sábado, 28 de junho de 2008

A Lâmina Budista: Parte II

"A necessidade de se lembrar: A lembrança é o único paraíso do qual não podemos ser expulsos. O prazer é a flor que fenece, a lembrança é o duradouro perfume. Lembranças duram mais do que realidades presentes. Já preservei flores por muitos anos, mas frutos, jamais." (Bruce Lee)

Não esperava ter que voltar a falar sobre este assunto tão cedo. Mas a morte voltou a ser lembrada e, junto com ela, também a sua relação com o budismo. Desta vez, sua presença se fez sentida em sua forma mais terrível e assustadora: sem avisar. Percebi que talvez nunca estejamos totalmente preparados para a sua chegada. Sabendo que as lembranças são as únicas coisas que permanecem nesta vida, só me resta escrever sobre elas.

Aqui relatei o episódio que aconteceu com o irmão mais velho de um amigo meu. Agora a sombra da morte também levou seu pai. Ele era um homem simples e de bom coração, com quem eu sempre acabava cruzando pelas ruas. No dia anterior ainda o tinha visto voltando tranqüilamente do mercado com suas compras. Olhando para ele naquele momento, nunca passaria pela minha cabeça que aquela seria a última vez em que iríamos nos cumprimentar.

Eu não estava em casa naquele momento. Estava longe dali, despreocupado e em meio a muitas risadas. Ele estava assistindo televisão e de repente começou a passar mal. Pouco tempo depois já havia falecido. Com a chegada da madrugada, meu irmão e eu conversamos por um longo tempo a respeito desta coisa chamada morte. Qual o assunto principal desta conversa? A grande diferença que existe entre enxergá-la com os próprios olhos e apenas falar sobre ela. Ter presenciado os últimos momentos de um ser humano deixou marcas profundas no meu irmão.

Perguntávamos-nos a nós mesmos se estaríamos preparados para enfrentar uma situação como aquela. Respondi-lhe que talvez nunca estejamos. Que a nossa hora de sermos testados ainda não havia chegado. Que a dor destas pessoas não era a nossa, e que nenhuma palavra de consolo poderia mudar as coisas. Acredito que a melhor coisa a fazer nestas horas é deixar as pessoas sozinhas com suas lembranças. Mesmo que estas lembranças sejam como segurar a lâmina pela própria lâmina.

Eu não vou a enterros. Espero que me perdoem. Não suporto obrigações sociais. Não são ações verdadeiras. Minha homenagem às pessoas eu presto em vida. Prefiro deixar toda a mágoa e rancor nesta terra, e assim não terei o que temer. Olharei nos olhos delas da forma mais sincera que puder, e isto será o máximo que lhes poderei oferecer.

“Viva, deixe viver e ajude a viver.” (Ralph Waldo Emerson).

sábado, 21 de junho de 2008

Palavras Duras

“A Verdade não traz consolos e eu falo somente da Verdade” (Krishnamurti)

Lembro-me como se fosse hoje. Estava andando sem rumo pelas calçadas da vida, quando alguma coisa me atraiu para dentro de um sebo. Nunca entendi ao certo o motivo. Até então, nunca tive nenhum contato com livros ou a filosofia. Pelo que me lembro, não tinha a intenção de comprar nada, mas ao passar os olhos pelas estantes alguma coisa prendeu minha atenção. Era um pequeno volume chamado “O futuro da humanidade”, de um pensador indiano chamado Krishnamurti. Sem imaginar que este momento me mudaria para sempre, sentei-me e comecei a ler.

O livro nada mais era do que uma conversa entre dois velhos amigos. Neste encontro, eles falavam a respeito da mente e a origem do sofrimento humano. Foi a forma como faziam isso que mais me impressionou. Não eram respostas prontas. Para acompanhá-los eu deveria deixar tudo aquilo que me ensinaram em casa e ouvir. Percebi que tudo aquilo era muito mais do que uma simples conversa. Senti que eu era o alvo daquelas palavras.

