domingo, 30 de março de 2008

O Quinto Evangelho

"Rachai a madeira - lá estou eu. Erguei a pedra - lá me achareis." *

Há muito tempo venho pensando nas palavras acima. E cheguei à conclusão que elas podem ser muito perigosas para algumas pessoas. É o tipo de pensamento capaz de tremer os alicerces da sociedade atual e mudar para sempre a forma como a conhecemos. Mas quem são estes medrosos?

Certamente, são aqueles que encontraram na crença religiosa uma boa forma de enriquecer. E são estas mesmas sanguessugas que usam de símbolos e superstições para criarem organizações cada vez maiores. Estes sujeitos se esquecem que o dinheiro não tem nenhuma relação com as palavras contidas no seu querido livro. Hoje tudo não passa de negócios. "Não se pode servir a dois senhores".*

A cada dia surgem novas prisões. Este fato tem uma profunda ligação com o nosso estilo de vida atual, que tem a capacidade de distorcer o real sentido da religião. Sem que a maioria se dê conta, foi determinado que divisão e propriedade são as bases de tudo. E estas duas coisas são os principais causadores dos problemas sociais. Não percebem que, enquanto viverem aceitando este estilo de vida, onde a desigualdade cria abismos cada vez maiores entre as pessoas, só estarão contribuindo para piorar as coisa ainda mais.

Começamos acreditando que o capitalismo e a ciência nos trariam a tão almejada felicidade, porém, a única coisa que conseguimos foi aumentar o consumo de antidepressivos. Percebemos que todos estes avanços só trarão benefícios para aqueles que tiverem dinheiro para pagar por eles, e o restante da população estará por sua própria conta. Sem poder contar com o estado, só lhes resta procurar um lugar onde possam ser aceitos.
Ao tentarmos fugir das garras do individualismo, percebemos estar perdendo aquilo que temos de mais importante: nossa humanidade. O principal motivo de cairmos nesta armadilha, é que nesse momento estamos sem rumo, somos bombardeados pelas influências externas e precisamos de alguém que nos mostre um caminho a seguir. Então, como num passe de mágica, eis que surge uma nova prisão em cada esquina, prometendo a solução imediata dos problemas desta e da outra vida também. E nessa hora, é bom lembrar das palavras do carpinteiro: "Quando um cego guia outro cego, ambos cairão na cova".*

Eu não preciso de um livro, templo ou ainda de alguém repetindo a mesma coisa toda semana. Não posso (e não quero) passar a vida toda acreditando em ilusões. Chega um momento que devemos deixar de ser crianças e deixar o medo de lado, aceitando as coisas como elas são. Devemos acreditar apenas naquilo que enxergamos, independente do resultado que isto possa nos trazer.Aquilo que entendo por religião, não tem nenhuma relação com crenças ou regras e, sim, em compreender aquele sentimento que não posso explicar através de palavras. Posso encontrar essa coisa apenas olhando para dentro da natureza. Quem são os outros para me dizerem no que devo acreditar ou não?

Às vezes penso que, se o carpinteiro andasse entre nós, nenhuma destas prisões permaneceriam de pé. E que na mesma hora seria ele morto novamente.

"O homem que é feliz, não reza" (Krishnamurti)

* Passagens tiradas do Evangelho de Tomé (O Quinto Evangelho), encontrado em 1945 no Egito.

quinta-feira, 20 de março de 2008

Baile de Máscaras

"Todo homem é sincero sozinho. A hipocrisia tem início quando aparece uma segunda pessoa." (Ralph Waldo Emerson)

Somos jogados neste mundo sem saber o motivo. Apenas nos pedem para escolher uma máscara qualquer e aproveitar a festa. Nestas comemorações, podemos realizar nosso desejo mais profundo: ser outra pessoa. E se por acaso nos cansarmos, é preciso apenas mudar a fantasia.

