domingo, 14 de dezembro de 2008

Ralph Waldo Emerson

“Na educação de todo homem existe uma hora em que ele chega à convicção de que inveja é ignorância; de que imitação é suicídio; de que ele precisa considerar a si mesmo, tanto por bem como por mal, de acordo com seu destino; de que, apesar do universo infinito estar repleto de bem, nenhuma semente de trigo pode-lhe brotar senão por meio do suor derramado naquele pedaço de terra que lhe foi dado para cultivar. É de natureza inédita o poder que reside no homem, e ninguém senão ele mesmo sabe o que é capaz de fazer, e tampouco ele o sabe antes de o ter tentado.” *
Um livro. Uma palavra. Um amigo. Um irmão por toda esta jornada terrestre. Todas estas palavras são apenas uma humilde tentativa de colocar no papel o que seu exemplo fez com minha mente e a forma como ela passou a enxergar a vida desde então. Encontrei em seus pensamentos e reflexões tudo aquilo que estavam mudos dentro de mim. Você me mostrou que é possível viver uma vida de honra e humanidade, mesmo vivendo em um mundo deformado e corrompido pela ignorância. Toda vez que eu pensava em desistir e me isolar, você estava lá em meio às páginas já amareladas, e me lembrava que a minha caminhada não havia terminado, mas que estava apenas começando. E tudo isso me fez voltar a falar de você, meu amigo.

Sempre estivemos sozinhos. Para mim sempre foi mais difícil de acreditar. Em nenhum lugar eu poderia conversar com alguém sobre as coisas que você pensava. Você me ouvia, mas nunca havia resposta. Cada capítulo era um aprendizado que escola nenhuma jamais poderia me ensinar. Era um tipo de sabedoria que nenhum ancião poderia me entregar. Foi uma experiência ao mesmo tempo destruidora e emocionante. Uma coisa que levarei comigo até o último dia. Foi como se meus olhos estivessem enxergando pela primeira vez. Era aquilo que aparece uma vez na vida do homem e depois vai embora sem deixar aviso. É aquilo que te faz respeitar a vida.

Você, meu amigo, teve a coragem de falar abertamente sobre coisas que eu sempre tive medo até de pensar. Fosse falando sobre temas que muitos já falaram como: Caráter, Autoconfiança, Amor e Amizade. Ainda, sobre assuntos que só um pensador profundo poderia refletir: Compensação, Leis espirituais, Heroísmo, A alma do mundo e Círculos. Todas elas questões deixadas de lado pela maioria, mas que para mim fizeram toda a diferença. Cada ensaio que você escreveu não falava apenas sobre a sua vida neste planeta, mas também de cada ser humano que ainda vai caminhar sobre esta terra. E, tenho a certeza que este livro ainda será de grande consolo para todos aqueles que como eu, se sentem como viajantes perdidos entre as miragens de um grande deserto.

Certa vez, você resumiu toda sua conduta em um simples código de honra. Era ele: “Viva, deixe viver e Ajude a viver”. Um pensamento que carrego dentro de mim para onde quer que eu vá. E vou aproveitar este espaço para lhe fazer uma promessa: Trabalharei incessantemente para mudar este mundo ridículo, mesmo que todos zombem de mim ou me achem um tolo. Porque você me fez acreditar na força que existe dentro de cada um de nós, e que ninguém pode vencer sozinho. E isso me basta. Obrigado.

“Entre a maioria das meninas ele se move de forma bastante agressiva, mas apenas uma o mantém a distância; e esses dois pequenos vizinhos, tão próximos nesse exato momento, aprenderam a respeitar a personalidade um do outro” *.

* Estas são apenas duas entre tantas passagens que me marcaram além das palavras (e que ainda continuam), e fizeram com que eu ainda conseguisse acreditar em mim mesmo. Sem dúvida muito mais que um livro. Assim, desejo a todos um feliz natal e um ano novo cheio de alegrias.

domingo, 7 de dezembro de 2008

Vida Subterrânea


“Abençoados os que têm sono, pois não tardarão em dormir.” (Friedrich Nietzsche).

Seus olhos não podiam suportá-la. Ele adormecia para poder esquecê-la. Ela que despontava no horizonte e inundava todo o ambiente com seu calor acolhedor, teve sua visão escurecida pelas inúmeras nuvens que insistiam em habitar os pensamentos dele. Ele que conhecia apenas o frio incrustado no mármore gelado e a certeza contida nos buracos cavados na terra, pode ver com clareza todas as sombras sendo expulsas como hóspedes indesejados, e acreditou por alguns instantes que nunca mais precisaria chamar aquele lugar de lar. Ao cair da noite, que era sua única necessidade e companhia, toda sua loucura e desespero de uma vida vazia se faziam presentes, e não lhe restava mais nada a fazer do que se entregar ao sono. A única forma que conhecia para se esquecer de tudo que existia a sua volta.

Os portões viviam fechados. Um lugar cercado por cruzes e anjos. Onde o farfalhar das árvores se misturavam aos lamentos ouvidos com a constante passagem das areias do tempo. As únicas cores que se podiam distinguir naquele lugar eram aquelas que adornavam as frontes daqueles que não desejam mais se levantar. Mas como poderiam? Com o fim da dor, da fome, do medo, da escravidão, suas faces adquiriram um semblante de serenidade e paz que ficariam gravadas em sua memória e coração por um longo período. Mas ele não se sentia assim tão sozinho. Poderia sempre contar com seu cão de estimação, que adorava brincar naquele lugar sombrio. Ao qual ele havia dado um nome mais do que apropriado para o tipo de maldição que havia recebido: Sofrimento.

Ele e seu cão observavam com curiosidade o desenrolar da vida através das grades dos bueiros e galerias. Ambos fugiam quando ela insistia em visitá-los nas primeiras horas da manhã. Nesta hora, latidos eram rosnados em sua direção. “Aqui Sofrimento”... “Vem Sofrimento”, eram as palavras que ele chamava quando se sentia mortalmente sozinho. E lá vinha ele correndo e pulando em sua direção lambendo-lhe a face e olhando diretamente em seus olhos, de uma forma que nenhum ser que caminha por duas pernas teria a coragem de fazer. Não dizem por aí que o cão é o melhor amigo do homem? Eu não duvido.

Em certos momentos os raios dela se esgueiravam pelo chão e machucavam o seu rosto, fazendo com que sua sombra voltasse a ser refletida ao seu lado. Fazia muito tempo que ele não conversava com ela. Tinham conversado sobre vários assuntos no passado. Mas ele não precisava mais dela. Ela era coisa do passado. Agora ele tinha descoberto uma nova forma de esquecer tanto sua amiga sombra quanto aquela que adorava iluminar o seu mundo gélido e árido. Bastava apenas fechar os olhos e esperar para que fosse transportado para um mundo novo, onde todas as suas fantasias e delírios faziam a sua alegria. Um lugar que para ele era mais que real.

“A vida mais doce é não pensar em nada” (Friedrich Nietzsche)

domingo, 30 de novembro de 2008

For the love of God*

A música exprime a mais alta filosofia numa linguagem que a razão não compreende (Schopenhauer)

Sem a música, a vida seria um erro (Nietzsche)

*Música de autoria do guitarrista Steve Vai

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Amores Possíveis

Capítulo I - O Fórum*


“Como uma gema estava eu oculto;
Revelou-me o meu raio incandescente”.

Alcorão


O ônibus se aproxima. Os dias e as horas teimam em se arrastar. Após uma longa espera, Rudi e seu amigo Romão finalmente dariam início a tão esperada viagem. Com apenas 40 reais. Isso é tudo o que levam consigo. Neste momento as portas se abrem. Em meio a muitos rostos e conversas, ambos entram e buscam se acomodar da melhor maneira possível. O cobrador dá o sinal de que todos os passageiros já se encontram no interior do veículo, e o motorista com seus muitos anos de experiência dá a partida rumo ao Fórum Mundial da Educação, na capital do Rio Grande do Sul. Ao passar os olhos pela janela e perceber que a paisagem vai ficando para trás, Rudi teve também a certeza de que todas as suas tristezas e incertezas se esvaiam, e que um novo começo se levantava no horizonte.
Chegam por volta do meio-dia. O dia ensolarado e o forte calor fazem com que cada peça de roupa se transforme num verdadeiro tormento. Mais à frente, se levantava um grande ginásio em meio a inúmeras barracas espalhadas ao redor de toda a área verde que delimitava a campina. Muitos estudantes e professores de várias partes do país se prepararam para discutir novas formas de enxergar a educação brasileira e planejar o futuro. No interior do ginásio existiam muitas barracas e colchões espalhados por todos os lados. As rodas de violão e poesia tornam-se freqüentes em todo o encontro. Em meio a muito Legião Urbana e Raul Seixas, os dois amigos sentam-se e aproveitam o momento. Então, um jovem chamado Ramiro, o porta voz de um grupo de estudantes do Rio de Janeiro, aproxima-se de ambos e pergunta:

— E aí galera, a gente pode fazer um som maneiro com vocês?

— Podem ficar a vontade. Foi o que Rudi respondeu prontamente.

Nesse instante o tempo deixou de existir. Os acordes dos violões haviam se silenciado. As vozes se calaram para sempre. Tudo ao redor parecia não ter mais importância. “Quem é ela?”, pergunta-se Rudi, de forma quase inconsciente. Ela tinha algo de diferente. Ele não saberia dizer ao certo o que prendeu sua atenção. Foram-se os modos elegantes e delicados ou seus longos cabelos negros ou, ainda, seu olhar cativante. Sabia apenas que havia encontrado aquilo que sempre procurou. Passados alguns instantes, perdido em pensamentos, toma a iniciativa de se aproximar e convida Lívia para se aproximar dele. Ela responde apenas com o olhar. Então, ambos começam a conversar por longas horas a fio.

No segundo dia do Fórum, a chuva se fazia presente de forma torrencial. O forte frio fazia com que mesmo os grossos cobertores mais parecessem feitos de gelo. O clima hostil do lado de fora tornou as conversas ainda mais aconchegantes. Eles transitavam em assuntos desde as carreiras acadêmicas de cada um, passando pelas famílias, literatura, música, até chegar aos planos e sonhos futuros. Como a música era o ar que ambos respiravam, ele não pode mais esperar.
— Só por curiosidade, qual o estilo de música que você curte? Perguntou.
— Gosto de todos os tipos de música, talvez um pouco menos de rock pesado. Lívia responde prontamente e emenda uma inquietação.
— Posso dizer uma coisa?
— Claro, manda ver.
— No primeiro momento que te vi, com esse cabelo de roqueiro, fiquei um pouco assustada. Cheguei a acreditar que você fosse apenas mais um destes malucos que andam de preto por aí.
— E continua acreditando?
—Ainda bem que não.

O terceiro dia do Fórum teve início. O sol finalmente raiou entre as montanhas e a imensidão do céu azul fez com que caminhadas pela capital porto-alegrense se tornassem mais do que convidativas. Depois de almoçarem, os quatro resolvem fazer um passeio pelas ruas da cidade. Rudi foi acompanhado por Lívia e sua amiga Ingrid, e também por seu amigo Romão. Depois de horas cruzando por ruas e avenidas movimentadas, fazem uma parada na usina do Gasômetro. Em uma barraca próxima ao local, um hippie de cabelos compridos e roupas coloridas, aparentando mais ou menos 40 anos, apresentava aos turistas várias peças de artesanato e pequenas jóias confeccionadas na região. Passando os olhos ao redor, Rudi escolhe um par de brincos com os quais presenteia Lívia.
Depois de conhecerem os mais diversos pontos turísticos da região, o grupo se dirige de volta ao acampamento.

