domingo, 30 de novembro de 2008

For the love of God*

A música exprime a mais alta filosofia numa linguagem que a razão não compreende (Schopenhauer)

Sem a música, a vida seria um erro (Nietzsche)

*Música de autoria do guitarrista Steve Vai

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Amores Possíveis

Capítulo I - O Fórum*


“Como uma gema estava eu oculto;
Revelou-me o meu raio incandescente”.

Alcorão


O ônibus se aproxima. Os dias e as horas teimam em se arrastar. Após uma longa espera, Rudi e seu amigo Romão finalmente dariam início a tão esperada viagem. Com apenas 40 reais. Isso é tudo o que levam consigo. Neste momento as portas se abrem. Em meio a muitos rostos e conversas, ambos entram e buscam se acomodar da melhor maneira possível. O cobrador dá o sinal de que todos os passageiros já se encontram no interior do veículo, e o motorista com seus muitos anos de experiência dá a partida rumo ao Fórum Mundial da Educação, na capital do Rio Grande do Sul. Ao passar os olhos pela janela e perceber que a paisagem vai ficando para trás, Rudi teve também a certeza de que todas as suas tristezas e incertezas se esvaiam, e que um novo começo se levantava no horizonte.
Chegam por volta do meio-dia. O dia ensolarado e o forte calor fazem com que cada peça de roupa se transforme num verdadeiro tormento. Mais à frente, se levantava um grande ginásio em meio a inúmeras barracas espalhadas ao redor de toda a área verde que delimitava a campina. Muitos estudantes e professores de várias partes do país se prepararam para discutir novas formas de enxergar a educação brasileira e planejar o futuro. No interior do ginásio existiam muitas barracas e colchões espalhados por todos os lados. As rodas de violão e poesia tornam-se freqüentes em todo o encontro. Em meio a muito Legião Urbana e Raul Seixas, os dois amigos sentam-se e aproveitam o momento. Então, um jovem chamado Ramiro, o porta voz de um grupo de estudantes do Rio de Janeiro, aproxima-se de ambos e pergunta:

— E aí galera, a gente pode fazer um som maneiro com vocês?

— Podem ficar a vontade. Foi o que Rudi respondeu prontamente.

Nesse instante o tempo deixou de existir. Os acordes dos violões haviam se silenciado. As vozes se calaram para sempre. Tudo ao redor parecia não ter mais importância. “Quem é ela?”, pergunta-se Rudi, de forma quase inconsciente. Ela tinha algo de diferente. Ele não saberia dizer ao certo o que prendeu sua atenção. Foram-se os modos elegantes e delicados ou seus longos cabelos negros ou, ainda, seu olhar cativante. Sabia apenas que havia encontrado aquilo que sempre procurou. Passados alguns instantes, perdido em pensamentos, toma a iniciativa de se aproximar e convida Lívia para se aproximar dele. Ela responde apenas com o olhar. Então, ambos começam a conversar por longas horas a fio.

No segundo dia do Fórum, a chuva se fazia presente de forma torrencial. O forte frio fazia com que mesmo os grossos cobertores mais parecessem feitos de gelo. O clima hostil do lado de fora tornou as conversas ainda mais aconchegantes. Eles transitavam em assuntos desde as carreiras acadêmicas de cada um, passando pelas famílias, literatura, música, até chegar aos planos e sonhos futuros. Como a música era o ar que ambos respiravam, ele não pode mais esperar.
— Só por curiosidade, qual o estilo de música que você curte? Perguntou.
— Gosto de todos os tipos de música, talvez um pouco menos de rock pesado. Lívia responde prontamente e emenda uma inquietação.
— Posso dizer uma coisa?
— Claro, manda ver.
— No primeiro momento que te vi, com esse cabelo de roqueiro, fiquei um pouco assustada. Cheguei a acreditar que você fosse apenas mais um destes malucos que andam de preto por aí.
— E continua acreditando?
—Ainda bem que não.