Participando das atividades sociais, posso me esquecer de quem sou por alguns instantes, podendo assumir uma personalidade mais conveniente. Como a sociedade incentiva a criação de personagens (principalmente vilões), cada pessoa pode assumir aquela que melhor se adapta, seja ela de um político, padre, psicopata ou, ainda, a do homem "correto", que adora esconder seus demônios em um sótão qualquer. Nossa verdadeira personalidade sempre nos atormenta quando estamos sozinhos.

Assumimos papéis diferentes em várias partes do meio social. No trabalho somos uma pessoa, na escola outra e na família ainda uma diferente. Não queremos que os outros descubram nossas falhas, que riam de nós. E quanto mais mergulhamos de cabeça nestas festas, mais doentes ficamos. Estas doenças, tanto físicas quanto psicológicas, nada mais são que o fim da festa para nós ou, talvez, o momento em que deixaremos de estar na lista de convidados.

Na solidão, não temos como mentir para nós mesmos. Tudo aquilo que a de pior em nosso interior, vem à tona como uma erupção. Então, no momento em que a máscara cai, começa a nossa revolta contra o mundo e todos os que nele habitam. Sentimo-nos como se fossemos usados, que realmente tudo não passou de uma grande mentira.

Mesmo sendo quase inevitável, no momento em que nossa fantasia assume o controle, o final é sempre trágico. Encanta-nos seu jeito, sua maneira de agir, chegamos a acreditar que somos invencíveis e que chegou o momento de sermos valorizados e amados por todos. Mas, no fundo, apenas queremos fazer parte de alguma coisa.

No momento que tomamos consciência de quem somos, tem início o nosso desespero. Este desespero é a voz do inconsciente, nos dizendo que á vida é curta e o tempo não espera ninguém. Enquanto vivermos num meio onde as aparências são o principal, e qualquer um pode ter seus minutos de fama (sem criar nada), os bailes de máscaras continuarão a existir.

Não sei quanto a vocês, mas o meu convite já chegou. Estou atrasado, então nos vemos lá. A propósito, qual máscara você usa?

quinta-feira, 13 de março de 2008

Quando nos tornamos Winston Smith

Winston Smith acreditava que poderia mudar o seu mundo.
Nós acreditamos que podemos mudar o nosso também.

Winston começou a duvidar das coisas ao seu redor.
Nós, às vezes, duvidamos das coisas ao nosso redor
Odiava cada vez mais todo tipo de governo.
Nós já odiamos toda forma de governo.

Winston nunca quis ser controlado.
Nós também não queremos.

Ele acreditava que nada era mais forte que o amor.
Nós também acreditamos
Sentiu sua vida governada.
Nós também estamos sentindo.

Ele acreditou que era livre.
Quis viver apenas sua vida.
No final, não suportava mais.
Chegou a acreditar que 2 + 2 = 5
Nós ainda não acreditamos

Winston foi se entregando aos poucos.
Quem pode resistir?

-
Winston Smith é o personagem principal do romance ‘1984’, do escritor George Orwell.

Entre Cercas e Muros

Buscamos formas de nos proteger da violência dos dias atuais. Acreditamos que quanto maior for o muro ou reforçada a cerca, mais nos sentiremos a salvo. Buscamos ter uma vida segura, que afaste de nós toda a maldade das ruas. Mas afinal, o quê representam estas cercas e muros ao nosso redor?

Numa sociedade onde a palavra de ordem é acumular e conquistar, a corrida por segurança e riquezas deixa excluída uma grande parte da população, que está entregue à própria sorte. Estes usarão de terror para fazerem parte da sociedade, criando um clima de insegurança. Situação esta que ninguém poderá escapar, independente da classe social.

É curioso observar que quanto mais prosperamos economicamente, cresce também o abismo da desigualdade. Deixaremos as ruas cultivarem doenças sociais, das quais não queremos nos envolver, mesmo sabendo que fazemos parte deste problema. E como sempre, tentaremos nos esconder atrás dos muros de nossas casas. Infelizmente, cedo ou tarde, baterão em nossa porta(gostando ou não) e não poderemos fugir da realidade criada por nossos próprios medos.