Enfim, o último dia havia chegado. Rudi e Romão começavam a arrumar suas coisas para a viagem de volta a Blumenau e também aos problemas do cotidiano. Lívia e sua amiga, Ingrid, também começam a pensar no trabalho e suas obrigações na Capital Carioca. A despedida ocorreu de maneira tranqüila e sem grandes dramas. E a certeza de que não era o fim predominava. Antes de embarcarem no ônibus, ambos trocaram pedaços de papéis que vinham escritos com palavras que reforçavam a idéia de uma ligação muito maior do que as palavras podem descrever. Era coisa do Destino. Voltando-se vez ou outra para a janela do ônibus, Rudi pode ter a certeza de que aquilo não era um adeus, mas sim apenas um até logo.


Capítulo II – A Distância


“A paixão ao presentear uma pessoa a outra, mais ainda presenteia a si mesma. Ele torna-se um novo homem, com novas percepções, novos e mais ardentes propósitos, e uma solenidade religiosa no caráter e nos objetivos. Ele não mais pertence à sua família e sociedade; ele de algum modo é; ele é uma pessoa; ele, uma alma”. (Ralph Waldo Emerson)


Havia se passado cinco anos desde que Rudi se despediu de Lívia no Fórum de Educação do Rio Grande do Sul. Trancara a faculdade de História que cursava na Universidade Regional de Blumenau e dividia seu tempo entre a família e o trabalho de oito horas numa fábrica de camisas, onde permaneceu por quatro meses. Entre as constantes trocas de emprego e relacionamentos, a vida foi seguindo seu rumo. Então surgem propostas para voltar a tocar guitarra na banda de pop rock de amigos de adolescência. Aceito o convite, por ser uma de suas paixões, permanece alguns meses solando músicas como o clássico de Neil Young, Rocking in the Free World, Paranoid e Neon Nights, ambas da banda Britânica Black Sabbath, pelos bares e pubs da cidade. Após alguns desentendimentos quanto ao direcionamento musical que a banda deveria seguir, separa-se do grupo e começa a trabalhar num café bar próximo ao hospital Santa Isabel. Nessa mesma época, Lívia lhe remete a primeira carta do Rio de Janeiro, que acabara se estragando durante uma forte chuva verão. Na mesma semana ele resolve enviar uma carta a ela, mas que nunca teve resposta.
Passados mais alguns meses, Lívia encontra Rudi no Orkut. Suas palavras foram de total espanto: “Rudi... é você mesmo?”, escreveu na mensagem. E conversam por mais algum tempo. Infelizmente, problemas financeiros o levam a desligar sua conexão de internet, o único canal de comunicação capaz de encurtar a distância entre eles. Acabam novamente perdendo o contato.

Tem início o período mais negro e duro de sua vida. Em maio de 2007, seu pai falece, sofre um enfarte fulminante enquanto voltava do trabalho. Tem então a responsabilidade de cuidar de sua mãe e de duas irmãs. Após uma curta passagem pelo café bar, começa a trabalhar numa farmácia de manipulação. O ano de 2007 registra um momento de transição em sua vida, marcado principalmente pela rotina e a constante preocupação com sua família.

Enfim, ventos de mudança sopram o despertar de um novo ano. Com a estabilidade financeira e emocional, retornando aos poucos, volta a fazer parte das comunidades on-line. Mais precisamente as do Orkut. Quando estava olhando os recados deixados, percebe que um, em especial, chama-lhe a atenção. Era Ingrid, amiga de Lívia. A mesma que conhecera no Fórum, em 2003. Conversam durante certo tempo. Foi o gancho e a oportunidade de voltar a se comunicar com Lívia, pensou ele. Na semana seguinte, começa a ter contato com ela via MSN. Começa a sentir as mesmas sensações que lhe invadiram a mente durante sua viagem ao Rio Grande do Sul. Sabia que precisava fazer alguma coisa para reencontrar essa mulher. Mas, essa hora ainda não chegara. Dias depois, mais uma perda. Agora quem lhe deixara era sua madrinha Cleusa, por quem Rudi nutria um forte sentimento e do qual a morte lhe abalou profundamente.

Entre muitas conversas via MSN e recados no Orkut, surge a idéia de lhe propor que um encontro. Falta de dinheiro, compromissos no trabalho, problemas familiares, sempre impediram Rudi de ir até o Rio de Janeiro. Num desses comentários sem grandes esperanças de se concretizarem, aqueles jogados ao vento, Lívia diz que aceita ir para Blumenau para se encontrar com ele. Ela não sabia o que a esperava. Fazia cinco anos que não tiveram nenhum outro contato que não fosse o virtual. Mas, mesmo assim, embarcou no desconhecido e, um mês após esse contato, estava se preparando para enfrentar mais de dezessete horas de viagem até Santa Catarina. Antes de sua chegada, Rudi teve um sonho, no qual ambos conversavam na cozinha de sua casa por longas horas, varrendo a madrugada. Era um prenúncio daquilo que viria a se tornar realidade. Para ele “tudo aquilo pareceu mais que real”.

Julho bate à porta. Mas o frio tão aguardado acabou não acontecendo. Lívia sempre dizia, em suas conversas, que se sentia como uma flor amarela do Cairo. E no dia em que ele foi buscá-la na Rodoviária, levou consigo uma flor amarela para presenteá-la. O combinado era que ela ficasse uma semana e depois voltasse para casa e trabalho de professora de português em uma escola do Rio de Janeiro. Acabou permanecendo dez dias. Neste momento Rudi voltara a trabalhar na mesma fábrica de camisas pelo qual passou há alguns anos atrás, porém, agora estava no terceiro turno, que começava às dez da noite e ia até as cinco da manhã. Uma paz e felicidades poucas vezes antes sentidas começavam a tomar conta da vida de todos. As conversas começavam quando dia estava nascendo e duravam até a hora do almoço.

Não havia tempo para cansaço. O tempo voava. Um dia depois de sua chegada, ambos vão brincar e comemorar sua tão aguardada chegada em uma festa junina organizada pelos amigos do trabalho. Ao anoitecer, preparam um churrasco com alguns amigos. Domingo, no terceiro dia de sua chegada, em meio a muitas conversas, Rudi se prepara para se declarar e expor tudo aquilo que trazia dentro do peito. Em suas próprias palavras: “Deixar a armadura de lado e expor o peito aberto”. Assim, estava selado o compromisso de ela vir viver com ele em Blumenau.
Os outros dias de sua estada não foram diferentes. Alegria, cervejas, amigos, livros, felicidade, que fizeram que todas as feridas que tanto custavam para se fechar fossem esquecidas, em algum canto da mente. Mas ela ainda precisava voltar para sua cidade e seus alunos.


Capítulo Final – O Destino

“Oh, Pedaço de mim
Oh, metade amputada de mim
Levo o que há de ti
Que a saudade dói latejada.
É assim como uma fisgada
No membro que já perdi.

Oh, pedaço de mim
Oh, metade adorada de mim
Lava os olhos meus
Que a saudade é o pior castigo
E eu quero levar comigo
A mortalha do amor
Adeus.”

Lembranças. Muitas vezes é tudo o que resta. À distância, com todo o seu poder de destruir imagens, e de desviar o pensamento daquilo que realmente tem valor, nunca poderá balançar uma estrutura baseada em algo que vai além da carne. Algo que vai além das palavras. Algo que tem um pacto com o destino.

O relógio e o calendário são os inimigos a serem derrotados neste momento. Uma promessa foi feita. Circunstâncias das mais variadas formas sempre estarão conspirando para dificultar o cumprimento da mesma. Rudi sempre soube disso. Ele sempre soube também que a vontade pode muitas vezes fraquejar, e que sombras vindas do passado continuarão sendo sempre um poderoso teste. Antes da calmaria, a tormenta sempre se fez necessária. Felizmente, a vontade de se criar algo verdadeiro e duradouro sempre há de perdurar.

Corpo e mente caminham juntos. Frequentemente, os sintomas de um se apresentam no outro e vice versa. Intuições são capazes de atravessar até mesmo nuvens. Lívia sabe disso. Nestes meses que antecedem a viagem que deve ser realizada para que seja cumprida a promessa, visitas ocasionais aos hospitais da cidade formam uma constante. Convivendo em meio a guarda-pós brancos, macas, eletrocardiogramas, inesperadas elevações da pressão arterial e sangramentos nasais, ambos tiveram a oportunidade de constatar um fato importante: muitas vezes a saudade é capaz de criar ilusões que somente aqueles que vivenciam esta experiência podem enxergar.

Neste instante, marteladas ecoam por toda a região. É a confiança naquilo que a lógica não pode explicar. Os materiais de construção acabam de chegar. Muitos transtornos os acompanham. Tijolos, pregos, cimento, madeira e pedreiros transformam a paisagem ao redor. É uma coisa que foi feita para durar.

Dezembro. A chegada de um novo ano e também de um novo começo. Rudi se prepara para embarcar para o Rio de Janeiro, com o intuito de selar o compromisso assumido meses atrás. Ambos escolheram seus próprios caminhos. Abriram mão de muitas coisas para viver uma história que tinha tudo para não se realizar. E, como maior virtude conseguiram interpretar os constantes sinais que flutuam a nossa volta o tempo todo. Assim, tiveram a certeza que aquele encontro no Fórum não havia sido mero acaso, e isso acabou fazendo toda a diferença.
* Digo apenas que me sinto muito honrado por fazer parte desta bela história! w3

sábado, 15 de novembro de 2008

A Doença e a Cura

“O homem está em seu pior momento quando não compreende a si mesmo”. (Bruce Lee)

Sempre existirão lugares especiais. Lugares onde se pode ter paz, mesmo que seja apenas por alguns instantes. A rua do coronel é assim, um lugar onde toda a minha ignorância e loucura dão espaço para aquilo que busco a todo o momento: a paz. Muitos podem dizer que buscamos estes espaços para fugirmos de nossos próprios pensamentos - o que não deixa de ser uma grande verdade, mas se não for assim, as conseqüências futuras podem ser ainda piores. É apenas no silêncio que encontro à cura.

Certa vez, um grande pensador disse que a nossa maior doença era o desespero inconsciente de tentar ser o outro. Hoje, acredito nisso. Buscamos nos expressar de uma forma mais verdadeira com aquilo que trazemos dentro de nós, porém, neste instante percebemos que independente do que se façamos não haverá nenhuma mudança. Dizem que a maior ilusão é achar que se pode viver fora da loucura. Viver deslocado. Não fazer parte. O único lugar em que se pode ser livre é dentro dos poucos centímetros disponíveis no interior de nossa mente. É apenas lá que posso ser livre.

Eu preciso ficar sozinho. Mas o mundo parece não permitir. Eu sou doente. Vocês não conseguem entender? Não agüento mais andar pelas ruas e me pegar duvidando das coisas ao meu redor. Será possível? Deve ser coisa da minha mente perturbada. Mas devo me acalmar. Como seria isso possível também? Quando percebo que minhas mãos não param mais de tremer, é chegada a hora de voltar para perto daquilo que guarda a minha cura.

Não existe liberdade ou felicidade. Isso é papo de gente que vive na mais pura ilusão. Se enxergassem a própria tragédia das coisas, cairiam de joelhos nesse mesmo momento. Ou aproveitariam todo este belo trânsito e não aguardariam o sinal fechar. Só posso sentir pena de mim e de vocês. Na loteria da vida, uns tiveram a sorte de não enxergar nada enquanto outros tiveram o azar de ver demais, e na maioria dos casos àquilo que não queriam. Muitas vezes tenho inveja do Sr. Édipo, ele sim tem muita sorte.

