domingo, 14 de dezembro de 2008

Ralph Waldo Emerson

“Na educação de todo homem existe uma hora em que ele chega à convicção de que inveja é ignorância; de que imitação é suicídio; de que ele precisa considerar a si mesmo, tanto por bem como por mal, de acordo com seu destino; de que, apesar do universo infinito estar repleto de bem, nenhuma semente de trigo pode-lhe brotar senão por meio do suor derramado naquele pedaço de terra que lhe foi dado para cultivar. É de natureza inédita o poder que reside no homem, e ninguém senão ele mesmo sabe o que é capaz de fazer, e tampouco ele o sabe antes de o ter tentado.” *
Um livro. Uma palavra. Um amigo. Um irmão por toda esta jornada terrestre. Todas estas palavras são apenas uma humilde tentativa de colocar no papel o que seu exemplo fez com minha mente e a forma como ela passou a enxergar a vida desde então. Encontrei em seus pensamentos e reflexões tudo aquilo que estavam mudos dentro de mim. Você me mostrou que é possível viver uma vida de honra e humanidade, mesmo vivendo em um mundo deformado e corrompido pela ignorância. Toda vez que eu pensava em desistir e me isolar, você estava lá em meio às páginas já amareladas, e me lembrava que a minha caminhada não havia terminado, mas que estava apenas começando. E tudo isso me fez voltar a falar de você, meu amigo.

Sempre estivemos sozinhos. Para mim sempre foi mais difícil de acreditar. Em nenhum lugar eu poderia conversar com alguém sobre as coisas que você pensava. Você me ouvia, mas nunca havia resposta. Cada capítulo era um aprendizado que escola nenhuma jamais poderia me ensinar. Era um tipo de sabedoria que nenhum ancião poderia me entregar. Foi uma experiência ao mesmo tempo destruidora e emocionante. Uma coisa que levarei comigo até o último dia. Foi como se meus olhos estivessem enxergando pela primeira vez. Era aquilo que aparece uma vez na vida do homem e depois vai embora sem deixar aviso. É aquilo que te faz respeitar a vida.

Você, meu amigo, teve a coragem de falar abertamente sobre coisas que eu sempre tive medo até de pensar. Fosse falando sobre temas que muitos já falaram como: Caráter, Autoconfiança, Amor e Amizade. Ainda, sobre assuntos que só um pensador profundo poderia refletir: Compensação, Leis espirituais, Heroísmo, A alma do mundo e Círculos. Todas elas questões deixadas de lado pela maioria, mas que para mim fizeram toda a diferença. Cada ensaio que você escreveu não falava apenas sobre a sua vida neste planeta, mas também de cada ser humano que ainda vai caminhar sobre esta terra. E, tenho a certeza que este livro ainda será de grande consolo para todos aqueles que como eu, se sentem como viajantes perdidos entre as miragens de um grande deserto.

Certa vez, você resumiu toda sua conduta em um simples código de honra. Era ele: “Viva, deixe viver e Ajude a viver”. Um pensamento que carrego dentro de mim para onde quer que eu vá. E vou aproveitar este espaço para lhe fazer uma promessa: Trabalharei incessantemente para mudar este mundo ridículo, mesmo que todos zombem de mim ou me achem um tolo. Porque você me fez acreditar na força que existe dentro de cada um de nós, e que ninguém pode vencer sozinho. E isso me basta. Obrigado.

“Entre a maioria das meninas ele se move de forma bastante agressiva, mas apenas uma o mantém a distância; e esses dois pequenos vizinhos, tão próximos nesse exato momento, aprenderam a respeitar a personalidade um do outro” *.

* Estas são apenas duas entre tantas passagens que me marcaram além das palavras (e que ainda continuam), e fizeram com que eu ainda conseguisse acreditar em mim mesmo. Sem dúvida muito mais que um livro. Assim, desejo a todos um feliz natal e um ano novo cheio de alegrias.

domingo, 7 de dezembro de 2008

Vida Subterrânea


“Abençoados os que têm sono, pois não tardarão em dormir.” (Friedrich Nietzsche).

Seus olhos não podiam suportá-la. Ele adormecia para poder esquecê-la. Ela que despontava no horizonte e inundava todo o ambiente com seu calor acolhedor, teve sua visão escurecida pelas inúmeras nuvens que insistiam em habitar os pensamentos dele. Ele que conhecia apenas o frio incrustado no mármore gelado e a certeza contida nos buracos cavados na terra, pode ver com clareza todas as sombras sendo expulsas como hóspedes indesejados, e acreditou por alguns instantes que nunca mais precisaria chamar aquele lugar de lar. Ao cair da noite, que era sua única necessidade e companhia, toda sua loucura e desespero de uma vida vazia se faziam presentes, e não lhe restava mais nada a fazer do que se entregar ao sono. A única forma que conhecia para se esquecer de tudo que existia a sua volta.

Os portões viviam fechados. Um lugar cercado por cruzes e anjos. Onde o farfalhar das árvores se misturavam aos lamentos ouvidos com a constante passagem das areias do tempo. As únicas cores que se podiam distinguir naquele lugar eram aquelas que adornavam as frontes daqueles que não desejam mais se levantar. Mas como poderiam? Com o fim da dor, da fome, do medo, da escravidão, suas faces adquiriram um semblante de serenidade e paz que ficariam gravadas em sua memória e coração por um longo período. Mas ele não se sentia assim tão sozinho. Poderia sempre contar com seu cão de estimação, que adorava brincar naquele lugar sombrio. Ao qual ele havia dado um nome mais do que apropriado para o tipo de maldição que havia recebido: Sofrimento.

Ele e seu cão observavam com curiosidade o desenrolar da vida através das grades dos bueiros e galerias. Ambos fugiam quando ela insistia em visitá-los nas primeiras horas da manhã. Nesta hora, latidos eram rosnados em sua direção. “Aqui Sofrimento”... “Vem Sofrimento”, eram as palavras que ele chamava quando se sentia mortalmente sozinho. E lá vinha ele correndo e pulando em sua direção lambendo-lhe a face e olhando diretamente em seus olhos, de uma forma que nenhum ser que caminha por duas pernas teria a coragem de fazer. Não dizem por aí que o cão é o melhor amigo do homem? Eu não duvido.

Em certos momentos os raios dela se esgueiravam pelo chão e machucavam o seu rosto, fazendo com que sua sombra voltasse a ser refletida ao seu lado. Fazia muito tempo que ele não conversava com ela. Tinham conversado sobre vários assuntos no passado. Mas ele não precisava mais dela. Ela era coisa do passado. Agora ele tinha descoberto uma nova forma de esquecer tanto sua amiga sombra quanto aquela que adorava iluminar o seu mundo gélido e árido. Bastava apenas fechar os olhos e esperar para que fosse transportado para um mundo novo, onde todas as suas fantasias e delírios faziam a sua alegria. Um lugar que para ele era mais que real.

“A vida mais doce é não pensar em nada” (Friedrich Nietzsche)