O terceiro dia do Fórum teve início. O sol finalmente raiou entre as montanhas e a imensidão do céu azul fez com que caminhadas pela capital porto-alegrense se tornassem mais do que convidativas. Depois de almoçarem, os quatro resolvem fazer um passeio pelas ruas da cidade. Rudi foi acompanhado por Lívia e sua amiga Ingrid, e também por seu amigo Romão. Depois de horas cruzando por ruas e avenidas movimentadas, fazem uma parada na usina do Gasômetro. Em uma barraca próxima ao local, um hippie de cabelos compridos e roupas coloridas, aparentando mais ou menos 40 anos, apresentava aos turistas várias peças de artesanato e pequenas jóias confeccionadas na região. Passando os olhos ao redor, Rudi escolhe um par de brincos com os quais presenteia Lívia.
Depois de conhecerem os mais diversos pontos turísticos da região, o grupo se dirige de volta ao acampamento.

Enfim, o último dia havia chegado. Rudi e Romão começavam a arrumar suas coisas para a viagem de volta a Blumenau e também aos problemas do cotidiano. Lívia e sua amiga, Ingrid, também começam a pensar no trabalho e suas obrigações na Capital Carioca. A despedida ocorreu de maneira tranqüila e sem grandes dramas. E a certeza de que não era o fim predominava. Antes de embarcarem no ônibus, ambos trocaram pedaços de papéis que vinham escritos com palavras que reforçavam a idéia de uma ligação muito maior do que as palavras podem descrever. Era coisa do Destino. Voltando-se vez ou outra para a janela do ônibus, Rudi pode ter a certeza de que aquilo não era um adeus, mas sim apenas um até logo.


Capítulo II – A Distância


“A paixão ao presentear uma pessoa a outra, mais ainda presenteia a si mesma. Ele torna-se um novo homem, com novas percepções, novos e mais ardentes propósitos, e uma solenidade religiosa no caráter e nos objetivos. Ele não mais pertence à sua família e sociedade; ele de algum modo é; ele é uma pessoa; ele, uma alma”. (Ralph Waldo Emerson)


Havia se passado cinco anos desde que Rudi se despediu de Lívia no Fórum de Educação do Rio Grande do Sul. Trancara a faculdade de História que cursava na Universidade Regional de Blumenau e dividia seu tempo entre a família e o trabalho de oito horas numa fábrica de camisas, onde permaneceu por quatro meses. Entre as constantes trocas de emprego e relacionamentos, a vida foi seguindo seu rumo. Então surgem propostas para voltar a tocar guitarra na banda de pop rock de amigos de adolescência. Aceito o convite, por ser uma de suas paixões, permanece alguns meses solando músicas como o clássico de Neil Young, Rocking in the Free World, Paranoid e Neon Nights, ambas da banda Britânica Black Sabbath, pelos bares e pubs da cidade. Após alguns desentendimentos quanto ao direcionamento musical que a banda deveria seguir, separa-se do grupo e começa a trabalhar num café bar próximo ao hospital Santa Isabel. Nessa mesma época, Lívia lhe remete a primeira carta do Rio de Janeiro, que acabara se estragando durante uma forte chuva verão. Na mesma semana ele resolve enviar uma carta a ela, mas que nunca teve resposta.
Passados mais alguns meses, Lívia encontra Rudi no Orkut. Suas palavras foram de total espanto: “Rudi... é você mesmo?”, escreveu na mensagem. E conversam por mais algum tempo. Infelizmente, problemas financeiros o levam a desligar sua conexão de internet, o único canal de comunicação capaz de encurtar a distância entre eles. Acabam novamente perdendo o contato.

Tem início o período mais negro e duro de sua vida. Em maio de 2007, seu pai falece, sofre um enfarte fulminante enquanto voltava do trabalho. Tem então a responsabilidade de cuidar de sua mãe e de duas irmãs. Após uma curta passagem pelo café bar, começa a trabalhar numa farmácia de manipulação. O ano de 2007 registra um momento de transição em sua vida, marcado principalmente pela rotina e a constante preocupação com sua família.