Minha falta de criatividade e vontade me fazem sentir nojo de mim mesmo. Este texto mostra que eu não consigo achar a cura das minhas doenças, mesmo buscando a ajuda daqueles que já se foram. O melhor teria sido se eu não escrevesse nada, mas eu precisava me livrar de certos pensamentos que me atormentam e que não fazem o menor sentido. Estou cansado de viver dividido. De viver entre a realidade e a ficção. Entre acreditar e duvidar. Em lutar e se conformar. Se a cura está dentro de mim, é bom eu encontrá-la logo.

Hoje, devo voltar a visitar a rua do coronel. Sua paz e tranqüilidade me fazem um bem que não consigo exprimir através de palavras. O verde, o suor e o barulho do rio são as únicas coisas capazes de me trazerem a felicidade. Ali não existe personagem ou ilusão. E, é apenas nesse momento que deixo de falar sozinho.

“O remédio para o sofrimento está dentro de nós – O remédio para o meu sofrimento estava dentro de mim desde o começo, mas eu não o tomava. Minha doença vinha de dentro de mim, mas eu não a percebia – até esse momento. Agora vejo que jamais encontrarei a luz a menos que, como a vela, eu seja o meu próprio combustível, consumindo a mim mesmo”. (Bruce Lee)

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Estranha Coincidência

"Há uma história em seus olhos
Posso ver a dor por trás do seu sorriso
A cada sinal que reconheço
Um outro me escapa

Me deixe conhecer o que atormenta sua mente
Me deixe ser o único a conhecer o seu melhor
Ser o unico a te por pra cima
Quando você sentir que está afundando

Me diga mais uma vez
O que há por trás da dor que está sentindo
Não me abandone
Ou pense que não pode ser salvo

Eu estarei ao seu lado
Onde quer que você esteja
O que quer que aconteça
Não importa quão longe
Por tudo que pode vir
E tudo que pode ir
Eu estarei ao seu lado
Eu estarei ao seu lado

Desperte seu espirito por mim
Descanse seus pensamentos cansados em minhas mãos
Entre nesse local sagrado
Onde todos seus sonhos parecem partidos

Vamos ficar dentro deste templo
Me deixe ser o único que te entende
Ser o único a te carregar
Quando você achar que não consegue mais andar

Me diga mais uma vez
O que está por baixo dessa superfície sangrando
Se você perdeu seu caminho
Eu colocarei você nele

Oh, quando tudo está errado
Oh, quando a desilusão rodear voce
Oh, o sol irá nascer novamente
O tempo que você perdeu te levará de volta para casa

Então não se renda
Não se entregue

Eu estarei ao seu lado
Onde quer que você esteja
O que quer que aconteça
Não importa quão longe
Por tudo que pode vir
E tudo que pode ir
Eu estarei ao seu lado
Eu estarei ao seu lado" *

Posso apenas dizer que esta estranha coincidência me deixou profundamente assustado!

* A letra é de autoria da banda Dream Theater, e está contida na música I Walk beside You.

domingo, 2 de novembro de 2008

A Dama do Lago

“A principal necessidade de nossas vidas é alguém que nos obrigue a fazer o que podemos fazer”. (Ralph Waldo Emerson)

Ela não precisava dele. Ele sabia que precisava dela. Ela poderia viver por si mesma. Ela detinha o poder em suas mãos. Um dia, a lembrança deste sonho se fez presente. Coisas que surgem sem aviso prévio. Todo o meu fascínio pelas lendas Arthurianas se juntaram à necessidade de se encontrar respostas para tudo aquilo que se escondia no fundo da minha alma. Não sei explicar ao certo como esta idéia veio até à superfície, mas acredito que era preciso dar vida a este pensamento. Realmente, tenho muita sorte por ter tido a oportunidade de encontrar a dama do lago, mesmo que isso quase tenha me destruído por completo.

Arthur já havia ouvido muitas histórias a seu respeito. Sobre o fascínio que ela exercia sobre todos aqueles que imprudentemente tentavam se aproximar de seus domínios. Ele sabia que ali existia um grande mistério, e que toda a sua vontade era dissolvida no mesmo instante que chegava aos seus olhos o brilho daquela lagoa espelhada. Merlin em toda a sua sabedoria havia-lhe aconselhado que esquecesse toda aquela loucura e voltasse sua atenção para os problemas de Camelot. Infelizmente, nenhuma daquelas pessoas conseguia prender sua atenção tanto quanto aquela que se escondia nas profundezas daquele lago encantado.

No começo, seus passos eram vacilantes e o medo o dominava por inteiro. Mais aos poucos, o medo foi dando lugar a uma crescente curiosidade que o arrastava cada vez mais para perto de sua margem. Era um caminho sem volta. Ao se aproximar, Arthur pensou em sua espada excalibur e em todo o poder que ela representava. Sua cota de malha nunca reluziu antes de forma tão esplendorosa. Após retirar seu poderoso elmo, ele estendeu sua mão para o alto e esperou que ela lhe entregasse aquilo que tanto ansiava. Infelizmente, naquele momento um silêncio mortal se fez presente e nada aconteceu.

Arthur estava perdido em meio a inúmeros pensamentos. Coisas de seu conturbado passado. Coisas que ele sempre fez questão de esquecer. Mas que agora começavam a bater em sua porta. Então, de repente, sua visão se voltou para o estranho reflexo que era refletido na superfície do lago encantado. Ele viu sua própria imagem. Sua armadura não podia mais esconder aquilo que trazia dentro do peito. Seu flanco estava totalmente exposto. Como se toda a sua vontade de viver e vencer tivessem sido tomadas de assalto, cai de joelhos e leva suas mãos ao rosto. Assim, lágrimas começam a encharcar toda a terra ao seu redor. Enfim, não existia mais poder e o rei havia sido totalmente derrotado.

Ele passou a amaldiçoa-lá com todas as suas forças. Pedras foram arremessadas em sua direção, e visavam desfigurar aquele maldito reflexo. Ela o forçou a se conhecer como nunca antes. Foi forçado a se superar. Provavelmente, tenha sido a maior batalha que já enfrentou em sua vida. Teve de conhecer mais de perto todo o terror de sua própria miséria e solidão. Foi marcado a ferro e fogo. Depois deste encontro Arthur não foi mais o mesmo. Ele teve a certeza de que a lembrança daquela lagoa espelhada o perseguirá aonde quer que vá. Hoje, ele possui sua poderosa espada excalibur e todo um reino aos seus serviços, mas o vazio deixado por aquele episódio talvez nunca mais possa ser preenchido completamente. Ele sabe que sozinho jamais poderá vencer.

"A glória da amizade não é a mão estendida, nem o sorriso carinhoso, nem mesmo a delícia da companhia. É a inspiração espiritual que vem quando você descobre que alguém acredita e confia em você."(Ralph Waldo Emerson)

Ps: Este texto é uma homenagem A Dama do Lago, que me conhece melhor do que eu mesmo.

sábado, 4 de outubro de 2008

Pensamento Vivo

“Crescer, descobrir... é algo que experimento cada dia, às vezes bom, às vezes frustrador... não importa! Deixe sua luz interior guiá-lo, para fora da escuridão.”

Bruce Lee sempre será uma grande inspiração. Desde o momento que seus pensamentos chegaram as minhas mãos, pude dizer que não fui mais o mesmo. Eu havia mudado. Apartir daquele momento, suas palavras tiveram o poder de fazer renascer algo que estava morto há muito tempo: a confiança em mim mesmo. Uma coisa aparentemente simples, mas que a sociedade atual adora ver se deteriorando dentro de nós.

Imitação, desânimo, apego, ignorância e maldade, eram coisas que ele fez questão de abandonar de sua vida diária. Ele sabia que todas estas palavras eram sinônimos de frustração e infelicidade, e que somente uma atitude positiva e uma mente livre de idéias pré-concebidas poderiam nos ajudar a enfrentar os inúmeros desafios que inevitavelmente surgem no decorrer do caminho. E entre eles estavam: a velhice, a doença e a morte. Todos fatos irremediáveis! Quer gostemos da idéia ou não. E foi esta constatação que estreitou seu relacionamento com o pensamento budista e taoista, que mais tarde se tornariam a base de sua filosofia.

Ele sempre foi um leitor assíduo. Tinha em sua biblioteca mais de 2000 livros que abordavam os mais diversos assuntos, entre eles: medicina, física, química, nutrição, sociologia entre outros. Tanto de autores do Oriente quanto do Ocidente. E nós? O que andamos lendo ultimamente? Acreditamos que o nosso velho hábito de ler jornais e revistas diariamente (do qual tanto nos orgulhamos) possa nos ajudar a desenvolver uma visão mais crítica sobre os fatos que nos cercam. Na verdade, só pioram. Antes de saber o que acontece no mundo lá fora, deveríamos entender primeiro o que se passa dentro de nós. Acredite: num simples ato como o de folhear algumas páginas de um livro, já é possível balançar todos os alicerces que sustentam uma sociedade feita a partir da mais tola tradição.

Sempre me indaguei sobre o que Bruce Lee queria dizer quando falava que deveríamos nos tornar parecidos com a água corrente. Com aquela que se adapta a qualquer situação. Aquela que não possui forma certa. Aquela que é capaz de absorver toda a sujeira a sua volta, e mesmo assim continuar seu curso de forma inabalável. Talvez seja isso que sempre me faltou. Buscar me moldar a cada situação que apareça. Pensar em cada situação com antecedência, para que quando elas chegarem (tanto porque cedo ou tarde elas vão chegar) eu já terei na experiência um poderoso suporte. Realmente, num tempo onde a insegurança impera, estas idéias fazem toda a diferença.

O pensamento de Bruce Lee sempre vai continuar vivo na mente e nos corações daqueles que como ele acreditavam na construção de um mundo mais justo e fraternal. Um lugar onde não existissem bandeiras nem hinos, crenças ou cruzes, onde a busca pelo poder não fizesse com que armas fossem apontadas na direção de inocentes. Um lugar onde as pessoas não desistissem tão facilmente de seus sonhos. Mesmo aqueles ditos impossíveis. Resumindo, um lugar onde nossos golpes só visassem nos defender de nossa própria ignorância. E, para finalizar, faço uso das belas palavras que sua esposa Linda Emery sempre usava para se referir a sua lembrança: “Não importa como Bruce Lee morreu, mas sim como ele viveu”.

"O futuro parece ser extremamente brilhante, com muitas possibilidades pela frente - grandes possibilidades. Como a canção diz: 'Nós precisamos apenas começar'."

sábado, 27 de setembro de 2008

Pensamento Nômade

“Os bens da fortuna podem ir e vir como folhas de verão; que ele os espalhe aos quatro ventos como signos momentâneos de sua infinita produtividade”. (Ralph Waldo Emerson)

Mais uma vez desempregado. Mais uma vez sentindo todo o desespero da insegurança. Mais uma vez deixando risadas pelo caminho. Eu sei que é difícil entender os motivos que me levaram a deixar meu último trabalho para trás. Nem mesmo eu sei ao certo. Posso apenas dizer que toda vez que isso ocorre, consigo sentir uma tranqüilidade e felicidade que são difíceis até de explicar. Não se trata de estar contente ou não com a atividade, mas sim de poder se livrar ao menos por alguns instantes de todo o medo acumulado com o passar do tempo. Para um nômade como eu, levantar acampamento é a única forma de se manter vivo.

