sexta-feira, 29 de agosto de 2008

Carta a J.R.R.Tolkien

Caro Tolkien,

Espero que me perdoe por demorar tanto em lhe escrever. Nestes últimos tempos andei soterrado de obrigações até o pescoço. Tive dificuldades em encontrar a melhor forma de conversar com o senhor. O que posso falar sobre o Senhor dos Anéis? Sem dúvida é um grande consolo para aqueles que são obrigados a viverem em um mundo decaído. Hoje você possui muitos leitores, mas infelizmente, a maioria é formada por orcs e espectros.

É uma pena que você não possa conhecer este belo vale. Acredito que ficaria encantado. Não sei até quando todo este verde irá resistir. Parece que realmente existe um Sarumam dentro de cada um de nós. Possuímos esta maldita ambição sem limites, que não se importa em destruir de forma rápida e desumana tudo aquilo que a natureza levou tanto tempo para criar. Fico triste em lhe dizer isso, mas o fim dos Ents é praticamente certo. Não que você já não soubesse. Não é necessário usar uma palantír para prever este futuro sombrio.

Chegou o tempo do Ipê amarelo e das ameixas mudarem a paisagem desta cidade (não que alguém se importe com estas coisas!), desviando um pouco o pensamento de coisas ruins como a crescente fumaça vinda de mordor, que não envenena apenas o corpo, mas também a mente de todos. A única coisa que continua me deixando triste é não ter encontrado nenhum elfo nas minhas caminhadas diárias. Parece-me que já faz algum tempo que a sabedoria deixou estas terras em direção aos portos cinzentos. E, não tenha dúvida que se me fosse dado a chance de ir eu não pensaria duas vezes.

O poder do Senhor do Escuro vem crescendo muito nestes últimos tempos. Chega a ser engraçado que ninguém perceba a influência maligna que ele exerce sobre as nossas ações diárias. Corremos de um lado para o outro sem saber que tudo isso é produto de sua vontade. “Homens mortais, fadados ao eterno sono”; no fim não somos mais que isso. Quem possui a força necessária para rejeitar o poder do anel governante? Quem não deseja o poder de dominar os outros? São raros os que conseguem rejeitá-lo por vontade própria.

Ultimamente, tenho ouvido a corneta de Boromir ecoando em meus ouvidos. Esta lembrança sempre enche meu coração de coragem e me faz esquecer por alguns instantes o sibilar das flechas que são lançadas em minha direção. É provável que depois daquela viagem de barco, eu nunca mais volte a ouvir o seu chamado.

Não tenho mais nada a dizer. Mesmo sabendo que esta carta nunca chegara ao seu destino, eu precisava continuar mantendo contato com a Terra-Média. Num tempo onde se perdeu o sentido das coisas, a lembrança do Condado é mais que suficiente para aliviar a dor de ter que carregar um fardo tão pesado.

ps: Não se esqueça de mandar lembranças minhas ao Tom e também a Fruta de Ouro.

“Uma estrela brilha sobre a hora do nosso encontro”

De seu amigo W3

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

Meu Amigo Xamã

“Um amigo é uma pessoa com quem posso ser sincero. Posso pensar na sua frente em voz alta”. (Ralph Waldo Emerson)

Nunca tive muitos amigos. E, fico feliz por isso. Minha mente não permite pensamentos distintos dos meus. Não aceita mediocridade. É preciso ter a coragem de olhar por baixo da máscara, e nunca mais voltar a colocá-la novamente. Não uso os outros para preencher o meu vazio. Para ter o meu respeito e admiração é preciso enxergar a vida de fora do planeta. E isso somente alguém com uma forte ligação com o outro lado pode conseguir.

Como descobri que existe um tipo de amizade que possui um pé em cada lado? Pelo simples fato que não a procuro. Não existe a necessidade de telefones. Nossa amizade não é coisa de criança. Quando for realmente uma coisa necessária, nossos passos acabarão nos levando um na direção do outro. Ambos percebemos o que é realmente importante nesta vida. Começamos a pensar muito antes de buscar as respostas nas prateleiras, e isso acabou com toda a ilusão. Ele e eu sabemos que existe algo além do tempo e espaço.

Não somos filósofos. Somos apenas dois indivíduos que desde cedo buscaram respostas na própria vida. Que por obra do destino tiveram a chance de ter seus caminhos cruzados. Que ouviam através de outras pessoas aquilo que acontecia um com o outro, e que não poderiam fazer nada além de esperar. Sempre soubemos que era necessário que cada qual voltasse do inferno por conta própria.