Enfim, ventos de mudança sopram o despertar de um novo ano. Com a estabilidade financeira e emocional, retornando aos poucos, volta a fazer parte das comunidades on-line. Mais precisamente as do Orkut. Quando estava olhando os recados deixados, percebe que um, em especial, chama-lhe a atenção. Era Ingrid, amiga de Lívia. A mesma que conhecera no Fórum, em 2003. Conversam durante certo tempo. Foi o gancho e a oportunidade de voltar a se comunicar com Lívia, pensou ele. Na semana seguinte, começa a ter contato com ela via MSN. Começa a sentir as mesmas sensações que lhe invadiram a mente durante sua viagem ao Rio Grande do Sul. Sabia que precisava fazer alguma coisa para reencontrar essa mulher. Mas, essa hora ainda não chegara. Dias depois, mais uma perda. Agora quem lhe deixara era sua madrinha Cleusa, por quem Rudi nutria um forte sentimento e do qual a morte lhe abalou profundamente.

Entre muitas conversas via MSN e recados no Orkut, surge a idéia de lhe propor que um encontro. Falta de dinheiro, compromissos no trabalho, problemas familiares, sempre impediram Rudi de ir até o Rio de Janeiro. Num desses comentários sem grandes esperanças de se concretizarem, aqueles jogados ao vento, Lívia diz que aceita ir para Blumenau para se encontrar com ele. Ela não sabia o que a esperava. Fazia cinco anos que não tiveram nenhum outro contato que não fosse o virtual. Mas, mesmo assim, embarcou no desconhecido e, um mês após esse contato, estava se preparando para enfrentar mais de dezessete horas de viagem até Santa Catarina. Antes de sua chegada, Rudi teve um sonho, no qual ambos conversavam na cozinha de sua casa por longas horas, varrendo a madrugada. Era um prenúncio daquilo que viria a se tornar realidade. Para ele “tudo aquilo pareceu mais que real”.

Julho bate à porta. Mas o frio tão aguardado acabou não acontecendo. Lívia sempre dizia, em suas conversas, que se sentia como uma flor amarela do Cairo. E no dia em que ele foi buscá-la na Rodoviária, levou consigo uma flor amarela para presenteá-la. O combinado era que ela ficasse uma semana e depois voltasse para casa e trabalho de professora de português em uma escola do Rio de Janeiro. Acabou permanecendo dez dias. Neste momento Rudi voltara a trabalhar na mesma fábrica de camisas pelo qual passou há alguns anos atrás, porém, agora estava no terceiro turno, que começava às dez da noite e ia até as cinco da manhã. Uma paz e felicidades poucas vezes antes sentidas começavam a tomar conta da vida de todos. As conversas começavam quando dia estava nascendo e duravam até a hora do almoço.

Não havia tempo para cansaço. O tempo voava. Um dia depois de sua chegada, ambos vão brincar e comemorar sua tão aguardada chegada em uma festa junina organizada pelos amigos do trabalho. Ao anoitecer, preparam um churrasco com alguns amigos. Domingo, no terceiro dia de sua chegada, em meio a muitas conversas, Rudi se prepara para se declarar e expor tudo aquilo que trazia dentro do peito. Em suas próprias palavras: “Deixar a armadura de lado e expor o peito aberto”. Assim, estava selado o compromisso de ela vir viver com ele em Blumenau.
Os outros dias de sua estada não foram diferentes. Alegria, cervejas, amigos, livros, felicidade, que fizeram que todas as feridas que tanto custavam para se fechar fossem esquecidas, em algum canto da mente. Mas ela ainda precisava voltar para sua cidade e seus alunos.


Capítulo Final – O Destino

“Oh, Pedaço de mim
Oh, metade amputada de mim
Levo o que há de ti
Que a saudade dói latejada.
É assim como uma fisgada
No membro que já perdi.