Certa vez, ouvi que a maior responsável pela nossa claustrofobia social era a própria arquitetura de nossas cidades. É bem provável que seja verdade. Cada planta projetada, parede erguida, porta ou janela colocada, possui um pouco de nossa personalidade contida em seu interior. Cada construção erguida representa o nosso medo em relação aos outros. Não passa de uma natureza morta. Tenho a certeza absoluta de que não nasci para ficar o dia todo em frente a um computador. Eu busco um outro tipo de liberdade. Ninguém pode ser realmente livre enquanto não tiver a coragem de dizer não. Ou você ainda acha que ir todo final de ano para a praia representa algum tipo de liberdade?

Evitamos o pensamento nômade por que temos medo da solidão. Hoje vivemos uma época em que se busca a segurança a qualquer custo. Eu preciso aceitar a idéia de que quando eu partir, os prédios vão continuar no mesmo lugar de sempre. Que todo trabalho é apenas trabalho. E, que todo este medo que se sente, nada mais é do que a certeza de não possuir mais uma rotina para preencher o vazio de todo dia. Mas qual seria a principal vantagem de se cultivar um pensamento nômade? Ter a certeza de se estar vivendo numa maior harmonia com as leis da natureza, talvez possa ser considerada uma delas.

Um nômade sabe que cultivar a mesma terra por muito tempo pode causar um rápido empobrecimento da mesma. Que o único calendário confiável é a troca das estações. Que deve estar preparado para partir a qualquer momento. E, que buscar por novas terras constantemente é a única coisa capaz de fazer seu sangue voltar a circular. Para ele a própria vida não passa de um sonho. E estas palavras são mais que suficientes para justificar as minhas últimas atitudes.


"Nada lhe pertence mais que seus sonhos."(Friedrich Nietzsche)

sábado, 20 de setembro de 2008

Pesos e Medidas

“O verdadeiro lucro consiste em gastar dias para alcançar coisas superiores, em empregar dinheiro com uma avareza cada vez mais restrita, a fim de poder despender em criações espirituais, e não para aumentar a existência animal.” (Ralph Waldo Emerson).

Sempre me preocupei em saber o que era realmente importante nesta vida. O que pesa mais. Muitas coisas que tem seu valor superestimado hoje, nunca significaram nada para mim. Se afogar no trabalho ou usar o dinheiro como forma de compensar coisas que gostaríamos de ter e não podemos, já deixaram de me interessar a muito tempo. No momento em que deixei de buscar o conforto, pude ter a medida exata de como pode ser rico um dia frio e chuvoso. E, isso me fez lembrar o quão frágil o ser humano pode ser.

Sinto que perdi o contato com a natureza. A constante busca pelo dinheiro e sua segurança, desviaram minha visão e também meu pensamento da verdade relacionada aos fatos. Eu sei que vou morrer. Depois desta constatação, como poderia continuar buscando por coisas que nada mais são do que símbolos carregados com os nossos medos mais profundos? Prefiro abrir mão. Todo meu tempo e recursos serão destinados a coisas que os olhos não podem cobiçar e as mãos não conseguem segurar. E isso talvez elimine a necessidade de se levantar cercas e muros cada vez mais altos ao meu redor.

Só pesamos quando perdemos. Mas o que foi que perdemos pelo caminho? Com certeza, a nossa capacidade de atenção foi uma delas. Passando o olhar ao meu redor, posso constatar que na maioria das vezes não possuo a força necessária para me livrar do poder das palavras e imagens. Ainda, fico a maior parte do tempo tentando me livrar de coisas que aprendi e conheci.
Nomes, sons, idéias, formas, cores, tudo isso sempre me atrapalhou na hora de colocar na balança o que faz de mim um ser humano, daquilo que me torna apenas mais um verme qualquer. Existem momentos que eu gostaria de simplesmente esquecer.

Espero não perceber o que é realmente importante nesta vida, apenas quando já for tarde demais ou quando ela tomar a força partes importantes de mim. É bem provável que eu e você só teremos tempo para refletir sobre o tempo que já desperdiçamos, no momento em que tivermos de nos confrontar com todo o peso e terror de uma casa vazia. Saber que nunca mais será ouvido o ranger das portas, pode significar que chegamos tarde. E, aí sim, poderemos ostentar aos outros o quão pobre realmente somos.

"Cada um de nós vê nos outros aquilo que carregamos em nosso próprio coração." (Ralph Waldo Emerson)

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Camisa de Força

Podemos dizer, sem exagerar, que a persona é o que alguém na realidade não é, mas o que ele mesmo e os outros pensam que ele é”. (Jung)

Estar consciente é difícil. Aceitar que se é doente também. Mas, raro mesmo, é conseguir enxergar. Estas palavras aparentemente sem sentido, foram escritas no momento em que consegui visualizar o começo desta estúpida batalha, que é travada quase que diariamente entre dois personagens que tentam assumir o controle das minhas ações. Acredito que vivemos dois papéis distintos. Onde muitas vezes ambos se desconhecem. Então resolvi compartilhar com vocês estas estranhas perguntas: Até onde nossos personagens estão conscientes da existência um do outro? Que tipo de personalidade eles nos apresentam? Você deve ser o mediador deste encontro.

Eu vivo uma guerra sem fim. Na minha vida de todo santo dia existem apenas o Personagem e o Não-Personagem. Chamo de Personagem aquele que carrega tudo o que a de mais mentiroso e hipócrita dentro de mim, e que adora mostrar alegremente aos outros uma bela coleção de dentes. O outro é conhecido por Não-Personagem, e cuja presença apenas é sentida minutos antes de dormir. O primeiro deseja se expressar a qualquer custo, e tem em mente que seu amigo não passa de um fraco. Já o segundo, deseja esquecer para sempre todo o conhecimento que adquiriu sobre sua própria existência e viver na mais profunda ilusão. Tanto um quanto o outro são enfermos, e se não assinarem logo um tratado de paz, correm um sério risco de acabarem dentro de uma camisa de força.

Muitos dos que hoje vivem em manicômios não nasceram assim. Eles se tornaram. O mais engraçado de toda esta situação é que muitas vezes deixamos a nossa personalidade mais doente solta pelas ruas, enquanto aquela que possui os sentimentos mais verdadeiros é forçada a passar a maior parte do tempo presa dentro de um quarto forrado por paredes acolchoadas. Porém, seus gritos são como um eco de desespero. É praticamente impossível não ouvi-los. Eles são capazes de atravessar tanto o concreto como a carne. O Não-Personagem possui um canal de comunicação que o Personagem teme profundamente: Os Sonhos.

Eu gostaria muito de ajudar o Não-Personagem a sair daquele lugar, mas parece que o Personagem não perdoa aqueles que apresentam sinais de fraqueza. Ele sabe que existem pessoas que conhecem a existência do Não-Personagem e daquele lugar, e que se conseguirem libertá-lo será o fim da insanidade. Talvez, eu esteja mesmo ficando maluco. Comecei a perceber isso no momento que fiquei amigo destes dois personagens tão parecidos comigo.E, para falar a verdade, até estou começando a gostar desta brincadeira.

“A psique real e verdadeira é o inconsciente, enquanto o consciente só pode ser considerado como um fenômeno temporário”. (Jung)

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

Fora da Lei

“É preferível cultivar o respeito do bem que o respeito pela lei”. (Henry David Thoreau)

Outubro se aproxima. E com ele também as promessas. Chegou a hora de levantarmos cedo e mantermos as coisas como estão por mais quatro anos. E claro que não podemos nos esquecer de ligar a TV e escutar com atenção as propostas de nossos queridos candidatos. Não sei quanto a vocês, mas eu já cansei de toda esta palhaçada. Sempre acreditei num outro tipo de sociedade, muito diferente desta onde as leis não me forcem a lutar contra os outros por um pedaço de pão.

Vocês não podem me comprar. Para uma pessoa que se preocupa com sua própria vida, o mundo da política não é muito diferente de um circo. E tenham em mente que eu nunca gostei muito de palhaços. Mas deixemos as piada para outro dia. Como pode uma pessoa trocar a felicidade de todos por uma cesta básica ou por dois tanques de gasolina? Realmente, não se pode esperar muita coisa de uma pessoa que fica perambulando pelas ruas balançando a bandeira de um partido político ou, ainda por cima, que tem a coragem de colar o rosto de um candidato no vidro de seu carro. Lembre-se: Eles precisam do seu voto.

Pode até parecer irônico, mas eles próprios não desejam muitas mudanças. Não se pode mudar uma estrutura social baseada no medo. As próprias pessoas também não querem. Foram condicionadas a aceitar tudo como está. Desejam viver a vida de seus pais. Se você não fosse tão egoísta e ignorante, não existiria a necessidade de novas estradas ou rodovias. Não é? Se você entendesse que quando aceita aquele cargo de chefe em uma grande empresa ou se prepara para comprar aquele carro dos seus sonhos, está apenas contribuindo para que surjam novos apartamentos por baixo de nossos belos cartões postais. Acredite, nenhum mendigo dá a mínima para estas eleições.

Da próxima vez que lhe convidarem para fazer parte de algum partido político, diga-lhes que você não poderá participar por que está terminando de ler o livro A Desobediência Civil do escritor Henry David Thoreau, e que eles deveriam fazer o mesmo pelo bem de toda a sociedade. E também que prefere passar o resto da vida dentro de uma prisão, há fazer alguma coisa em que não acredite. Utopia? Pode ser. Mas, para infelicidade geral, continuarei sempre vivendo Fora da Lei.

“ O melhor governo é aquele que menos governa(...) e quando estivermos preparados para isso, serei a favor de um governo que não governa”.(Henry David Thoreau)

sexta-feira, 29 de agosto de 2008

Carta a J.R.R.Tolkien

Caro Tolkien,

Espero que me perdoe por demorar tanto em lhe escrever. Nestes últimos tempos andei soterrado de obrigações até o pescoço. Tive dificuldades em encontrar a melhor forma de conversar com o senhor. O que posso falar sobre o Senhor dos Anéis? Sem dúvida é um grande consolo para aqueles que são obrigados a viverem em um mundo decaído. Hoje você possui muitos leitores, mas infelizmente, a maioria é formada por orcs e espectros.

É uma pena que você não possa conhecer este belo vale. Acredito que ficaria encantado. Não sei até quando todo este verde irá resistir. Parece que realmente existe um Sarumam dentro de cada um de nós. Possuímos esta maldita ambição sem limites, que não se importa em destruir de forma rápida e desumana tudo aquilo que a natureza levou tanto tempo para criar. Fico triste em lhe dizer isso, mas o fim dos Ents é praticamente certo. Não que você já não soubesse. Não é necessário usar uma palantír para prever este futuro sombrio.

Chegou o tempo do Ipê amarelo e das ameixas mudarem a paisagem desta cidade (não que alguém se importe com estas coisas!), desviando um pouco o pensamento de coisas ruins como a crescente fumaça vinda de mordor, que não envenena apenas o corpo, mas também a mente de todos. A única coisa que continua me deixando triste é não ter encontrado nenhum elfo nas minhas caminhadas diárias. Parece-me que já faz algum tempo que a sabedoria deixou estas terras em direção aos portos cinzentos. E, não tenha dúvida que se me fosse dado a chance de ir eu não pensaria duas vezes.

O poder do Senhor do Escuro vem crescendo muito nestes últimos tempos. Chega a ser engraçado que ninguém perceba a influência maligna que ele exerce sobre as nossas ações diárias. Corremos de um lado para o outro sem saber que tudo isso é produto de sua vontade. “Homens mortais, fadados ao eterno sono”; no fim não somos mais que isso. Quem possui a força necessária para rejeitar o poder do anel governante? Quem não deseja o poder de dominar os outros? São raros os que conseguem rejeitá-lo por vontade própria.

