sábado, 27 de setembro de 2008

Pensamento Nômade

“Os bens da fortuna podem ir e vir como folhas de verão; que ele os espalhe aos quatro ventos como signos momentâneos de sua infinita produtividade”. (Ralph Waldo Emerson)

Mais uma vez desempregado. Mais uma vez sentindo todo o desespero da insegurança. Mais uma vez deixando risadas pelo caminho. Eu sei que é difícil entender os motivos que me levaram a deixar meu último trabalho para trás. Nem mesmo eu sei ao certo. Posso apenas dizer que toda vez que isso ocorre, consigo sentir uma tranqüilidade e felicidade que são difíceis até de explicar. Não se trata de estar contente ou não com a atividade, mas sim de poder se livrar ao menos por alguns instantes de todo o medo acumulado com o passar do tempo. Para um nômade como eu, levantar acampamento é a única forma de se manter vivo.

Certa vez, ouvi que a maior responsável pela nossa claustrofobia social era a própria arquitetura de nossas cidades. É bem provável que seja verdade. Cada planta projetada, parede erguida, porta ou janela colocada, possui um pouco de nossa personalidade contida em seu interior. Cada construção erguida representa o nosso medo em relação aos outros. Não passa de uma natureza morta. Tenho a certeza absoluta de que não nasci para ficar o dia todo em frente a um computador. Eu busco um outro tipo de liberdade. Ninguém pode ser realmente livre enquanto não tiver a coragem de dizer não. Ou você ainda acha que ir todo final de ano para a praia representa algum tipo de liberdade?

Evitamos o pensamento nômade por que temos medo da solidão. Hoje vivemos uma época em que se busca a segurança a qualquer custo. Eu preciso aceitar a idéia de que quando eu partir, os prédios vão continuar no mesmo lugar de sempre. Que todo trabalho é apenas trabalho. E, que todo este medo que se sente, nada mais é do que a certeza de não possuir mais uma rotina para preencher o vazio de todo dia. Mas qual seria a principal vantagem de se cultivar um pensamento nômade? Ter a certeza de se estar vivendo numa maior harmonia com as leis da natureza, talvez possa ser considerada uma delas.

Um nômade sabe que cultivar a mesma terra por muito tempo pode causar um rápido empobrecimento da mesma. Que o único calendário confiável é a troca das estações. Que deve estar preparado para partir a qualquer momento. E, que buscar por novas terras constantemente é a única coisa capaz de fazer seu sangue voltar a circular. Para ele a própria vida não passa de um sonho. E estas palavras são mais que suficientes para justificar as minhas últimas atitudes.


"Nada lhe pertence mais que seus sonhos."(Friedrich Nietzsche)

sábado, 20 de setembro de 2008

Pesos e Medidas

“O verdadeiro lucro consiste em gastar dias para alcançar coisas superiores, em empregar dinheiro com uma avareza cada vez mais restrita, a fim de poder despender em criações espirituais, e não para aumentar a existência animal.” (Ralph Waldo Emerson).

Sempre me preocupei em saber o que era realmente importante nesta vida. O que pesa mais. Muitas coisas que tem seu valor superestimado hoje, nunca significaram nada para mim. Se afogar no trabalho ou usar o dinheiro como forma de compensar coisas que gostaríamos de ter e não podemos, já deixaram de me interessar a muito tempo. No momento em que deixei de buscar o conforto, pude ter a medida exata de como pode ser rico um dia frio e chuvoso. E, isso me fez lembrar o quão frágil o ser humano pode ser.

Sinto que perdi o contato com a natureza. A constante busca pelo dinheiro e sua segurança, desviaram minha visão e também meu pensamento da verdade relacionada aos fatos. Eu sei que vou morrer. Depois desta constatação, como poderia continuar buscando por coisas que nada mais são do que símbolos carregados com os nossos medos mais profundos? Prefiro abrir mão. Todo meu tempo e recursos serão destinados a coisas que os olhos não podem cobiçar e as mãos não conseguem segurar. E isso talvez elimine a necessidade de se levantar cercas e muros cada vez mais altos ao meu redor.

Só pesamos quando perdemos. Mas o que foi que perdemos pelo caminho? Com certeza, a nossa capacidade de atenção foi uma delas. Passando o olhar ao meu redor, posso constatar que na maioria das vezes não possuo a força necessária para me livrar do poder das palavras e imagens. Ainda, fico a maior parte do tempo tentando me livrar de coisas que aprendi e conheci.
Nomes, sons, idéias, formas, cores, tudo isso sempre me atrapalhou na hora de colocar na balança o que faz de mim um ser humano, daquilo que me torna apenas mais um verme qualquer. Existem momentos que eu gostaria de simplesmente esquecer.

Espero não perceber o que é realmente importante nesta vida, apenas quando já for tarde demais ou quando ela tomar a força partes importantes de mim. É bem provável que eu e você só teremos tempo para refletir sobre o tempo que já desperdiçamos, no momento em que tivermos de nos confrontar com todo o peso e terror de uma casa vazia. Saber que nunca mais será ouvido o ranger das portas, pode significar que chegamos tarde. E, aí sim, poderemos ostentar aos outros o quão pobre realmente somos.