Oh, pedaço de mim
Oh, metade adorada de mim
Lava os olhos meus
Que a saudade é o pior castigo
E eu quero levar comigo
A mortalha do amor
Adeus.”

Lembranças. Muitas vezes é tudo o que resta. À distância, com todo o seu poder de destruir imagens, e de desviar o pensamento daquilo que realmente tem valor, nunca poderá balançar uma estrutura baseada em algo que vai além da carne. Algo que vai além das palavras. Algo que tem um pacto com o destino.

O relógio e o calendário são os inimigos a serem derrotados neste momento. Uma promessa foi feita. Circunstâncias das mais variadas formas sempre estarão conspirando para dificultar o cumprimento da mesma. Rudi sempre soube disso. Ele sempre soube também que a vontade pode muitas vezes fraquejar, e que sombras vindas do passado continuarão sendo sempre um poderoso teste. Antes da calmaria, a tormenta sempre se fez necessária. Felizmente, a vontade de se criar algo verdadeiro e duradouro sempre há de perdurar.

Corpo e mente caminham juntos. Frequentemente, os sintomas de um se apresentam no outro e vice versa. Intuições são capazes de atravessar até mesmo nuvens. Lívia sabe disso. Nestes meses que antecedem a viagem que deve ser realizada para que seja cumprida a promessa, visitas ocasionais aos hospitais da cidade formam uma constante. Convivendo em meio a guarda-pós brancos, macas, eletrocardiogramas, inesperadas elevações da pressão arterial e sangramentos nasais, ambos tiveram a oportunidade de constatar um fato importante: muitas vezes a saudade é capaz de criar ilusões que somente aqueles que vivenciam esta experiência podem enxergar.

Neste instante, marteladas ecoam por toda a região. É a confiança naquilo que a lógica não pode explicar. Os materiais de construção acabam de chegar. Muitos transtornos os acompanham. Tijolos, pregos, cimento, madeira e pedreiros transformam a paisagem ao redor. É uma coisa que foi feita para durar.

Dezembro. A chegada de um novo ano e também de um novo começo. Rudi se prepara para embarcar para o Rio de Janeiro, com o intuito de selar o compromisso assumido meses atrás. Ambos escolheram seus próprios caminhos. Abriram mão de muitas coisas para viver uma história que tinha tudo para não se realizar. E, como maior virtude conseguiram interpretar os constantes sinais que flutuam a nossa volta o tempo todo. Assim, tiveram a certeza que aquele encontro no Fórum não havia sido mero acaso, e isso acabou fazendo toda a diferença.
* Digo apenas que me sinto muito honrado por fazer parte desta bela história! w3

sábado, 15 de novembro de 2008

A Doença e a Cura

“O homem está em seu pior momento quando não compreende a si mesmo”. (Bruce Lee)

Sempre existirão lugares especiais. Lugares onde se pode ter paz, mesmo que seja apenas por alguns instantes. A rua do coronel é assim, um lugar onde toda a minha ignorância e loucura dão espaço para aquilo que busco a todo o momento: a paz. Muitos podem dizer que buscamos estes espaços para fugirmos de nossos próprios pensamentos - o que não deixa de ser uma grande verdade, mas se não for assim, as conseqüências futuras podem ser ainda piores. É apenas no silêncio que encontro à cura.

Certa vez, um grande pensador disse que a nossa maior doença era o desespero inconsciente de tentar ser o outro. Hoje, acredito nisso. Buscamos nos expressar de uma forma mais verdadeira com aquilo que trazemos dentro de nós, porém, neste instante percebemos que independente do que se façamos não haverá nenhuma mudança. Dizem que a maior ilusão é achar que se pode viver fora da loucura. Viver deslocado. Não fazer parte. O único lugar em que se pode ser livre é dentro dos poucos centímetros disponíveis no interior de nossa mente. É apenas lá que posso ser livre.

