terça-feira, 29 de abril de 2008

A Falta de Heróis

"O heroísmo sente, nunca raciocina, e por este motivo sempre está certo”. (Ralph Waldo Emerson)

As pessoas precisam de heróis. Após assistir ao último filme do Rocky Balboa (é verdade, sou fã declarado), perguntei-me ainda se existem heróis nos dias atuais. E também, se toda essa onda de inveja e imitação que vivemos hoje, não seja causada pela falta de exemplos de coragem e perseverança. Perguntas estas,que tem uma profunda ligação com a nossa falta de rumo na vida.

Todos nós desistimos muito fácil das coisas. Começamos bem, mas sempre deixamos de ter confiança em nós mesmos. Nesses filmes o que não falta é força de vontade. Nos indentificamos tanto com esse tipo de filme, porque ele nos faz sentir que é possível superar até nossas próprias fraquezas. Que o homem comum – que conhece suas limitações – também pode vencer.

Os verdadeiros heróis não são esquecidos. Os que mais necessitam de heróis são as crianças. Precisam daqueles que os incentivem com seus feitos e suas palavras de bravura. Que as façam sonharem. Hoje, porém, nossa sociedade diz que todos devem ser iguais; que devem parar de sonhar e viverem mais na realidade. Sem crianças não há futuro, e sem heróis não há crianças.

O que sempre me causou fascínio na figura do Rocky Balboa foi o seu jeito primitivo. Ele não se deixou contaminar por aquilo que os outros pensariam ou falariam dele. Seguia apenas o seu coração. Não importava quantas vezes ele fosse ao chão, lá estava ele novamente de pé. Os chamados “Heróis” de hoje em dia não aguentariam nem o primeiro soco.

Nestes últimos tempos perdi a confiança em mim mesmo. Estava me sentindo um lixo. Deixei a guarda aberta e muitas dúvidas quase me colocaram a nocaute. E, nesse mesmo dia, ligo a TV e começo a assistir ao filme. Confesso, que cheguei a ter vergonha de mim mesmo. Então lembrei da importância de todos terem algum exemplo de vida, no qual possam se orgulhar e que faça com que todos nós possamos superar as dificuldades que sempre aparecem em nosso caminho.

Nenhum herói é perfeito. Pode ser ele um amigo, pai, irmão ou um desconhecido, não importa. O que realmente importa é ter alguém em quem se espelhar, e não perder aquele “Eye of the Tiger” ou “Burning Heart”, porque aí sim, não teremos mais histórias para ouvir.

"A derrota é um estado da mente: ninguém jamais é derrotado até que a derrota seja aceita como uma realidade”. (Bruce Lee)

sábado, 26 de abril de 2008

Ilha deserta

"Qual é a tarefa mais difícil do mundo? Pensar.” (Ralph Waldo Emerson)

Ultimamente, venho me questionando se tenho vivido da maneira correta. Se as coisas em que sempre acreditei não são apenas perda de tempo. Olho ao meu redor e vejo tudo e todos mudando constantemente enquanto eu pareço ter parado no tempo. Dizem que a vida é feita de escolhas. Apenas espero que se “conformar” não seja uma delas.

Acredito no poder dos livros para mudar as pessoas. Nunca entendi porque certos livros cruzaram o meu caminho e exerceram uma influência tão poderosa sobre a minha mente. Sei que parar e pensar sobre as coisas da nossa própria vida pode nos afastar do convívio social e acabar fazendo a gente ter como única companhia: a solidão. Nunca é fácil conversar com os que já se foram.

Os primeiros a sofrerem com as escolhas que fazemos são os nossos familiares. Eles tinham tantos planos em relação a nós, que nossa repentina mudança mudou tudo para sempre. Acabamos destruindo todos os sonhos que eles não conseguiram realizar em suas vidas. Ver a tristeza nos olhos deles é capaz de nos fazer desistir de tudo e optar pelo um caminho mais fácil. É sempre triste ver castelos de areias sendo levados pelas ondas.

Eu tenho coragem de mudar as coisas ao meu redor. Mesmo se tiver de ir de encontro com aqueles que têm medo de ser aquilo que são. Espero viver sempre em constante conflito para que eu me lembre de que não posso me conformar. Desejo viver a minha vida de forma criativa. Nunca aceitei padrões. Não aceito mais viver sem pensar.