"Cada um de nós vê nos outros aquilo que carregamos em nosso próprio coração." (Ralph Waldo Emerson)

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Camisa de Força

Podemos dizer, sem exagerar, que a persona é o que alguém na realidade não é, mas o que ele mesmo e os outros pensam que ele é”. (Jung)

Estar consciente é difícil. Aceitar que se é doente também. Mas, raro mesmo, é conseguir enxergar. Estas palavras aparentemente sem sentido, foram escritas no momento em que consegui visualizar o começo desta estúpida batalha, que é travada quase que diariamente entre dois personagens que tentam assumir o controle das minhas ações. Acredito que vivemos dois papéis distintos. Onde muitas vezes ambos se desconhecem. Então resolvi compartilhar com vocês estas estranhas perguntas: Até onde nossos personagens estão conscientes da existência um do outro? Que tipo de personalidade eles nos apresentam? Você deve ser o mediador deste encontro.

Eu vivo uma guerra sem fim. Na minha vida de todo santo dia existem apenas o Personagem e o Não-Personagem. Chamo de Personagem aquele que carrega tudo o que a de mais mentiroso e hipócrita dentro de mim, e que adora mostrar alegremente aos outros uma bela coleção de dentes. O outro é conhecido por Não-Personagem, e cuja presença apenas é sentida minutos antes de dormir. O primeiro deseja se expressar a qualquer custo, e tem em mente que seu amigo não passa de um fraco. Já o segundo, deseja esquecer para sempre todo o conhecimento que adquiriu sobre sua própria existência e viver na mais profunda ilusão. Tanto um quanto o outro são enfermos, e se não assinarem logo um tratado de paz, correm um sério risco de acabarem dentro de uma camisa de força.

Muitos dos que hoje vivem em manicômios não nasceram assim. Eles se tornaram. O mais engraçado de toda esta situação é que muitas vezes deixamos a nossa personalidade mais doente solta pelas ruas, enquanto aquela que possui os sentimentos mais verdadeiros é forçada a passar a maior parte do tempo presa dentro de um quarto forrado por paredes acolchoadas. Porém, seus gritos são como um eco de desespero. É praticamente impossível não ouvi-los. Eles são capazes de atravessar tanto o concreto como a carne. O Não-Personagem possui um canal de comunicação que o Personagem teme profundamente: Os Sonhos.

Eu gostaria muito de ajudar o Não-Personagem a sair daquele lugar, mas parece que o Personagem não perdoa aqueles que apresentam sinais de fraqueza. Ele sabe que existem pessoas que conhecem a existência do Não-Personagem e daquele lugar, e que se conseguirem libertá-lo será o fim da insanidade. Talvez, eu esteja mesmo ficando maluco. Comecei a perceber isso no momento que fiquei amigo destes dois personagens tão parecidos comigo.E, para falar a verdade, até estou começando a gostar desta brincadeira.

“A psique real e verdadeira é o inconsciente, enquanto o consciente só pode ser considerado como um fenômeno temporário”. (Jung)

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

Fora da Lei

“É preferível cultivar o respeito do bem que o respeito pela lei”. (Henry David Thoreau)

Outubro se aproxima. E com ele também as promessas. Chegou a hora de levantarmos cedo e mantermos as coisas como estão por mais quatro anos. E claro que não podemos nos esquecer de ligar a TV e escutar com atenção as propostas de nossos queridos candidatos. Não sei quanto a vocês, mas eu já cansei de toda esta palhaçada. Sempre acreditei num outro tipo de sociedade, muito diferente desta onde as leis não me forcem a lutar contra os outros por um pedaço de pão.

Vocês não podem me comprar. Para uma pessoa que se preocupa com sua própria vida, o mundo da política não é muito diferente de um circo. E tenham em mente que eu nunca gostei muito de palhaços. Mas deixemos as piada para outro dia. Como pode uma pessoa trocar a felicidade de todos por uma cesta básica ou por dois tanques de gasolina? Realmente, não se pode esperar muita coisa de uma pessoa que fica perambulando pelas ruas balançando a bandeira de um partido político ou, ainda por cima, que tem a coragem de colar o rosto de um candidato no vidro de seu carro. Lembre-se: Eles precisam do seu voto.

Pode até parecer irônico, mas eles próprios não desejam muitas mudanças. Não se pode mudar uma estrutura social baseada no medo. As próprias pessoas também não querem. Foram condicionadas a aceitar tudo como está. Desejam viver a vida de seus pais. Se você não fosse tão egoísta e ignorante, não existiria a necessidade de novas estradas ou rodovias. Não é? Se você entendesse que quando aceita aquele cargo de chefe em uma grande empresa ou se prepara para comprar aquele carro dos seus sonhos, está apenas contribuindo para que surjam novos apartamentos por baixo de nossos belos cartões postais. Acredite, nenhum mendigo dá a mínima para estas eleições.

Da próxima vez que lhe convidarem para fazer parte de algum partido político, diga-lhes que você não poderá participar por que está terminando de ler o livro A Desobediência Civil do escritor Henry David Thoreau, e que eles deveriam fazer o mesmo pelo bem de toda a sociedade. E também que prefere passar o resto da vida dentro de uma prisão, há fazer alguma coisa em que não acredite. Utopia? Pode ser. Mas, para infelicidade geral, continuarei sempre vivendo Fora da Lei.

“ O melhor governo é aquele que menos governa(...) e quando estivermos preparados para isso, serei a favor de um governo que não governa”.(Henry David Thoreau)