Uma passagem daquele diálogo me pegou pelo pescoço. Era contado o encontro de Krishnamurti e um jovem físico britânico, onde foram jogadas no ar as seguintes palavras: “Antes de você ser um Físico, você é um ser humano”; aquilo foi como um tapa na cara. Neste momento eu passava pelo mesmo problema. Tinha vários caminhos abertos pela frente. Porém, não conseguia mais dar um passo sequer. O que eu tinha perdido pelo caminho? Com certeza o mais importante.

Eu sempre quis ser um jornalista. Acreditava no valor de ser uma ponte entre o conhecimento e as pessoas. Você entende? Fazer uma coisa que valesse a pena. Deixar o resto temporariamente de lado e prestar a atenção nas coisas que eram jogadas ao vento e que eram necessárias naquele momento. Era preciso conhecer o lado de lá.

Sinto que estou mais preparado para minha missão. Cada dia tem sido um aprendizado. A claridade só pode iluminar algum ambiente se houver alguma fresta disponível. Antigamente eu amaldiçoava todas estas coisas que cruzavam meu caminho, pelo simples fato de não conseguir acreditar. Hoje não. Fico feliz por ter sido alertado há tempo. Sempre me lembrarei destas palavras duras, porém verdadeiras: “Antes de você ser um Jornalista, você é um Ser Humano”.

“Deixar a sabedoria para trás e ingressar novamente na humanidade comum. Depois de compreender o outro lado, você volta e vive do lado de cá”. (Bruce Lee)

sábado, 14 de junho de 2008

Meu Querido Soma

“O mundo agora é estável. As pessoas são felizes, têm o que desejam e nunca desejam o que não podem ter. Sentem-se bem, estão em segurança; nunca adoecem; não tem medo da morte; vivem na ditosa ignorância da paixão e da velhice, não tem esposas, nem filhos, nem amantes, por quem possam sofrer emoções violentas; são condicionadas de tal modo que praticamente não podem deixar de se portar como devem. E se acaso alguma coisa andar mal, há o soma”. *

Como posso fugir dele? Para qualquer lado que me viro lá está ele se espreitando sorrateiramente entre as sombras, aguardando apenas um momento de fraqueza para me dominar por inteiro. Não sei até quando poderei resistir. Ele está no alto dos prédios, dentro das casas, nas vitrines, nos meus sonhos, em cada rosto e em cada sorriso, sempre me dizendo que sofrer desse jeito é bobagem. Basta apenas que eu aceite a sua ajuda para nunca mais ter de viver toda esta miséria. Eu nunca quis este Admirável Mundo Novo. Eu nunca quis o Soma e sua “Felicidade”. Eu realmente estou cansado destas fugas.

São poucos os que percebem o seu próprio condicionamento. Sempre fui programado para aceitar as coisas a minha volta como verdades absolutas, que foram criadas para o bem estar geral da sociedade. Dúvidas não são bem vindas nestes tempos modernos. Você precisa ser a engrenagem que faz a máquina funcionar. Se alguém parar para pensar, ela pode parar. E, eles não deixarão isso acontecer. Peças para reposição nunca faltarão. É preciso que aconteça alguma coisa de errado no processo para que se possa perceber a própria tragédia. Chega de hipnose.

Não quero que meu destino seja decidido em um laboratório. Qual a real finalidade de eu ter uma vida prolongada? Sofrer mais? Consumir mais Soma? Façam o favor de afastar estas coisas de perto de mim. Se o preço a pagar por uma sociedade estabilizada e segura for o sacrifício da individualidade, então, é melhor voltarmos ao primitivo, ao selvagem. Hoje, já temos exércitos de clones andando pelas ruas. Criaturas que vivem apenas para obedecer e seguir ordens. Espero não ser convocado para esta guerra.

Vivemos em um mundo descartável. Fomos moldados a acreditar que qualquer coisa que nos incomoda pode ser jogada fora ou simplesmente trocada por outra inteiramente nova. Não importa se são pessoas, objetos, emoções, tudo pode ser esquecido através do Soma. Ele se encarregará de nos mostrar formas de fugirmos de nossos medos mais profundos. Para isso, basta apenas apertar um mísero botão e tudo se resolve. Nada mais simples e eficiente.

