segunda-feira, 28 de julho de 2008

O Quarto Branco


Deitado sem o tempo
Que lá fora voa
Quarto branco é cinzento
Quando o sonho se destoa


Talvez tudo não tenha passado realmente de um sonho. Quando olho pela janela, não sei dizer se é realidade ou fantasia porque não existem relógios. No momento que busquei as cores, percebi que há muito tempo só as enxergo em branco e cinza. Sinto que vim parar neste lugar para encontrar uma coisa que fiz questão de perder: a fé.

De esperança vazia
Crente da fraude
De minha cama sozinha
Que não me cura e aplaude


Tudo era branco. O guarda-pó, o lençol, as paredes e também a esperança. Ela veio do céu trazendo consigo as mentiras que são contadas, e quando enxerguei manchas de sangue no chão, fiz questão de espantá-la. Um frasco e um copo de água é tudo do que preciso agora.

Mas preciso também
Do desejo de continuar
Sonhando com algo ou alguém
Que me faça acordar


Com o badalar dos sinos despertei. Então, percebi que estava na sala de espera aguardando minha vez de ser atendido. Muitos naquele lugar tinham estampados em seus rostos às marcas de verdadeiros sofrimentos. E, graças a este sonho, pude perceber que minha doença era o medo do futuro.

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* Os versos em itálico são de Tiago Ribeiro.

sábado, 19 de julho de 2008

A Sombra

“A idéia do suicídio é um potente meio de conforto: com ela superamos muitas noites más.” (Friedrich Nietzsche).

Nestes últimos tempos me aconteceu algo de surpreendente. Voltei a encontrar um lugar tranqüilo onde eu pudesse conversar tranquilamente com a minha própria sombra, sem ser perturbado por compromissos ou outras besteiras. Apenas eu e ela. Mesmo já sabendo o que ela teria para me dizer, precisava resolver esta situação de uma vez por todas. Tinha chegado a hora de lhe devolver a passagem e desfazer as malas.

Num primeiro momento não percebi a sua presença. Mas quando olhei para o lado, lá estava ela sentada. Perguntei o que ela queria. Ela me disse que já estava cansada de falar sozinha, e que se eu não tomasse uma decisão logo, ela procuraria outro para ajudar. Comecei a rir. E, perguntei se ela não estava gostando do lugar e de todo aquele silêncio. Percebi um sorriso. “Até quando?”, foram as palavras que ouvi. “Você sabe que me fará companhia ainda por um longo tempo”, respondi. Neste instante, gargalhadas ecoaram pelo lugar.

Passados alguns instantes, o silêncio voltou a reinar. O único ruído que se ouvia era o das pedras que eu acabava jogando ocasionalmente nas margens do rio. Várias lembranças vindas do passado teimavam em se fazer presentes naquele momento, dizendo-me que não era a primeira vez que eu pensava sobre estas coisas. Desde garoto eu sinto a sua presença ao meu lado. Felizmente, nunca lhe dei muita atenção. Fosse daquela vez que eu estava parado sobre aquela ponte ou quando estava me preparando para atravessar uma rua movimentada. Só de pensar sobre estas idéias, eu já me sentia aliviado. E conseguia a força necessária para voltar para casa. Pensando hoje sobre estes fatos, fico feliz de ter sido sempre um covarde.

Ultimamente, não tenho dormido bem. Minhas mãos tem tremido mais que o normal. Não consigo me livrar deste maldito pessimismo. Começo a acreditar que esta luta não terá fim. Mas também não me importo mais. Faço questão que você venha me visitar sempre que quiser. Pelo menos assim terei com quem jogar conversa fora.

Agora preciso voltar ao trabalho. Antes de você ir, gostaria de lhe dizer que rasguei as passagens. Não preciso mais delas. Não desejo mais conhecer outros lugares. Ficarei por aqui mesmo. Estou fascinado demais por este mistério. Eu sei que daqui para frente será apenas dor e sofrimento. Mas faço questão de sentir tudo isso. “Você me dá pena”, disse ela, quebrando um longo silêncio. Então, respondi-lhe: “Você é realmente uma companhia engraçada!”.

“Na solidão, o solitário devora a si mesmo; na multidão devoram-no inúmeros. Então escolhe.” (Friedrich Nietzsche).

sábado, 12 de julho de 2008

A Fraqueza de Siegfried

“Há sempre alguma loucura no amor. Mas há sempre um pouco de razão na loucura.”( Friedrich Nietzsche)

Poucas histórias são mais comoventes e surpreendentes que aquela que é contada na Canção dos Nibelungos. Nela, nos é mostrado até onde pode chegar uma mulher em sua busca desesperada por vingança. Neste conto é reforçado aquilo que os livros de história nos relatam sobre a fraqueza de muitos guerreiros que encontraram na beleza e encantos de uma mulher sua própria destruição. Cuidado! Ninguém pode saber o que se esconde por trás de toda esta fragilidade.