Eu preciso ficar sozinho. Mas o mundo parece não permitir. Eu sou doente. Vocês não conseguem entender? Não agüento mais andar pelas ruas e me pegar duvidando das coisas ao meu redor. Será possível? Deve ser coisa da minha mente perturbada. Mas devo me acalmar. Como seria isso possível também? Quando percebo que minhas mãos não param mais de tremer, é chegada a hora de voltar para perto daquilo que guarda a minha cura.

Não existe liberdade ou felicidade. Isso é papo de gente que vive na mais pura ilusão. Se enxergassem a própria tragédia das coisas, cairiam de joelhos nesse mesmo momento. Ou aproveitariam todo este belo trânsito e não aguardariam o sinal fechar. Só posso sentir pena de mim e de vocês. Na loteria da vida, uns tiveram a sorte de não enxergar nada enquanto outros tiveram o azar de ver demais, e na maioria dos casos àquilo que não queriam. Muitas vezes tenho inveja do Sr. Édipo, ele sim tem muita sorte.

Minha falta de criatividade e vontade me fazem sentir nojo de mim mesmo. Este texto mostra que eu não consigo achar a cura das minhas doenças, mesmo buscando a ajuda daqueles que já se foram. O melhor teria sido se eu não escrevesse nada, mas eu precisava me livrar de certos pensamentos que me atormentam e que não fazem o menor sentido. Estou cansado de viver dividido. De viver entre a realidade e a ficção. Entre acreditar e duvidar. Em lutar e se conformar. Se a cura está dentro de mim, é bom eu encontrá-la logo.

Hoje, devo voltar a visitar a rua do coronel. Sua paz e tranqüilidade me fazem um bem que não consigo exprimir através de palavras. O verde, o suor e o barulho do rio são as únicas coisas capazes de me trazerem a felicidade. Ali não existe personagem ou ilusão. E, é apenas nesse momento que deixo de falar sozinho.

“O remédio para o sofrimento está dentro de nós – O remédio para o meu sofrimento estava dentro de mim desde o começo, mas eu não o tomava. Minha doença vinha de dentro de mim, mas eu não a percebia – até esse momento. Agora vejo que jamais encontrarei a luz a menos que, como a vela, eu seja o meu próprio combustível, consumindo a mim mesmo”. (Bruce Lee)

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Estranha Coincidência

"Há uma história em seus olhos
Posso ver a dor por trás do seu sorriso
A cada sinal que reconheço
Um outro me escapa

Me deixe conhecer o que atormenta sua mente
Me deixe ser o único a conhecer o seu melhor
Ser o unico a te por pra cima
Quando você sentir que está afundando

Me diga mais uma vez
O que há por trás da dor que está sentindo
Não me abandone
Ou pense que não pode ser salvo

Eu estarei ao seu lado
Onde quer que você esteja
O que quer que aconteça
Não importa quão longe
Por tudo que pode vir
E tudo que pode ir
Eu estarei ao seu lado
Eu estarei ao seu lado

Desperte seu espirito por mim
Descanse seus pensamentos cansados em minhas mãos
Entre nesse local sagrado
Onde todos seus sonhos parecem partidos

Vamos ficar dentro deste templo
Me deixe ser o único que te entende
Ser o único a te carregar
Quando você achar que não consegue mais andar

Me diga mais uma vez
O que está por baixo dessa superfície sangrando
Se você perdeu seu caminho
Eu colocarei você nele

Oh, quando tudo está errado
Oh, quando a desilusão rodear voce
Oh, o sol irá nascer novamente
O tempo que você perdeu te levará de volta para casa

Então não se renda
Não se entregue

Eu estarei ao seu lado
Onde quer que você esteja
O que quer que aconteça
Não importa quão longe
Por tudo que pode vir
E tudo que pode ir
Eu estarei ao seu lado
Eu estarei ao seu lado" *

Posso apenas dizer que esta estranha coincidência me deixou profundamente assustado!