Não consigo acreditar no destino. Tenho convicção que tudo o que me acontecer daqui para frente será de inteira responsabilidade minha. Não julgo ninguém. Espero que todos me perdoem. Sinto que estou preparado para tudo o que pode me acontecer no futuro. Mesmo se tiver de abandonar minha própria ilha.

Não devo ter vergonha em dizer que deixei muita coisa de lado. Excesso de bagagem nunca me agradou. Bens materiais sempre estiveram em segundo plano para mim. As pessoas sempre foram o principal. Só com o tempo vou saber se tudo foi em vão ou não.

“Viva contente com poucos recursos; prefira a elegância ao luxo, o refinamento aos modismos. Seja honrado, não respeitável; profuso, não rico; estude bastante, pense em silêncio, fale delicadamente, aja com franqueza; reaja a tudo com alegria, faça tudo com bravura, aguarde a ocasião, nunca se apresse. Em suma, deixe o espiritual, espontâneo e inconsciente crescer através das coisas comuns.” (Bruce Lee)

quarta-feira, 23 de abril de 2008

Silêncio Verde

“Fui à floresta viver de livre vontade, para sugar o tutano da vida. Aniquilar tudo o que não era vida. Para, quando morrer, não descobrir que não vivi.” (Henry David Thoreau)

Eu gosto de andar a pé. Isso me traz uma importante sensação de liberdade e solidão. Ambas necessárias para não enlouquecer. Os rumos destas caminhadas sempre são incertos, mesmo que na maioria das vezes, seja eu conduzido a lugares mais isolados. Necessito de espaço para ouvir meus próprios pensamentos e, infelizmente, estes lugares estão deixando de existir.

Trocamos o verde pelo cinza; o silêncio pelo barulho. Aprendemos a apreciar o gosto da poluição. Aceitamos trocar nossa liberdade por uma prisão de pedras. Nada me deixa mais doente do que olhar pela minha janela e perceber que árvores que estavam lá muito antes de eu nascer, agora dão lugar às casas e prédios comerciais. Para onde elas terão ido?

Não desejo que minha vida seja conduzida por um carro. Hoje, nossa mente está voltada somente para quais vantagens vamos obter com a exploração dos recursos naturais. Acredito que ninguém nunca se incomodou com certas placas de “vende-se” espalhadas pela cidade. Áreas verdes uma vez destruídas, nunca mais deixam de ser cinza. A fome do capitalismo não tem limite.

Quando foi a útima vez que ouvimos o barulho do rio Itajai-Açu? Com o nosso afatamento das coisas da natureza, perdemos também a chance de aprendermos muito ao nosso próprio respeito. Fico feliz de ter encontrado um remédio tão eficaz para o mal que sempre me assola. E fico mais feliz ainda, em saber que não posso encontrá-lo em nenhuma farmácia.

Para finalizar, gostaria de agradecer a uma velha árvore que sempre teve paciência em me ouvir nos meus momentos de loucura. E, tenho certeza que em breve novas visitas irão acontecer.

“Cada pôr-do-sol que vejo me inspira o desejo de partir para um oeste tão distante e belo quanto aquele onde o sol sumiu.” (Henry David Thoreau)

* Citações retiradas do livro “Caminhando”

terça-feira, 15 de abril de 2008

Tempo Ilusório

“Os homens assemelham-se a relógios a que se dá corda e trabalham sem saber a razão. E sempre que um homem vem a este mundo, o relógio da vida humana recebe corda novamente, para repetir, mais uma vez, o velho e gasto estribilho da eterna caixa de música, frase por frase, com variações imperceptíveis." (Arthur Schopenhauer)

Para pensar sobre o tempo é preciso ter tempo. E talvez esteja aí, a nossa maior tragédia. São tantos os problemas que temos de enfrentar diariamente, que não nos resta energia para refletir sobre este assunto. Acreditamos estar vivendo da forma correta, mesmo sentindo um grande desconforto com tudo isso. Talvez esteja na hora de vivermos um pouco fora do tempo. Esquecer o relógio de vez em quando pode nos fazer um grande bem.

Trazemos todo nosso tempo preso ao pulso. E a cada dia, temos a impressão de ele estar nos apertando mais. Somos escravos dos ponteiros desde a hora que levantamos até o momento em que vamos dormir. Nunca passou pela nossa cabeça que tudo isto esteja errado. Nossos atos não são mais espontâneos; agora somos como robôs autônomos que vivem exclusivamente para o trabalho. Lembre-se, tempo é dinheiro.