Além da proteção feita por tijolos e alumínios, existe outra proteção muito mais espessa, que é a verdadeira razão por trás da desigualdade entre os homens. Esta se chama: parede psicológica. A busca pelo chamado "sonho de consumo", está criando pessoas cada vez mais doentes, tanto físicas quanto mentais. É certo que quanto mais adquirimos, mais cresce o nosso medo em relação aos outros. Temos de ter a consciência de que coisas ruins podem nos acontecer, a partir do momento que colocamos nossos pés fora de nossos " domínios".

Na forma como a sociedade esta estruturada atualmente, fica impossível imaginar um fim para as desigualdades sociais. Os pobres tendem a ficar cada vez mais pobres e os ricos a explorar cada vez mais. Até quando nossas muralhas nos defenderão?

Podemos sair pelas ruas ostentando nossos belos prêmios que conseguimos através da exploração e, ainda, dizer que a sociedade foi criada para garantir o futuro. No fundo, sabemos que tudo não passa de hipocrisia e que não teremos como levar tudo junto conosco, quando chegar a nossa hora.

Então, da próxima vez que assistirmos a um pedreiro levantando o muro de nosso vizinho, podemos ter a certeza de que mais um tijolo foi colocado no muro da desigualdade que separa os homens.

"Vivemos num tempo em que a civilização periga morrer por meio da civilização"(Nietzsche)

quarta-feira, 12 de março de 2008

Mal Educado

Os fatos ao nosso redor confirmam este título. A velha idéia de que salas de aula cada vez mais cheias resolverão o problema educacional, é desculpa de políticos que desejam manter as coisas como estão.

Deixar a educação a cargo dos meios de comunicação pode ser um grande erro. Trocar o ato de pensar e criticar pelo ato de consumir, mostra claramente o tipo de sociedade que estamos criando.

Num mundo repleto de problemas sociais, a educação é o unico caminho que resta. Porém, se você passar o olhar ao seu redor, poderá constatar um fato muito sutil que, na maioria das vezes, passa despercebido. Em geral, as pessoas não se preocupam com o problema da educação - e nem poderiam, pois, são muito ocupadas. Elas pensam apenas em arrumar um emprego qualquer que lhes tragam algum tipo de segurança. A raiz de todos os problemas tem sua base na errada concepção de educação, tanto por políticos, como das pessoas.

Estamos incentivando as pessoas a simplesmente se adaptarem ao meio social. Acreditam que se uma pessoa arrumar uma ocupação qualquer, seus problemas estarão resolvidos quando, na verdade, está se criando indíviduos que não estão preparados para enfrentar os problemas atuais que precisam de senso crítico para serem resolvidos.

A falta de liberdade e as influência dos meios de comunicação impedem o nascimento de uma mente crítica aos alunos. É preciso dar-lhes espaço para pensarem sobre as coisas de sua própria vida, antes de simplesmente jogá-las em uma selva de pedra.

Quanto mais complexa se torna a sociedade a nossa volta, menos damos atenção para a educação, deixando sua responsabilidade aos cuidados de outras pessoas. Tentamos sobreviver e o resto não nos importa. Se não dermos uma atenção especial, não só para o ensino nas escolas, mas também a nossa própria educação, será difícil ver alguma mudança no atual quadro em que vivemos. Sem uma conscientização, corremos o risco de termos uma sociedade de cidadãos de todas as idades, que vivem dependendo do estado para tudo.

A disciplina da qual somos todos moldados, só contribui para fecharmos nossos olhos para a causa do problema. A todo momento somos condicionados a não pensar em nada e a levar uma vida conformada com tudo que nos foi entregue. Talvez este conformismo seja a razão.

Então, da próxima vez que observarmos uma criança indo para escola, pense que ela esta fadada a se adaptar a tudo como é e sempre foi. Terá sonhos que serão trocados por uma vida sem alegria e liberdade. E assim, por ter sido considerada pelo sistema como apenas mais uma.
Passará toda sua existência brincando de faz de conta, sem nunca perceber o 'porquê' de todos os seus sofrimentos.

" Antes de ser um cientista, você é um ser humano" (Krishnamurti)