Siegfried foi o maior herói das lendas germânicas. Sua coragem e audácia o levaram a conquistar tesouros e glórias por onde fosse. Porém, nada conseguia preencher o vazio que o atormentava dia após dia. Seu pensamento estava voltado na direção de uma princesa chamada Kriemhild, que ele nunca havia visto. Ela era protegida por guerreiros terríveis. E, nas mãos de um deles, Siegfried encontraria seu destino final. O fim dos heróis ou do mais simples dos homens é sempre o mesmo.

Mas qual era realmente a sua fraqueza? Com certeza não estamos falando da folha que caiu em suas costas no momento em que este se banhava no sangue do dragão - isso foi apenas uma conseqüência. Mas, sim, naquele instante de loucura e desespero (ou será de fraqueza?) no qual ele tinha que revelar seu segredo a sua querida princesa, que era para ele mais importante que sua própria vida. A partir daquele momento, ela em seu excessivo temor de perdê-lo em um campo de batalha atravessado por uma lança, confiou seu segredo há seu vassalo Hagen para que este o protegesse. Ele atraiu Siegfried para uma armadilha, e traiçoeiramente matou o poderoso herói. Porque sempre temos de revelar aos outros todos os nossos segredos?

As lágrimas de Kriemhild nunca mais secaram. Ela jurou se vingar de todos os que lhe haviam roubado sua felicidade. Mesmo que estes sejam seus próprios irmãos. Todos deveriam partilhar de sua dor. Então, no auge de sua loucura, aceita se casar com um rei pagão não por amor, mas sim por este possuir o maior exército de seu tempo. Convida seus familiares para uma celebração, corrompendo inúmeros cavaleiros com ouro e outras promessas para que estes se livrassem de Hagen e de seus sofrimentos. E, por fim tenta atear fogo no salão com todos eles ainda dentro.

Irmãos lutando contra irmãos; amigos lutando contra amigos; juramentos desfeitos; promessas quebradas; escudos rachados; espadas trincadas; corpos espalhados pelo chão; reinos destruídos, tudo se desfez através de um simples gesto desta donzela. Ninguém conseguiu resistir aos seus encantos. Ninguém pode lhe dizer não. Nenhum homem chegou tão longe.

No final ela conseguiu realizar seus intentos. Nenhum de seus parentes voltou daquela celebração com vida. Finalmente ela conseguiu vingar o herói dos nibelungos. Infelizmente, pagou um preço caro por sua devoção. Teve seu ventre trespassado pela lâmina de uma espada. E, talvez seja esta a tragédia de todos aqueles que caminham por esta terra. Morrer de mãos dadas com a loucura.


“Na vingança e no amor, a mulher é mais bárbara que o homem”. (Friedrich Nietzsche)

sábado, 5 de julho de 2008

Mente de Barro

“Escravos de padrões – Quem não quer ser perturbado, se sentir inseguro, estabelece um padrão de conduta, de pensamento, um padrão de relacionamento com os homens etc. Depois se torna escravo do padrão, e aplica o padrão à realidade.” (Bruce Lee)

Muitas vezes me perguntei se as pessoas percebem o seu próprio condicionamento. Fico imaginando se elas têm consciência de que todos os seus problemas têm origem nas influências externas que recebem diariamente desde o nascimento. Sendo a realidade, um reflexo do que se passa dentro de nós. O perigo que representa uma mente que aceita padrões estabelecidos pode ser a resposta que buscamos para explicar este mundo de mediocridade e imitação.

Porque não lutamos para transformar este mundo num lugar diferente?
Porque deixamos que a nossa mente seja moldada tão facilmente?

A natureza nunca se repete. Eles precisam entender de uma vez por todas que eu não sou um pedaço de barro qualquer que eles podem moldar da maneira que bem entenderem. Muito menos uma peça acabada que é colocada na vitrine de uma loja. Estarei sempre atuando nas sombras, sabotando seus planos. Terão de aceitar que sou um de seus inimigos, e que nunca haverá trégua entre nós.

Eu sei que vocês me estudam. Eu sinto fome, frio, sono, medo e desespero. Tudo isso vocês já sabem. E mesmo assim possuem a coragem de usar todas estas minhas fraquezas para me aprisionarem em uma prisão de tijolos junto com a minha doença. Uma doença que eu mesmo ajudei a criar.

Realmente me sinto morto. Morto para tudo aquilo que aprendi. Morto para viver na divisão. Morto para viver a vida dos outros. Morto para seguir roteiros. Morto para acreditar em sorrisos cheios de dentes. Porém, não me sinto morto para duvidar de mim e de vocês.

Que a guerra comece! Lutemos contra todas as influências externas. Digamos adeus à tirania da família, do chefe, de deus, dos túmulos, dos professores, dos vizinhos, da máquina do estado, da mídia e do medo. Mostremos que agora somos emancipados. Que somos como barqueiros sem porto seguro. Que não seguimos ninguém, mesmo que isso seja dizer adeus.

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“Renove-se a cada segundo – Nós vivemos de acordo com clichês, segundo comportamentos padronizados. Estamos sempre fazendo o mesmo papel. Aumentar o seu potencial é viver e renovar-se a cada segundo.” (Bruce Lee)