Acabo de receber minha ração diária de Soma. Confesso que não posso mais passar sem ela. Ultimamente, as fugas se tornaram cada vez mais freqüentes. Muitas vezes me pego com os sentidos desprotegidos, e acabo sendo levado pelo canto da sereia. Espero um dia ter a força de vontade de jogar tudo isso fora e ser livre. Mas até esse dia... Onde foi que eu coloquei meu frasco de Soma?

“E esse é o segredo da felicidade e da virtude: amarmos o que somos obrigados a fazer. Tal é a finalidade de todo condicionamento: fazer as pessoas amarem o destino social de que não podem escapar” *.

* Passagens retiradas do Romance Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley.

domingo, 1 de junho de 2008

Monstro Urbano

“Insensível criador! Dotara-me de um cérebro e um coração, de percepções e paixões, e me deixara ao léu, alvo do escárnio e da perseguirão da humanidade” *

Temos muito em comum com o monstro criado pelo Dr. Frankenstein. Uma criatura que tomou consciência da sua própria existência e percebeu o real significado da palavra solidão. Invadido por sentimentos até então desconhecidos como: medo, tristeza, solidão e desespero, ele busca respostas junto ao convívio social, mas acaba sempre encontrando as portas fechadas. Então, jura se vingar do seu criador e de todos ao seu redor.

Quantas criaturas semelhantes não estão escondidas em nossas grandes cidades? Quem nunca teve dúvidas quanto a sua própria vida? A sociedade é o berço de inúmeros destes monstros.

Quando uma pessoa toma consciência de si, surgem perguntas que não possuem respostas. De onde eu vim? O que sou eu? Quem sou eu? Qual o meu destino? Todas estas indagações foram feitas pela criatura ao seu criador, e são iguais as que fazemos a nós mesmos em nossos quartos. Não existe diferença se você vive em uma casa cheia de pessoas ou em alguma geleira no Ártico, a sensação é sempre a mesma. O problema só aumenta quando estas perguntas aparecem em meio a arranha-céus e ruas movimentadas. Todo monstro urbano sofre com estas interrogações.

Sem respostas vindas das nuvens, só nos resta o consolo dos livros. Os pensamentos contidos nos livros falam aquilo que há muito tempo trazíamos presos na garganta, e que não encontrávamos as palavras certas para serem expressas. Sempre temos a sensação de elas foram escritas por nossas próprias mãos. O monstro encontrou por acaso (se é que realmente pudesse ter sido por acaso) dois livros que eram eles: Os Sofrimentos do Jovem Werther e o Paraíso Perdido. No primeiro ele encontrou uma luz sobre as suas próprias reflexões. Já no outro, viu na figura de Satã um retrato pintado de si, onde era mostrada da mesma forma toda a inveja que ele sentia por aqueles que eram felizes e aceitos. Sempre usamos os livros como um tipo de bálsamo para nos aliviar, mas na maioria das vezes ele só agrava ainda mais a doença.

Nossos olhos sempre entregam o que se passa dentro de nós. Ele era um ser com mais de dois metros e meio de altura; pele amarelada; músculos e artérias expostas; cicatrizes espalhadas por todo corpo; uma experiência mal sucedida que viu tudo isso refletido em uma poça de água. Quando enxergou com os próprios olhos sua imagem refletida, foi esmagado pela angústia. É o mesmo que acontece quando estamos frente a frente com o espelho em nossas casas. Infelizmente, não existe espelho que reflita o monstro que existe dentro de nós. Às vezes, fico me perguntando quem era realmente o monstro desta história.

Neste momento, todos os excluídos, tanto economicamente quanto psicologicamente, estão tramando sua vingança contra o seu criador e toda a sociedade em geral. Sentem que foram abandonados e rejeitados. Querem fazer parte da festa social. E, não pensarão duas vezes em matar por um pouco de atenção.

“Se não posso inspirar amor, causarei medo, e principalmente a você, meu arquiinimigo, que por ser meu criador, juro odiar sem trégua. Esteja atento para isto: Trabalharei por sua destruição e não descansarei até que tenha esfacelado seu coração de tal modo que você amaldiçoará o dia que nasceu”.*


* Passagens retiradas do romance Frankenstein de Mary Shelley.