos conseguem se desvencilhar dos plugs conectados às suas cabeças e partem em uma fuga desesperada pelos corredores do laboratório. Com as balas de seus perseguidores zumbindo por sobre suas cabeças, conseguem chegar até a superfície.


Enfim, se aproximam do prédio onde moravam. Sabem que precisam continuar juntos. Não a escolha. Então, decidem chegar até o terraço do prédio usando a escada de incêndio. Centenas de homens vestidos com ternos negros e óculos escuros seguem em seus encalços. Na subida, por um mero descuido – um tentando regressar, enquanto o outro, luta para chegar ao alto do prédio-, um dos irmãos é atingido por um projétil, e termina seus dias afogado na poça do próprio sangue. Mesmo depois que o corpo para de respirar, a corrente sangüínea continua sendo um laço poderoso. Não vendo alternativa, e sem forças para carregá-lo, resolve arrastar o corpo do irmão até o final.

Sabendo que o fim se aproxima, segue dando passos decididos rumo ao precipício. Os pulsos continuavam unidos. Ele tem certeza de que tudo não passa de um sonho. Que a morte não é o fim. Que eles é que estão errados. Mas, afinal, quem pode saber? Vira-se, e lá estão eles. Não há saída. Então, movido por uma certeza, salta em direção ao desconhecido acompanhado de seu irmão. O sol, que já dava sinais claros que estava pronto para se despedir, presencia a chegada de um par de asas angelicais, que ao agarrar a mão de um dos irmãos, os encobre por completo. E, ao voltar seu rosto para trás, ele pôde ver no alto do prédio – além dos vultos negros -, outros inimigos daqueles que acreditam na tragédia: políticos, empresários, soldados, policiais, padres, psicólogos, professores, tolos, cegos... Assim, levados pelo vento, suas pálpebras se fecharam e um sorriso nasceu.