A sociedade nos estuda profundamente. Ela conhece os nossos medos mais profundos. E um deles é o tédio. Só temos a real noção do tempo quando não estamos soterrados de obrigações até o pescoço. Na hora que o telefone deixa de tocar, começa o nosso desespero. Sentimos-nos abandonados. O tempo se arrasta. Andamos de um lado para outro, sempre buscando alguma coisa para fazer, que de preferência, nos possibilite um esquecimento completo daquilo que realmente somos. Nessa hora, o silêncio é insuportável.

Porque coloco em dúvida o tempo que conhecemos? Pelo simples fato de que não tenho mais pressa para resolver estes problemas tão complicados. Eu tenho todo o tempo do mundo para pensar. Não corro mais atrás dos sonhos dos outros. Onde o homem não se faz presente, o tempo não é um problema. As crianças não conhecem o tempo. E, parece que deixamos de pensar como crianças há muitos anos.

O tempo não existe fora do planeta. Tanto o relógio cronológico, quanto o calendário, foram criações feitas pelo homem. Não passam de ilusões criadas pela nossa mente, e confirmadas pela nossa inércia. Tudo o que o homem faz contra a sua própria natureza só lhe deixa cada vez mais doente. Nenhum animal consegue sobreviver muito tempo em uma jaula, ainda mais se esta for criada por ele mesmo.

Porque os astronautas dizem que o homem muda para sempre quando enxerga a Terra do espaço? Talvez seja porque lá, o tempo não tenha tanta importância.

quinta-feira, 10 de abril de 2008

Amizades de Vidro

“A verdadeira amizade requer como condição a habilidade de ficar sem ela”. (Ralph Waldo Emerson)

Chegou o momento de falar sobre a amizade. Um assunto que causa tantas alegrias e discórdias entre as pessoas. E, é claro, que eu não poderia deixar de dar a minha visão sobre este assunto tão delicado. Acredito ser um momento oportuno para falar sobre este tema, até porque, estas relações estão se tornando cada vez mais frágeis.

No mundo louco onde vivemos, hoje, buscamos a todo custo desenvolver amizades verdadeiras. Esperamos encontrar nas outras pessoas o consolo para nossa vida sem significado e alegria. Chegamos a acreditar que seremos acolhidos de braços abertos pela sociedade, e que não teremos mais de enfrentar a terrível solidão. Amarga ilusão. Sempre acabamos estragando tudo, seja com nossas ações impensadas ou com as palavras que escapam de nossas bocas. A sociedade não tem interesse em amigos, apenas colegas. Ela deseja exclusividade sobre nossas mentes. Na realidade, apenas usamos as pessoas.

São poucos os indivíduos verdadeiros. A maioria não passa de fachada. É impossível sustentar amizades baseadas em segundas intenções ou na utilidade, elas apenas são possíveis quando não existem mais interesses envolvidos. Quando as coisas externas adquirem um valor maior do que a personalidade, qualquer problema é capaz de fazer essa amizade se despedaçar em mil pedaços. E uma vez quebrada, não se pode colar novamente. Sempre se percebem as rachaduras.

Não devemos perder nosso tempo com pessoas vazias, sem conteúdo, que não sejam um desafio para nós. Desse tipo de gente, o mundo está cheio. Porém, encontrar aqueles que suportem ouvir a verdade quando necessária é difícil. E se no fundo não passam apenas de cópias, então devem ser ignoradas para seu próprio bem.

As pessoas pensam que um amigo precisa estar disposto a escutar seus problemas, conhecer seu passado. Muito pelo contrário. As verdadeiras amizades preferem não ter que carregar este fardo tão pesado, porque sabem que suas relações são inconstantes e podem deixar de existir de uma hora para outra. Podem precisar usar nossos segredos contra nós. E isso, acaba nos tornando reféns de nossas próprias fraquezas.

Prefiro ter um verdadeiro inimigo a estar rodeado de falsos amigos. É uma relação baseada na competição e admiração. Onde não são necessários elogios, nem críticas. O silêncio será a única regra. O túmulo não os assustará. Crenças e leis não terão valor algum, acreditarão somente naquilo que trazem dentro do peito. Ambos sabem que o único consolo nesta vida é a oportunidade de lutarem juntos. E isso lhes é suficiente.

Talvez seja loucura, mas só encontraremos a verdadeira amizade quando deixarmos de buscá-la.