Ultimamente, tenho ouvido a corneta de Boromir ecoando em meus ouvidos. Esta lembrança sempre enche meu coração de coragem e me faz esquecer por alguns instantes o sibilar das flechas que são lançadas em minha direção. É provável que depois daquela viagem de barco, eu nunca mais volte a ouvir o seu chamado.

Não tenho mais nada a dizer. Mesmo sabendo que esta carta nunca chegara ao seu destino, eu precisava continuar mantendo contato com a Terra-Média. Num tempo onde se perdeu o sentido das coisas, a lembrança do Condado é mais que suficiente para aliviar a dor de ter que carregar um fardo tão pesado.

ps: Não se esqueça de mandar lembranças minhas ao Tom e também a Fruta de Ouro.

“Uma estrela brilha sobre a hora do nosso encontro”

De seu amigo W3

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

Meu Amigo Xamã

“Um amigo é uma pessoa com quem posso ser sincero. Posso pensar na sua frente em voz alta”. (Ralph Waldo Emerson)

Nunca tive muitos amigos. E, fico feliz por isso. Minha mente não permite pensamentos distintos dos meus. Não aceita mediocridade. É preciso ter a coragem de olhar por baixo da máscara, e nunca mais voltar a colocá-la novamente. Não uso os outros para preencher o meu vazio. Para ter o meu respeito e admiração é preciso enxergar a vida de fora do planeta. E isso somente alguém com uma forte ligação com o outro lado pode conseguir.

Como descobri que existe um tipo de amizade que possui um pé em cada lado? Pelo simples fato que não a procuro. Não existe a necessidade de telefones. Nossa amizade não é coisa de criança. Quando for realmente uma coisa necessária, nossos passos acabarão nos levando um na direção do outro. Ambos percebemos o que é realmente importante nesta vida. Começamos a pensar muito antes de buscar as respostas nas prateleiras, e isso acabou com toda a ilusão. Ele e eu sabemos que existe algo além do tempo e espaço.

Não somos filósofos. Somos apenas dois indivíduos que desde cedo buscaram respostas na própria vida. Que por obra do destino tiveram a chance de ter seus caminhos cruzados. Que ouviam através de outras pessoas aquilo que acontecia um com o outro, e que não poderiam fazer nada além de esperar. Sempre soubemos que era necessário que cada qual voltasse do inferno por conta própria.

Este texto é uma homenagem a você meu amigo xamã. Entenda que eu e você não possuímos uma ligação de sangue, mas sim uma ligação com o outro lado. Por mais que na maioria das vezes eu não consiga acreditar na sua feitiçaria ou no seu baralho, sempre vou acreditar que não foi por mero acaso que um dia naquela fábrica de camisas tivemos a chance de nos cumprimentar. Desde então, a vida vem me mostrando que eu devo acreditar naquilo que não possui nome nem forma.


“Deixe as amizades se desenvolverem sozinhas – Deixe que a amizade cresça gradualmente até atingir sua altura; se você apressar o processo, pode ficar logo sem fôlego”. (Bruce Lee)

terça-feira, 12 de agosto de 2008

Inércia

“ A angústia dos acometidos pelo mal da inércia só pode compreender quem já a experimentou alguma vez. Ócio é algo que todo ser humano sonha. O mal da inércia, entretanto, fica longe da agradável sensação de descanso e paz que o ócio proporciona: quem por ele é acometido não consegue agir, por mais que se empenhe. Mente amortecida e visão embaçada, o enfermo debate-se na poça do próprio sangue. Está doente, mas o corpo não apresenta alterações. Batendo a cabeça na parede, sem conseguir recuar ou progredir, preso num vácuo imobilizante, à pessoa sente-se perdida, duvida de si mesma, despreza-se, e por fim chora.”. *

“Buscai o tronco, não vos enganeis

Colhendo folhas, perseguindo galhos

Dez anos passei peregrinando

Dos quais hoje escarneço, e a mim mesmo:

Vestes rotas, sombreiro despedaçado, as portas do zen bati, Quando as leis de Buda são essencialmente tão simples!

Dizem elas: Coma arroz, beba o chá, vista a roupa”.*

* Passagens retiradas do romance Musashi de Eiji Yoshikawa.

domingo, 3 de agosto de 2008

Passo Incerto

Depois de muitas idas e vindas aos hospitais e clínicas da cidade, ainda não consegui encontrar a cura da minha doença. Talvez ela realmente não seja física mas, sim, psicológica. Após caminhar por longas horas através de ruas escuras e pouco movimentadas - sempre buscando respostas que eu já possuía – tive a oportunidade de constatar um fato triste, porém verdadeiro. Já faz algum tempo que todos os meus passos são incertos e que sempre acabo andando em círculos.

Você deve estar se perguntando como cheguei a esta conclusão? Permita-me explicar. Numa certa tarde após o trabalho, fui ter uma conversa descontraída com um amigo sobre as coisas do dia-a-dia. Perto de seu final, resolvi acompanha-lo até perto da sua casa para terminarmos ela. Chegando lá, ele me perguntou se eu gostaria de jantar em sua casa. Respondi que por mim tudo bem e que não fazia diferença para qual lado eu fosse. É verdade que esta resposta saiu de forma inconsciente, mas ela mostrou de forma clara como a minha vida é sem sentido.

Certa vez, uma outra pessoa por quem eu tenho grande admiração me disse algumas palavras que só confirmaram aquilo que eu não queria ouvir e acreditar. Ele me disse que viver da forma como eu vivia era fácil, porque eu não tinha nada de importante para se preocupar, ninguém por quem sentir emoções violentas, nenhum lugar para voltar depois do trabalho, nenhuma meta ou objetivo claro em relação ao futuro. Enfim, uma vida vazia e sem significado. É sempre mais fácil abrir mão de tudo, aquele que não possui nada.

Outro momento marcante foi quando passei uma manhã em um posto de saúde. Quando explicava a doutora quais os meus sintomas, ela me disse que eu precisava começar uma terapia, deveria comer mais e pensar menos. Fui obrigado a rir. Então, perguntei se ela poderia me emprestar uma caneta e um pedaço de papel, e comecei a anotar o endereço do meu blog. “Aqui está a minha terapia”, foi o que lhe disse ao sair do consultório. Olhando para este texto, começo a acreditar que eu devesse mesmo ir.

Tudo isso me fez parar na rua e não conseguir dar mais um passo sequer. Eu sei que existe uma estrada na qual eu posso encontrar a paz, mas para segui-la é preciso ter coragem. Uma estrada que eu só poderei seguir se abandonar a razão para sempre, e não tiver medo de me perder.

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“A felicidade requer ação – Todo mundo é capaz de obter a felicidade, a questão é continuar em frente, ou agir para obtê-la. Essa é a questão”. (Bruce Lee)

segunda-feira, 28 de julho de 2008

O Quarto Branco


Deitado sem o tempo
Que lá fora voa
Quarto branco é cinzento
Quando o sonho se destoa


Talvez tudo não tenha passado realmente de um sonho. Quando olho pela janela, não sei dizer se é realidade ou fantasia porque não existem relógios. No momento que busquei as cores, percebi que há muito tempo só as enxergo em branco e cinza. Sinto que vim parar neste lugar para encontrar uma coisa que fiz questão de perder: a fé.

De esperança vazia
Crente da fraude
De minha cama sozinha
Que não me cura e aplaude


Tudo era branco. O guarda-pó, o lençol, as paredes e também a esperança. Ela veio do céu trazendo consigo as mentiras que são contadas, e quando enxerguei manchas de sangue no chão, fiz questão de espantá-la. Um frasco e um copo de água é tudo do que preciso agora.

Mas preciso também
Do desejo de continuar
Sonhando com algo ou alguém
Que me faça acordar


Com o badalar dos sinos despertei. Então, percebi que estava na sala de espera aguardando minha vez de ser atendido. Muitos naquele lugar tinham estampados em seus rostos às marcas de verdadeiros sofrimentos. E, graças a este sonho, pude perceber que minha doença era o medo do futuro.

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* Os versos em itálico são de Tiago Ribeiro.

sábado, 19 de julho de 2008

A Sombra

“A idéia do suicídio é um potente meio de conforto: com ela superamos muitas noites más.” (Friedrich Nietzsche).

Nestes últimos tempos me aconteceu algo de surpreendente. Voltei a encontrar um lugar tranqüilo onde eu pudesse conversar tranquilamente com a minha própria sombra, sem ser perturbado por compromissos ou outras besteiras. Apenas eu e ela. Mesmo já sabendo o que ela teria para me dizer, precisava resolver esta situação de uma vez por todas. Tinha chegado a hora de lhe devolver a passagem e desfazer as malas.

Num primeiro momento não percebi a sua presença. Mas quando olhei para o lado, lá estava ela sentada. Perguntei o que ela queria. Ela me disse que já estava cansada de falar sozinha, e que se eu não tomasse uma decisão logo, ela procuraria outro para ajudar. Comecei a rir. E, perguntei se ela não estava gostando do lugar e de todo aquele silêncio. Percebi um sorriso. “Até quando?”, foram as palavras que ouvi. “Você sabe que me fará companhia ainda por um longo tempo”, respondi. Neste instante, gargalhadas ecoaram pelo lugar.

Passados alguns instantes, o silêncio voltou a reinar. O único ruído que se ouvia era o das pedras que eu acabava jogando ocasionalmente nas margens do rio. Várias lembranças vindas do passado teimavam em se fazer presentes naquele momento, dizendo-me que não era a primeira vez que eu pensava sobre estas coisas. Desde garoto eu sinto a sua presença ao meu lado. Felizmente, nunca lhe dei muita atenção. Fosse daquela vez que eu estava parado sobre aquela ponte ou quando estava me preparando para atravessar uma rua movimentada. Só de pensar sobre estas idéias, eu já me sentia aliviado. E conseguia a força necessária para voltar para casa. Pensando hoje sobre estes fatos, fico feliz de ter sido sempre um covarde.

Ultimamente, não tenho dormido bem. Minhas mãos tem tremido mais que o normal. Não consigo me livrar deste maldito pessimismo. Começo a acreditar que esta luta não terá fim. Mas também não me importo mais. Faço questão que você venha me visitar sempre que quiser. Pelo menos assim terei com quem jogar conversa fora.

Agora preciso voltar ao trabalho. Antes de você ir, gostaria de lhe dizer que rasguei as passagens. Não preciso mais delas. Não desejo mais conhecer outros lugares. Ficarei por aqui mesmo. Estou fascinado demais por este mistério. Eu sei que daqui para frente será apenas dor e sofrimento. Mas faço questão de sentir tudo isso. “Você me dá pena”, disse ela, quebrando um longo silêncio. Então, respondi-lhe: “Você é realmente uma companhia engraçada!”.

“Na solidão, o solitário devora a si mesmo; na multidão devoram-no inúmeros. Então escolhe.” (Friedrich Nietzsche).

sábado, 12 de julho de 2008

A Fraqueza de Siegfried

“Há sempre alguma loucura no amor. Mas há sempre um pouco de razão na loucura.”( Friedrich Nietzsche)

Poucas histórias são mais comoventes e surpreendentes que aquela que é contada na Canção dos Nibelungos. Nela, nos é mostrado até onde pode chegar uma mulher em sua busca desesperada por vingança. Neste conto é reforçado aquilo que os livros de história nos relatam sobre a fraqueza de muitos guerreiros que encontraram na beleza e encantos de uma mulher sua própria destruição. Cuidado! Ninguém pode saber o que se esconde por trás de toda esta fragilidade.