* A letra é de autoria da banda Dream Theater, e está contida na música I Walk beside You.

domingo, 2 de novembro de 2008

A Dama do Lago

“A principal necessidade de nossas vidas é alguém que nos obrigue a fazer o que podemos fazer”. (Ralph Waldo Emerson)

Ela não precisava dele. Ele sabia que precisava dela. Ela poderia viver por si mesma. Ela detinha o poder em suas mãos. Um dia, a lembrança deste sonho se fez presente. Coisas que surgem sem aviso prévio. Todo o meu fascínio pelas lendas Arthurianas se juntaram à necessidade de se encontrar respostas para tudo aquilo que se escondia no fundo da minha alma. Não sei explicar ao certo como esta idéia veio até à superfície, mas acredito que era preciso dar vida a este pensamento. Realmente, tenho muita sorte por ter tido a oportunidade de encontrar a dama do lago, mesmo que isso quase tenha me destruído por completo.

Arthur já havia ouvido muitas histórias a seu respeito. Sobre o fascínio que ela exercia sobre todos aqueles que imprudentemente tentavam se aproximar de seus domínios. Ele sabia que ali existia um grande mistério, e que toda a sua vontade era dissolvida no mesmo instante que chegava aos seus olhos o brilho daquela lagoa espelhada. Merlin em toda a sua sabedoria havia-lhe aconselhado que esquecesse toda aquela loucura e voltasse sua atenção para os problemas de Camelot. Infelizmente, nenhuma daquelas pessoas conseguia prender sua atenção tanto quanto aquela que se escondia nas profundezas daquele lago encantado.

No começo, seus passos eram vacilantes e o medo o dominava por inteiro. Mais aos poucos, o medo foi dando lugar a uma crescente curiosidade que o arrastava cada vez mais para perto de sua margem. Era um caminho sem volta. Ao se aproximar, Arthur pensou em sua espada excalibur e em todo o poder que ela representava. Sua cota de malha nunca reluziu antes de forma tão esplendorosa. Após retirar seu poderoso elmo, ele estendeu sua mão para o alto e esperou que ela lhe entregasse aquilo que tanto ansiava. Infelizmente, naquele momento um silêncio mortal se fez presente e nada aconteceu.

Arthur estava perdido em meio a inúmeros pensamentos. Coisas de seu conturbado passado. Coisas que ele sempre fez questão de esquecer. Mas que agora começavam a bater em sua porta. Então, de repente, sua visão se voltou para o estranho reflexo que era refletido na superfície do lago encantado. Ele viu sua própria imagem. Sua armadura não podia mais esconder aquilo que trazia dentro do peito. Seu flanco estava totalmente exposto. Como se toda a sua vontade de viver e vencer tivessem sido tomadas de assalto, cai de joelhos e leva suas mãos ao rosto. Assim, lágrimas começam a encharcar toda a terra ao seu redor. Enfim, não existia mais poder e o rei havia sido totalmente derrotado.

Ele passou a amaldiçoa-lá com todas as suas forças. Pedras foram arremessadas em sua direção, e visavam desfigurar aquele maldito reflexo. Ela o forçou a se conhecer como nunca antes. Foi forçado a se superar. Provavelmente, tenha sido a maior batalha que já enfrentou em sua vida. Teve de conhecer mais de perto todo o terror de sua própria miséria e solidão. Foi marcado a ferro e fogo. Depois deste encontro Arthur não foi mais o mesmo. Ele teve a certeza de que a lembrança daquela lagoa espelhada o perseguirá aonde quer que vá. Hoje, ele possui sua poderosa espada excalibur e todo um reino aos seus serviços, mas o vazio deixado por aquele episódio talvez nunca mais possa ser preenchido completamente. Ele sabe que sozinho jamais poderá vencer.

"A glória da amizade não é a mão estendida, nem o sorriso carinhoso, nem mesmo a delícia da companhia. É a inspiração espiritual que vem quando você descobre que alguém acredita e confia em você."(Ralph Waldo Emerson)

Ps: Este texto é uma homenagem A Dama do Lago, que me conhece melhor do que eu mesmo.