Este texto é uma homenagem a você meu amigo xamã. Entenda que eu e você não possuímos uma ligação de sangue, mas sim uma ligação com o outro lado. Por mais que na maioria das vezes eu não consiga acreditar na sua feitiçaria ou no seu baralho, sempre vou acreditar que não foi por mero acaso que um dia naquela fábrica de camisas tivemos a chance de nos cumprimentar. Desde então, a vida vem me mostrando que eu devo acreditar naquilo que não possui nome nem forma.


“Deixe as amizades se desenvolverem sozinhas – Deixe que a amizade cresça gradualmente até atingir sua altura; se você apressar o processo, pode ficar logo sem fôlego”. (Bruce Lee)

terça-feira, 12 de agosto de 2008

Inércia

“ A angústia dos acometidos pelo mal da inércia só pode compreender quem já a experimentou alguma vez. Ócio é algo que todo ser humano sonha. O mal da inércia, entretanto, fica longe da agradável sensação de descanso e paz que o ócio proporciona: quem por ele é acometido não consegue agir, por mais que se empenhe. Mente amortecida e visão embaçada, o enfermo debate-se na poça do próprio sangue. Está doente, mas o corpo não apresenta alterações. Batendo a cabeça na parede, sem conseguir recuar ou progredir, preso num vácuo imobilizante, à pessoa sente-se perdida, duvida de si mesma, despreza-se, e por fim chora.”. *

“Buscai o tronco, não vos enganeis

Colhendo folhas, perseguindo galhos

Dez anos passei peregrinando

Dos quais hoje escarneço, e a mim mesmo:

Vestes rotas, sombreiro despedaçado, as portas do zen bati, Quando as leis de Buda são essencialmente tão simples!

Dizem elas: Coma arroz, beba o chá, vista a roupa”.*

* Passagens retiradas do romance Musashi de Eiji Yoshikawa.

domingo, 3 de agosto de 2008

Passo Incerto

Depois de muitas idas e vindas aos hospitais e clínicas da cidade, ainda não consegui encontrar a cura da minha doença. Talvez ela realmente não seja física mas, sim, psicológica. Após caminhar por longas horas através de ruas escuras e pouco movimentadas - sempre buscando respostas que eu já possuía – tive a oportunidade de constatar um fato triste, porém verdadeiro. Já faz algum tempo que todos os meus passos são incertos e que sempre acabo andando em círculos.

Você deve estar se perguntando como cheguei a esta conclusão? Permita-me explicar. Numa certa tarde após o trabalho, fui ter uma conversa descontraída com um amigo sobre as coisas do dia-a-dia. Perto de seu final, resolvi acompanha-lo até perto da sua casa para terminarmos ela. Chegando lá, ele me perguntou se eu gostaria de jantar em sua casa. Respondi que por mim tudo bem e que não fazia diferença para qual lado eu fosse. É verdade que esta resposta saiu de forma inconsciente, mas ela mostrou de forma clara como a minha vida é sem sentido.

Certa vez, uma outra pessoa por quem eu tenho grande admiração me disse algumas palavras que só confirmaram aquilo que eu não queria ouvir e acreditar. Ele me disse que viver da forma como eu vivia era fácil, porque eu não tinha nada de importante para se preocupar, ninguém por quem sentir emoções violentas, nenhum lugar para voltar depois do trabalho, nenhuma meta ou objetivo claro em relação ao futuro. Enfim, uma vida vazia e sem significado. É sempre mais fácil abrir mão de tudo, aquele que não possui nada.

Outro momento marcante foi quando passei uma manhã em um posto de saúde. Quando explicava a doutora quais os meus sintomas, ela me disse que eu precisava começar uma terapia, deveria comer mais e pensar menos. Fui obrigado a rir. Então, perguntei se ela poderia me emprestar uma caneta e um pedaço de papel, e comecei a anotar o endereço do meu blog. “Aqui está a minha terapia”, foi o que lhe disse ao sair do consultório. Olhando para este texto, começo a acreditar que eu devesse mesmo ir.

Tudo isso me fez parar na rua e não conseguir dar mais um passo sequer. Eu sei que existe uma estrada na qual eu posso encontrar a paz, mas para segui-la é preciso ter coragem. Uma estrada que eu só poderei seguir se abandonar a razão para sempre, e não tiver medo de me perder.

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“A felicidade requer ação – Todo mundo é capaz de obter a felicidade, a questão é continuar em frente, ou agir para obtê-la. Essa é a questão”. (Bruce Lee)