“Em uma época falsa, para estabelecer relações sinceras com os homens, não é necessário um surto de insanidade?”. (Ralph Waldo Emerson)

quinta-feira, 3 de abril de 2008

A Lâmina Budista

“Separando-se de amigos queridos* - Desde sempre e cada vez mais, nossas vidas devem se separar. Meu caminho leva até ali e o seu, em outra direção; não sei aonde o caminho de amanhã pode levar, nem o que o futuro tem a oferecer." (Bruce Lee).


Eu sempre quis escrever sobre alguns assuntos que marcaram a minha adolescência e mudaram a minha maneira de enxergar as coisas. Foram assuntos que me perturbavam muito naquele tempo e acredito que é uma boa hora para falar deles. São três palavras que causam terror na maioria das pessoas, são elas: doença, velhice e a morte. Elas têm uma profunda ligação com o pensamento budista, onde estes assuntos são apontados como coisas naturais que todos os seres humanos têm de passar. E num mundo onde estas coisas são deixadas cada vez mais de lado, alguns fatos merecem ser recordados.

Há alguns anos atrás, vinha eu do trabalho como sempre acontecia e, ao chegar em casa, recebo a notícia que um conhecido meu estava com câncer. A princípio, não dei muita bola por não ser da minha família e também por que as nossas atividades diárias nos fazem não pensar muito nestas coisas. Mas com a chegada de outras notícias a respeito de seu estado de saúde, aqueles pensamentos começaram a me perseguir aonde quer que eu fosse.

Ele era uma pessoa comum como eu e você. Sonhava com uma vida repleta de realizações; tinha um emprego estabelecido; sua casa já estava terminada; estava com o casamento marcado, tudo se encaminhava para uma vida tranqüila e feliz. Porém, numa visita de rotina ao médico descobre que estava com uma doença terminal. Aquilo me mudou para sempre.

Pensei nos valores que nos são impostos pela sociedade desde cedo e comecei a colocá-los em xeque. Tudo aquilo que me disseram para buscar não fazia mais sentido, minha prioridade agora era entender sobre as coisas que não haviam me ensinado na escola. Neste momento em diante, dinheiro e status não tinham mais valor. É claro que num primeiro momento, pode até parecer loucura, mas depois de perceber que o meu amigo tinha ido embora e que sua casa tinha ficado, não dava mais para rejeitar os fatos.

Deveríamos pensar nas coisas da morte mais cedo. Parece que temos um medo profundo em relação ao nosso fim. Buscamos respostas em vários lugares, sem nunca encontrá-las. Talvez elas não existam de verdade e tudo não passe apenas de mentiras. Podemos acreditar que vamos ficar velhos; que poderemos adoecer de uma hora para outra e, quando menos esperar, poderemos morrer. Não devemos usar nossa vida social como desculpa para não pensar em coisas que cedo ou tarde teremos de enfrentar. A falta de tempo que hoje nos causa tantos problemas nos roubou uma coisa muito importante: nós mesmos.

Algumas pessoas dizem que a morte é a única certeza que podemos ter, e que não levaremos nada junto conosco. Mas são estes mesmos indivíduos que se agarram mais firmemente a suas posses. Na verdade só falam da boca para fora. Se um dia pensassem realmente em alguma coisa, o mundo seria um lugar bem menos hipócrita. Fico feliz que pensamentos tão sólidos, afiados e transparentes tenham cruzado o meu caminho desde cedo e me preparado para entender que as coisas não são como eu gostaria e, sim, como elas realmente são. Elas me defenderam de um monte de besteiras.

Depois da morte do meu conhecido, aconteceu outro momento que eu não poderia deixar de mencionar. Vinha caminhando para casa, na madrugada, quando me encontro com o seu irmão mais novo vindo na mesma direção que eu. Até aquele momento não tivemos a chance de conversar sobre o acontecido. Ele se apoiou no muro e começou a chorar. Dizia que nunca mais teria a oportunidade de conversar com ele ou ter o seu apoio, que tinha perdido seu verdadeiro amigo. Aquilo me destruiu por dentro. E fez com que eu não me arrependesse do caminho que escolhi.

“O fim * - Meu amigo, agora eu preciso ir embora. Você tem uma longa jornada pela frente, e deve viajar com pouca bagagem. De agora em diante, deixe para trás toda carga de conclusões preconcebidas e "abra-se" para tudo e para todos á frente. Lembre-se de que a utilidade da xícara está em seu vazio.”.

* Passagens retiradas do livro Aforismos de Bruce Lee.