Siegfried foi o maior herói das lendas germânicas. Sua coragem e audácia o levaram a conquistar tesouros e glórias por onde fosse. Porém, nada conseguia preencher o vazio que o atormentava dia após dia. Seu pensamento estava voltado na direção de uma princesa chamada Kriemhild, que ele nunca havia visto. Ela era protegida por guerreiros terríveis. E, nas mãos de um deles, Siegfried encontraria seu destino final. O fim dos heróis ou do mais simples dos homens é sempre o mesmo.

Mas qual era realmente a sua fraqueza? Com certeza não estamos falando da folha que caiu em suas costas no momento em que este se banhava no sangue do dragão - isso foi apenas uma conseqüência. Mas, sim, naquele instante de loucura e desespero (ou será de fraqueza?) no qual ele tinha que revelar seu segredo a sua querida princesa, que era para ele mais importante que sua própria vida. A partir daquele momento, ela em seu excessivo temor de perdê-lo em um campo de batalha atravessado por uma lança, confiou seu segredo há seu vassalo Hagen para que este o protegesse. Ele atraiu Siegfried para uma armadilha, e traiçoeiramente matou o poderoso herói. Porque sempre temos de revelar aos outros todos os nossos segredos?

As lágrimas de Kriemhild nunca mais secaram. Ela jurou se vingar de todos os que lhe haviam roubado sua felicidade. Mesmo que estes sejam seus próprios irmãos. Todos deveriam partilhar de sua dor. Então, no auge de sua loucura, aceita se casar com um rei pagão não por amor, mas sim por este possuir o maior exército de seu tempo. Convida seus familiares para uma celebração, corrompendo inúmeros cavaleiros com ouro e outras promessas para que estes se livrassem de Hagen e de seus sofrimentos. E, por fim tenta atear fogo no salão com todos eles ainda dentro.

Irmãos lutando contra irmãos; amigos lutando contra amigos; juramentos desfeitos; promessas quebradas; escudos rachados; espadas trincadas; corpos espalhados pelo chão; reinos destruídos, tudo se desfez através de um simples gesto desta donzela. Ninguém conseguiu resistir aos seus encantos. Ninguém pode lhe dizer não. Nenhum homem chegou tão longe.

No final ela conseguiu realizar seus intentos. Nenhum de seus parentes voltou daquela celebração com vida. Finalmente ela conseguiu vingar o herói dos nibelungos. Infelizmente, pagou um preço caro por sua devoção. Teve seu ventre trespassado pela lâmina de uma espada. E, talvez seja esta a tragédia de todos aqueles que caminham por esta terra. Morrer de mãos dadas com a loucura.


“Na vingança e no amor, a mulher é mais bárbara que o homem”. (Friedrich Nietzsche)

sábado, 5 de julho de 2008

Mente de Barro

“Escravos de padrões – Quem não quer ser perturbado, se sentir inseguro, estabelece um padrão de conduta, de pensamento, um padrão de relacionamento com os homens etc. Depois se torna escravo do padrão, e aplica o padrão à realidade.” (Bruce Lee)

Muitas vezes me perguntei se as pessoas percebem o seu próprio condicionamento. Fico imaginando se elas têm consciência de que todos os seus problemas têm origem nas influências externas que recebem diariamente desde o nascimento. Sendo a realidade, um reflexo do que se passa dentro de nós. O perigo que representa uma mente que aceita padrões estabelecidos pode ser a resposta que buscamos para explicar este mundo de mediocridade e imitação.

Porque não lutamos para transformar este mundo num lugar diferente?
Porque deixamos que a nossa mente seja moldada tão facilmente?

A natureza nunca se repete. Eles precisam entender de uma vez por todas que eu não sou um pedaço de barro qualquer que eles podem moldar da maneira que bem entenderem. Muito menos uma peça acabada que é colocada na vitrine de uma loja. Estarei sempre atuando nas sombras, sabotando seus planos. Terão de aceitar que sou um de seus inimigos, e que nunca haverá trégua entre nós.

Eu sei que vocês me estudam. Eu sinto fome, frio, sono, medo e desespero. Tudo isso vocês já sabem. E mesmo assim possuem a coragem de usar todas estas minhas fraquezas para me aprisionarem em uma prisão de tijolos junto com a minha doença. Uma doença que eu mesmo ajudei a criar.

Realmente me sinto morto. Morto para tudo aquilo que aprendi. Morto para viver na divisão. Morto para viver a vida dos outros. Morto para seguir roteiros. Morto para acreditar em sorrisos cheios de dentes. Porém, não me sinto morto para duvidar de mim e de vocês.

Que a guerra comece! Lutemos contra todas as influências externas. Digamos adeus à tirania da família, do chefe, de deus, dos túmulos, dos professores, dos vizinhos, da máquina do estado, da mídia e do medo. Mostremos que agora somos emancipados. Que somos como barqueiros sem porto seguro. Que não seguimos ninguém, mesmo que isso seja dizer adeus.

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“Renove-se a cada segundo – Nós vivemos de acordo com clichês, segundo comportamentos padronizados. Estamos sempre fazendo o mesmo papel. Aumentar o seu potencial é viver e renovar-se a cada segundo.” (Bruce Lee)

sábado, 28 de junho de 2008

A Lâmina Budista: Parte II

"A necessidade de se lembrar: A lembrança é o único paraíso do qual não podemos ser expulsos. O prazer é a flor que fenece, a lembrança é o duradouro perfume. Lembranças duram mais do que realidades presentes. Já preservei flores por muitos anos, mas frutos, jamais." (Bruce Lee)

Não esperava ter que voltar a falar sobre este assunto tão cedo. Mas a morte voltou a ser lembrada e, junto com ela, também a sua relação com o budismo. Desta vez, sua presença se fez sentida em sua forma mais terrível e assustadora: sem avisar. Percebi que talvez nunca estejamos totalmente preparados para a sua chegada. Sabendo que as lembranças são as únicas coisas que permanecem nesta vida, só me resta escrever sobre elas.

Aqui relatei o episódio que aconteceu com o irmão mais velho de um amigo meu. Agora a sombra da morte também levou seu pai. Ele era um homem simples e de bom coração, com quem eu sempre acabava cruzando pelas ruas. No dia anterior ainda o tinha visto voltando tranqüilamente do mercado com suas compras. Olhando para ele naquele momento, nunca passaria pela minha cabeça que aquela seria a última vez em que iríamos nos cumprimentar.

Eu não estava em casa naquele momento. Estava longe dali, despreocupado e em meio a muitas risadas. Ele estava assistindo televisão e de repente começou a passar mal. Pouco tempo depois já havia falecido. Com a chegada da madrugada, meu irmão e eu conversamos por um longo tempo a respeito desta coisa chamada morte. Qual o assunto principal desta conversa? A grande diferença que existe entre enxergá-la com os próprios olhos e apenas falar sobre ela. Ter presenciado os últimos momentos de um ser humano deixou marcas profundas no meu irmão.

Perguntávamos-nos a nós mesmos se estaríamos preparados para enfrentar uma situação como aquela. Respondi-lhe que talvez nunca estejamos. Que a nossa hora de sermos testados ainda não havia chegado. Que a dor destas pessoas não era a nossa, e que nenhuma palavra de consolo poderia mudar as coisas. Acredito que a melhor coisa a fazer nestas horas é deixar as pessoas sozinhas com suas lembranças. Mesmo que estas lembranças sejam como segurar a lâmina pela própria lâmina.

Eu não vou a enterros. Espero que me perdoem. Não suporto obrigações sociais. Não são ações verdadeiras. Minha homenagem às pessoas eu presto em vida. Prefiro deixar toda a mágoa e rancor nesta terra, e assim não terei o que temer. Olharei nos olhos delas da forma mais sincera que puder, e isto será o máximo que lhes poderei oferecer.

“Viva, deixe viver e ajude a viver.” (Ralph Waldo Emerson).

sábado, 21 de junho de 2008

Palavras Duras

“A Verdade não traz consolos e eu falo somente da Verdade” (Krishnamurti)

Lembro-me como se fosse hoje. Estava andando sem rumo pelas calçadas da vida, quando alguma coisa me atraiu para dentro de um sebo. Nunca entendi ao certo o motivo. Até então, nunca tive nenhum contato com livros ou a filosofia. Pelo que me lembro, não tinha a intenção de comprar nada, mas ao passar os olhos pelas estantes alguma coisa prendeu minha atenção. Era um pequeno volume chamado “O futuro da humanidade”, de um pensador indiano chamado Krishnamurti. Sem imaginar que este momento me mudaria para sempre, sentei-me e comecei a ler.

O livro nada mais era do que uma conversa entre dois velhos amigos. Neste encontro, eles falavam a respeito da mente e a origem do sofrimento humano. Foi a forma como faziam isso que mais me impressionou. Não eram respostas prontas. Para acompanhá-los eu deveria deixar tudo aquilo que me ensinaram em casa e ouvir. Percebi que tudo aquilo era muito mais do que uma simples conversa. Senti que eu era o alvo daquelas palavras.

Uma passagem daquele diálogo me pegou pelo pescoço. Era contado o encontro de Krishnamurti e um jovem físico britânico, onde foram jogadas no ar as seguintes palavras: “Antes de você ser um Físico, você é um ser humano”; aquilo foi como um tapa na cara. Neste momento eu passava pelo mesmo problema. Tinha vários caminhos abertos pela frente. Porém, não conseguia mais dar um passo sequer. O que eu tinha perdido pelo caminho? Com certeza o mais importante.

Eu sempre quis ser um jornalista. Acreditava no valor de ser uma ponte entre o conhecimento e as pessoas. Você entende? Fazer uma coisa que valesse a pena. Deixar o resto temporariamente de lado e prestar a atenção nas coisas que eram jogadas ao vento e que eram necessárias naquele momento. Era preciso conhecer o lado de lá.

Sinto que estou mais preparado para minha missão. Cada dia tem sido um aprendizado. A claridade só pode iluminar algum ambiente se houver alguma fresta disponível. Antigamente eu amaldiçoava todas estas coisas que cruzavam meu caminho, pelo simples fato de não conseguir acreditar. Hoje não. Fico feliz por ter sido alertado há tempo. Sempre me lembrarei destas palavras duras, porém verdadeiras: “Antes de você ser um Jornalista, você é um Ser Humano”.

“Deixar a sabedoria para trás e ingressar novamente na humanidade comum. Depois de compreender o outro lado, você volta e vive do lado de cá”. (Bruce Lee)

sábado, 14 de junho de 2008

Meu Querido Soma

“O mundo agora é estável. As pessoas são felizes, têm o que desejam e nunca desejam o que não podem ter. Sentem-se bem, estão em segurança; nunca adoecem; não tem medo da morte; vivem na ditosa ignorância da paixão e da velhice, não tem esposas, nem filhos, nem amantes, por quem possam sofrer emoções violentas; são condicionadas de tal modo que praticamente não podem deixar de se portar como devem. E se acaso alguma coisa andar mal, há o soma”. *

Como posso fugir dele? Para qualquer lado que me viro lá está ele se espreitando sorrateiramente entre as sombras, aguardando apenas um momento de fraqueza para me dominar por inteiro. Não sei até quando poderei resistir. Ele está no alto dos prédios, dentro das casas, nas vitrines, nos meus sonhos, em cada rosto e em cada sorriso, sempre me dizendo que sofrer desse jeito é bobagem. Basta apenas que eu aceite a sua ajuda para nunca mais ter de viver toda esta miséria. Eu nunca quis este Admirável Mundo Novo. Eu nunca quis o Soma e sua “Felicidade”. Eu realmente estou cansado destas fugas.

São poucos os que percebem o seu próprio condicionamento. Sempre fui programado para aceitar as coisas a minha volta como verdades absolutas, que foram criadas para o bem estar geral da sociedade. Dúvidas não são bem vindas nestes tempos modernos. Você precisa ser a engrenagem que faz a máquina funcionar. Se alguém parar para pensar, ela pode parar. E, eles não deixarão isso acontecer. Peças para reposição nunca faltarão. É preciso que aconteça alguma coisa de errado no processo para que se possa perceber a própria tragédia. Chega de hipnose.

Não quero que meu destino seja decidido em um laboratório. Qual a real finalidade de eu ter uma vida prolongada? Sofrer mais? Consumir mais Soma? Façam o favor de afastar estas coisas de perto de mim. Se o preço a pagar por uma sociedade estabilizada e segura for o sacrifício da individualidade, então, é melhor voltarmos ao primitivo, ao selvagem. Hoje, já temos exércitos de clones andando pelas ruas. Criaturas que vivem apenas para obedecer e seguir ordens. Espero não ser convocado para esta guerra.

Vivemos em um mundo descartável. Fomos moldados a acreditar que qualquer coisa que nos incomoda pode ser jogada fora ou simplesmente trocada por outra inteiramente nova. Não importa se são pessoas, objetos, emoções, tudo pode ser esquecido através do Soma. Ele se encarregará de nos mostrar formas de fugirmos de nossos medos mais profundos. Para isso, basta apenas apertar um mísero botão e tudo se resolve. Nada mais simples e eficiente.

Acabo de receber minha ração diária de Soma. Confesso que não posso mais passar sem ela. Ultimamente, as fugas se tornaram cada vez mais freqüentes. Muitas vezes me pego com os sentidos desprotegidos, e acabo sendo levado pelo canto da sereia. Espero um dia ter a força de vontade de jogar tudo isso fora e ser livre. Mas até esse dia... Onde foi que eu coloquei meu frasco de Soma?

“E esse é o segredo da felicidade e da virtude: amarmos o que somos obrigados a fazer. Tal é a finalidade de todo condicionamento: fazer as pessoas amarem o destino social de que não podem escapar” *.

* Passagens retiradas do Romance Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley.

domingo, 1 de junho de 2008

Monstro Urbano

“Insensível criador! Dotara-me de um cérebro e um coração, de percepções e paixões, e me deixara ao léu, alvo do escárnio e da perseguirão da humanidade” *

Temos muito em comum com o monstro criado pelo Dr. Frankenstein. Uma criatura que tomou consciência da sua própria existência e percebeu o real significado da palavra solidão. Invadido por sentimentos até então desconhecidos como: medo, tristeza, solidão e desespero, ele busca respostas junto ao convívio social, mas acaba sempre encontrando as portas fechadas. Então, jura se vingar do seu criador e de todos ao seu redor.

Quantas criaturas semelhantes não estão escondidas em nossas grandes cidades? Quem nunca teve dúvidas quanto a sua própria vida? A sociedade é o berço de inúmeros destes monstros.

Quando uma pessoa toma consciência de si, surgem perguntas que não possuem respostas. De onde eu vim? O que sou eu? Quem sou eu? Qual o meu destino? Todas estas indagações foram feitas pela criatura ao seu criador, e são iguais as que fazemos a nós mesmos em nossos quartos. Não existe diferença se você vive em uma casa cheia de pessoas ou em alguma geleira no Ártico, a sensação é sempre a mesma. O problema só aumenta quando estas perguntas aparecem em meio a arranha-céus e ruas movimentadas. Todo monstro urbano sofre com estas interrogações.

Sem respostas vindas das nuvens, só nos resta o consolo dos livros. Os pensamentos contidos nos livros falam aquilo que há muito tempo trazíamos presos na garganta, e que não encontrávamos as palavras certas para serem expressas. Sempre temos a sensação de elas foram escritas por nossas próprias mãos. O monstro encontrou por acaso (se é que realmente pudesse ter sido por acaso) dois livros que eram eles: Os Sofrimentos do Jovem Werther e o Paraíso Perdido. No primeiro ele encontrou uma luz sobre as suas próprias reflexões. Já no outro, viu na figura de Satã um retrato pintado de si, onde era mostrada da mesma forma toda a inveja que ele sentia por aqueles que eram felizes e aceitos. Sempre usamos os livros como um tipo de bálsamo para nos aliviar, mas na maioria das vezes ele só agrava ainda mais a doença.

Nossos olhos sempre entregam o que se passa dentro de nós. Ele era um ser com mais de dois metros e meio de altura; pele amarelada; músculos e artérias expostas; cicatrizes espalhadas por todo corpo; uma experiência mal sucedida que viu tudo isso refletido em uma poça de água. Quando enxergou com os próprios olhos sua imagem refletida, foi esmagado pela angústia. É o mesmo que acontece quando estamos frente a frente com o espelho em nossas casas. Infelizmente, não existe espelho que reflita o monstro que existe dentro de nós. Às vezes, fico me perguntando quem era realmente o monstro desta história.

Neste momento, todos os excluídos, tanto economicamente quanto psicologicamente, estão tramando sua vingança contra o seu criador e toda a sociedade em geral. Sentem que foram abandonados e rejeitados. Querem fazer parte da festa social. E, não pensarão duas vezes em matar por um pouco de atenção.

“Se não posso inspirar amor, causarei medo, e principalmente a você, meu arquiinimigo, que por ser meu criador, juro odiar sem trégua. Esteja atento para isto: Trabalharei por sua destruição e não descansarei até que tenha esfacelado seu coração de tal modo que você amaldiçoará o dia que nasceu”.*


* Passagens retiradas do romance Frankenstein de Mary Shelley.

sábado, 24 de maio de 2008

Vida Simples

“A pessoa realizada busca a liberdade e a pureza - Quem não confia na força inspiradora que há dentro de si, ou quem não a tem, é levado a buscar substitutivos como o dinheiro para compensar. Quando um homem tem confiança em si mesmo, quando só quer viver o seu destino em liberdade e pureza, começa a considerar todos os bens dispendiosos demais e claramente superestimados, como meros acessórios, talvez agradáveis de se ter e de usar, porém jamais essenciais”. (Bruce Lee)


Nestes últimos tempos tenho pensado no valor de uma vida simples e verdadeira. Numa vida sem tantas preocupações e compromissos. Onde eu possa olhar nos olhos das outras pessoas sem ter de esconder falsas intenções. Pode até parecer bobagem, mas estou cada vez mais convicto no valor de uma vida com menos. Uma vida com menos por fora e mais por dentro. E, pode ter certeza que é assim que vai ser daqui para frente.

Por que preciso de tantas coisas? A minha vida não é uma mercadoria que pode ser trocada por comida. Ainda não vendi a minha alma; nem me lembro de ter assinado nenhum tipo de contrato. Não sou nenhum fantoche nas mãos de pessoas ignorantes e ambiciosas que vivem apenas para explorar os outros. Desejo a liberdade de me deslocar para um lugar tranqüilo onde eu possa pensar em paz, sem que ninguém desconfie que tenha a intenção de roubar a casa de alguém. Que eles contratem cada vez mais seguranças para protegerem seus preciosos tesouros. Não me importo mais. A natureza me ensinou que frutos muito tempo guardados só podem vir a apodrecer. Quanto mais nos preocupamos com os acessórios que trazemos junto ao corpo, menos enxergamos a beleza ao nosso redor.

Palavras serão sempre meios pobres para descrever algumas coisas deste mundo. Há algum tempo criei o hábito de ficar observando a paisagem a minha volta, tentando me livrar dos meus pensamentos. Porém, ao ver crianças jogando futebol com seus uniformes em uma praça pública, tudo passou a ter outro significado. Seja uma criança indo para escola levando sua mochila; a preocupação estampada no rosto de uma mãe com seus filhos; um idoso sentado em um banco de praça; o surpreendente encontro com uma coruja em uma noite estrelada. Não faz diferença. Todas estas coisas aparentemente ridículas me ensinaram que a beleza da vida não pode ser encontrada num dia de folga passeando ao shopping ou em alguma viagem de férias para outra cidade. Mas somente quando nasce aquele sentimento de admiração e respeito pelas coisas que não foram criadas pelo homem.

O desejo de uma vida com menos nasce da inteligência. Da confiança nas leis da natureza. No eterno viver e morrer que é a nossa vida. O nosso tempo passa muito rápido para se perder com brinquedos.

Espero encontrar novamente aquela velha coruja. Talvez ela possa dar alguns bons conselhos para um jovem que se tornou velho rápido demais.

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“Uma vida simples é de plenitude, em que o lucro é descartado, a esperteza é abandonada, o egoísmo é eliminado e o desejo é reduzido. Esta vida de perfeição parece ser incompleta, e a vida plena parece vazia. É uma vida brilhante como a luz, mas que não ofusca. Em resumo, é uma vida de harmonia, unidade, contentamento, tranqüilidade, constância, esclarecimento, paz, e uma vida longa”. (Bruce Lee)

domingo, 18 de maio de 2008

Consolo

“Renunciai á vossa pretensa cultura,
E todos os problemas se resolvem,
Oh!Quão pequena parece à diferença
Entre o sim e o não!
Quão exíguo o critério
Entre o bem e o mal!
Como é tolo não respeitar
O que merece ser respeitado de todos!
Ó solidão que me envolve todo!
Todo o mundo vive em prazeres
Como se a vida fosse uma festa sem fim,
Como se todos sorrissem em perene primavera!
Somente eu estou só...
Somente eu não sei o que farei...
Sou como uma criança que desconhece sorriso.
Sou como um foragido
Sem pátria nem lar...
Todos vivem na abundância,
Somente eu não tenho nada...
Sou um ingênuo, um tolo...
É mesmo para desesperar...
Alegres e sorridentes andam os outros!
Deprimido e acabrunhado ando eu...
Circunspectos são eles, cheios de iniciativa!
Em mim tudo jaz morto.
Inquieto, como as ondas do mar,
Assim ando eu pelo mundo...
A vida me lança de cá para lá,
Como se eu fosse uma folha seca...
A vida dos outros tem um sentido,
Eu não tenho uma razão de ser...
Somente a minha vida parece vazia e inútil;
Somente eu sou diferente de todos os outros-
E, no entanto – sossega meu coração!
Tu vives no seio da mãe do Universo.”(Lao Tsé)”.


Realmente, tudo isso não passa de consolo.

terça-feira, 29 de abril de 2008

A Falta de Heróis

"O heroísmo sente, nunca raciocina, e por este motivo sempre está certo”. (Ralph Waldo Emerson)

As pessoas precisam de heróis. Após assistir ao último filme do Rocky Balboa (é verdade, sou fã declarado), perguntei-me ainda se existem heróis nos dias atuais. E também, se toda essa onda de inveja e imitação que vivemos hoje, não seja causada pela falta de exemplos de coragem e perseverança. Perguntas estas,que tem uma profunda ligação com a nossa falta de rumo na vida.

Todos nós desistimos muito fácil das coisas. Começamos bem, mas sempre deixamos de ter confiança em nós mesmos. Nesses filmes o que não falta é força de vontade. Nos indentificamos tanto com esse tipo de filme, porque ele nos faz sentir que é possível superar até nossas próprias fraquezas. Que o homem comum – que conhece suas limitações – também pode vencer.

Os verdadeiros heróis não são esquecidos. Os que mais necessitam de heróis são as crianças. Precisam daqueles que os incentivem com seus feitos e suas palavras de bravura. Que as façam sonharem. Hoje, porém, nossa sociedade diz que todos devem ser iguais; que devem parar de sonhar e viverem mais na realidade. Sem crianças não há futuro, e sem heróis não há crianças.

O que sempre me causou fascínio na figura do Rocky Balboa foi o seu jeito primitivo. Ele não se deixou contaminar por aquilo que os outros pensariam ou falariam dele. Seguia apenas o seu coração. Não importava quantas vezes ele fosse ao chão, lá estava ele novamente de pé. Os chamados “Heróis” de hoje em dia não aguentariam nem o primeiro soco.

Nestes últimos tempos perdi a confiança em mim mesmo. Estava me sentindo um lixo. Deixei a guarda aberta e muitas dúvidas quase me colocaram a nocaute. E, nesse mesmo dia, ligo a TV e começo a assistir ao filme. Confesso, que cheguei a ter vergonha de mim mesmo. Então lembrei da importância de todos terem algum exemplo de vida, no qual possam se orgulhar e que faça com que todos nós possamos superar as dificuldades que sempre aparecem em nosso caminho.

Nenhum herói é perfeito. Pode ser ele um amigo, pai, irmão ou um desconhecido, não importa. O que realmente importa é ter alguém em quem se espelhar, e não perder aquele “Eye of the Tiger” ou “Burning Heart”, porque aí sim, não teremos mais histórias para ouvir.

"A derrota é um estado da mente: ninguém jamais é derrotado até que a derrota seja aceita como uma realidade”. (Bruce Lee)

sábado, 26 de abril de 2008

Ilha deserta

"Qual é a tarefa mais difícil do mundo? Pensar.” (Ralph Waldo Emerson)

Ultimamente, venho me questionando se tenho vivido da maneira correta. Se as coisas em que sempre acreditei não são apenas perda de tempo. Olho ao meu redor e vejo tudo e todos mudando constantemente enquanto eu pareço ter parado no tempo. Dizem que a vida é feita de escolhas. Apenas espero que se “conformar” não seja uma delas.

Acredito no poder dos livros para mudar as pessoas. Nunca entendi porque certos livros cruzaram o meu caminho e exerceram uma influência tão poderosa sobre a minha mente. Sei que parar e pensar sobre as coisas da nossa própria vida pode nos afastar do convívio social e acabar fazendo a gente ter como única companhia: a solidão. Nunca é fácil conversar com os que já se foram.

Os primeiros a sofrerem com as escolhas que fazemos são os nossos familiares. Eles tinham tantos planos em relação a nós, que nossa repentina mudança mudou tudo para sempre. Acabamos destruindo todos os sonhos que eles não conseguiram realizar em suas vidas. Ver a tristeza nos olhos deles é capaz de nos fazer desistir de tudo e optar pelo um caminho mais fácil. É sempre triste ver castelos de areias sendo levados pelas ondas.

Eu tenho coragem de mudar as coisas ao meu redor. Mesmo se tiver de ir de encontro com aqueles que têm medo de ser aquilo que são. Espero viver sempre em constante conflito para que eu me lembre de que não posso me conformar. Desejo viver a minha vida de forma criativa. Nunca aceitei padrões. Não aceito mais viver sem pensar.

Não consigo acreditar no destino. Tenho convicção que tudo o que me acontecer daqui para frente será de inteira responsabilidade minha. Não julgo ninguém. Espero que todos me perdoem. Sinto que estou preparado para tudo o que pode me acontecer no futuro. Mesmo se tiver de abandonar minha própria ilha.

Não devo ter vergonha em dizer que deixei muita coisa de lado. Excesso de bagagem nunca me agradou. Bens materiais sempre estiveram em segundo plano para mim. As pessoas sempre foram o principal. Só com o tempo vou saber se tudo foi em vão ou não.

“Viva contente com poucos recursos; prefira a elegância ao luxo, o refinamento aos modismos. Seja honrado, não respeitável; profuso, não rico; estude bastante, pense em silêncio, fale delicadamente, aja com franqueza; reaja a tudo com alegria, faça tudo com bravura, aguarde a ocasião, nunca se apresse. Em suma, deixe o espiritual, espontâneo e inconsciente crescer através das coisas comuns.” (Bruce Lee)

quarta-feira, 23 de abril de 2008

Silêncio Verde

“Fui à floresta viver de livre vontade, para sugar o tutano da vida. Aniquilar tudo o que não era vida. Para, quando morrer, não descobrir que não vivi.” (Henry David Thoreau)

Eu gosto de andar a pé. Isso me traz uma importante sensação de liberdade e solidão. Ambas necessárias para não enlouquecer. Os rumos destas caminhadas sempre são incertos, mesmo que na maioria das vezes, seja eu conduzido a lugares mais isolados. Necessito de espaço para ouvir meus próprios pensamentos e, infelizmente, estes lugares estão deixando de existir.

Trocamos o verde pelo cinza; o silêncio pelo barulho. Aprendemos a apreciar o gosto da poluição. Aceitamos trocar nossa liberdade por uma prisão de pedras. Nada me deixa mais doente do que olhar pela minha janela e perceber que árvores que estavam lá muito antes de eu nascer, agora dão lugar às casas e prédios comerciais. Para onde elas terão ido?

Não desejo que minha vida seja conduzida por um carro. Hoje, nossa mente está voltada somente para quais vantagens vamos obter com a exploração dos recursos naturais. Acredito que ninguém nunca se incomodou com certas placas de “vende-se” espalhadas pela cidade. Áreas verdes uma vez destruídas, nunca mais deixam de ser cinza. A fome do capitalismo não tem limite.

Quando foi a útima vez que ouvimos o barulho do rio Itajai-Açu? Com o nosso afatamento das coisas da natureza, perdemos também a chance de aprendermos muito ao nosso próprio respeito. Fico feliz de ter encontrado um remédio tão eficaz para o mal que sempre me assola. E fico mais feliz ainda, em saber que não posso encontrá-lo em nenhuma farmácia.

Para finalizar, gostaria de agradecer a uma velha árvore que sempre teve paciência em me ouvir nos meus momentos de loucura. E, tenho certeza que em breve novas visitas irão acontecer.

“Cada pôr-do-sol que vejo me inspira o desejo de partir para um oeste tão distante e belo quanto aquele onde o sol sumiu.” (Henry David Thoreau)

* Citações retiradas do livro “Caminhando”

terça-feira, 15 de abril de 2008

Tempo Ilusório

“Os homens assemelham-se a relógios a que se dá corda e trabalham sem saber a razão. E sempre que um homem vem a este mundo, o relógio da vida humana recebe corda novamente, para repetir, mais uma vez, o velho e gasto estribilho da eterna caixa de música, frase por frase, com variações imperceptíveis." (Arthur Schopenhauer)

Para pensar sobre o tempo é preciso ter tempo. E talvez esteja aí, a nossa maior tragédia. São tantos os problemas que temos de enfrentar diariamente, que não nos resta energia para refletir sobre este assunto. Acreditamos estar vivendo da forma correta, mesmo sentindo um grande desconforto com tudo isso. Talvez esteja na hora de vivermos um pouco fora do tempo. Esquecer o relógio de vez em quando pode nos fazer um grande bem.

Trazemos todo nosso tempo preso ao pulso. E a cada dia, temos a impressão de ele estar nos apertando mais. Somos escravos dos ponteiros desde a hora que levantamos até o momento em que vamos dormir. Nunca passou pela nossa cabeça que tudo isto esteja errado. Nossos atos não são mais espontâneos; agora somos como robôs autônomos que vivem exclusivamente para o trabalho. Lembre-se, tempo é dinheiro.

A sociedade nos estuda profundamente. Ela conhece os nossos medos mais profundos. E um deles é o tédio. Só temos a real noção do tempo quando não estamos soterrados de obrigações até o pescoço. Na hora que o telefone deixa de tocar, começa o nosso desespero. Sentimos-nos abandonados. O tempo se arrasta. Andamos de um lado para outro, sempre buscando alguma coisa para fazer, que de preferência, nos possibilite um esquecimento completo daquilo que realmente somos. Nessa hora, o silêncio é insuportável.

Porque coloco em dúvida o tempo que conhecemos? Pelo simples fato de que não tenho mais pressa para resolver estes problemas tão complicados. Eu tenho todo o tempo do mundo para pensar. Não corro mais atrás dos sonhos dos outros. Onde o homem não se faz presente, o tempo não é um problema. As crianças não conhecem o tempo. E, parece que deixamos de pensar como crianças há muitos anos.

O tempo não existe fora do planeta. Tanto o relógio cronológico, quanto o calendário, foram criações feitas pelo homem. Não passam de ilusões criadas pela nossa mente, e confirmadas pela nossa inércia. Tudo o que o homem faz contra a sua própria natureza só lhe deixa cada vez mais doente. Nenhum animal consegue sobreviver muito tempo em uma jaula, ainda mais se esta for criada por ele mesmo.

Porque os astronautas dizem que o homem muda para sempre quando enxerga a Terra do espaço? Talvez seja porque lá, o tempo não tenha tanta importância.

quinta-feira, 10 de abril de 2008

Amizades de Vidro

“A verdadeira amizade requer como condição a habilidade de ficar sem ela”. (Ralph Waldo Emerson)

Chegou o momento de falar sobre a amizade. Um assunto que causa tantas alegrias e discórdias entre as pessoas. E, é claro, que eu não poderia deixar de dar a minha visão sobre este assunto tão delicado. Acredito ser um momento oportuno para falar sobre este tema, até porque, estas relações estão se tornando cada vez mais frágeis.

No mundo louco onde vivemos, hoje, buscamos a todo custo desenvolver amizades verdadeiras. Esperamos encontrar nas outras pessoas o consolo para nossa vida sem significado e alegria. Chegamos a acreditar que seremos acolhidos de braços abertos pela sociedade, e que não teremos mais de enfrentar a terrível solidão. Amarga ilusão. Sempre acabamos estragando tudo, seja com nossas ações impensadas ou com as palavras que escapam de nossas bocas. A sociedade não tem interesse em amigos, apenas colegas. Ela deseja exclusividade sobre nossas mentes. Na realidade, apenas usamos as pessoas.

São poucos os indivíduos verdadeiros. A maioria não passa de fachada. É impossível sustentar amizades baseadas em segundas intenções ou na utilidade, elas apenas são possíveis quando não existem mais interesses envolvidos. Quando as coisas externas adquirem um valor maior do que a personalidade, qualquer problema é capaz de fazer essa amizade se despedaçar em mil pedaços. E uma vez quebrada, não se pode colar novamente. Sempre se percebem as rachaduras.

Não devemos perder nosso tempo com pessoas vazias, sem conteúdo, que não sejam um desafio para nós. Desse tipo de gente, o mundo está cheio. Porém, encontrar aqueles que suportem ouvir a verdade quando necessária é difícil. E se no fundo não passam apenas de cópias, então devem ser ignoradas para seu próprio bem.

As pessoas pensam que um amigo precisa estar disposto a escutar seus problemas, conhecer seu passado. Muito pelo contrário. As verdadeiras amizades preferem não ter que carregar este fardo tão pesado, porque sabem que suas relações são inconstantes e podem deixar de existir de uma hora para outra. Podem precisar usar nossos segredos contra nós. E isso, acaba nos tornando reféns de nossas próprias fraquezas.

Prefiro ter um verdadeiro inimigo a estar rodeado de falsos amigos. É uma relação baseada na competição e admiração. Onde não são necessários elogios, nem críticas. O silêncio será a única regra. O túmulo não os assustará. Crenças e leis não terão valor algum, acreditarão somente naquilo que trazem dentro do peito. Ambos sabem que o único consolo nesta vida é a oportunidade de lutarem juntos. E isso lhes é suficiente.

Talvez seja loucura, mas só encontraremos a verdadeira amizade quando deixarmos de buscá-la.

“Em uma época falsa, para estabelecer relações sinceras com os homens, não é necessário um surto de insanidade?”. (Ralph Waldo Emerson)