sexta-feira, 11 de setembro de 2015

ALMA DE SAMURAI



A educação por uma vida sustentável estimula tanto o entendimento intelectual da ecologia como cria vínculos emocionais com a natureza (Fritjof Capra).
Deixando a horta com as mãos ainda cobertas de lama, o professor Issamu aproximou-se da torneira e as lavou rapidamente. Naqueles tempos, onde a escassez de água havia se tornado uma realidade dos grandes centros urbanos, desperdiçá-la ia contra seu código de honra pessoal e contradizia aquilo que ensinava em sala de aula. Atravessando o corredor às pressas, pôde perceber a escola toda decorada e o cheiro das mudas aguçando seus sentidos. Era uma satisfação indescritível perceber que tanto a macieira, quanto a laranjeira e a jabuticabeira, todas enfileiradas lado a lado, cultivadas em conjunto com seus alunos, agora iriam dividir espaço com pedestres e ciclistas. Era o dia mundial do meio ambiente e sentia-se esperançoso em relação ao futuro.
Fechando a porta às suas costas, Issamu posicionou-se à frente dos pais e alunos. Puxando uma cadeira para perto dos presentes, sentou-se e disse: — Agradeço a presença de todos. Desculpem pelo incômodo e por tirá-los de suas atividades profissionais, mas acredito ser hoje uma data muito importante e, por isso, tenho certeza de que não será um tempo desperdiçado. Como podem perceber, temos muitos convidados. Resolvemos realizar uma atividade muito especial: cada um dos seus filhos apresentará aos demais colegas seus animais de estimação e como os conseguiram. Acredito nesta iniciativa como um complemento à nossa missão, que visa colocar as crianças em contato com aquilo que os hábitos ocidentais desvirtuaram em decorrência de seu egoísmo e ambição. Levantando os olhos e acompanhando as expressões de surpresa nos rostos, continuou: — Por favor, não me levam a mal. Acho que acabei me excedendo nas palavras. Mas deixemos os discursos de lado e comecemos a apresentação tão aguardada. Vamos iniciar por você, Nobuhiko. Fale-nos um pouco de seu amigo.
Atendendo ao pedido do professor, o menino ergueu seu companheiro para que todos pudessem vê-lo e comentou: — Este aqui é o Mordida. Nós demos este nome porque ele mordeu meu pai e não queria mais soltar. Minha mãe sempre diz que eles se merecem. Após uma gargalhada coletiva, era a vez de Luciana. Uma menina de descendência nordestina que possuía um coelho como companheiro. Deixando que seus colegas o segurassem, aconselhou: — Só precisa ter cuidado com os dentes. Ele come o dia todo, mas parece que sempre quer mais. Seguindo o conselho à risca, todos passaram rapidamente o bichinho de volta à dona e voltaram-se para o professor.  Este, percebendo a algazarra generalizada dentro da sala, não resistiu ao impulso de analisar o comportamento dos pais ali presentes. Não conseguiu ignorar aspectos contemporâneos considerados normais naqueles tempos: os olhos pousados sobre as telas dos celulares, as crises de ansiedade, que geravam um entra e sai do recinto, e os alarmes que disparavam do lado de fora. Constatações já realizadas em outros momentos, porém, inconvenientes numa celebração como aquela. Assim, logo em seguida, Issamu convocou Ricardo e Penélope para mostrarem os trabalhos realizados por seus amigos durante os últimos meses.
Mesmo acanhados e nervosos a princípio, as crianças depositaram um cesto sobre a mesa e começaram a retirar inúmeros origamis de seu interior. A surpresa foi geral. Os dedos apontados naquela direção, juntamente dos latidos, mostravam claramente que a excelência havia sido alcançada. Cachorros, gatos, coelhos e periquitos eram mostrados em toda sua riqueza de detalhes. Depois, outras réplicas foram surgindo aos poucos. Estas, entretanto, não apresentavam nenhuma semelhança com os animais ali presentes. Situação esta que fez com que um dos pais, vestindo terno e gravata, antecipasse-se e bradasse com uma voz trovejante: — Posso até estar enganado, mas esses aí não fazem parte da atividade! Com um leve sorriso e, aguardando o homem acomodar-se novamente em seu lugar, o professor respondeu: — Eu sabia que o senhor iria perguntar. Mesmo assim, acho mais adequado que os meninos respondam. Pode fazer a gentileza, Ricardo? Postando-se ao seu lado, falou solenemente:
 — Estes bichos precisam de nossa ajuda. Nosso professor sempre fala dos maus tratos que eles sofrem. Ele disse que não é só aqui no Brasil que os bichos são caçados. No Japão também é assim. Muitos correm risco de extinção e é nosso dever proteger eles. Aprendemos que a arara-azul, a onça pintada, o tucano, a tartaruga e o mico são os mais ameaçados. Isso só no nosso país.  Lá, onde nosso professor morava, é a baleia-azul, o macaco, a foca, o morcego e a lontra.
Colocando a mão sobre o ombro do menino, Issamu disse: — Muito bem. Agora pode voltar para o seu lugar. Deixe que eu continue. Com o braço esticado e trazendo sobre a palma da mão um origami, dirigiu-se aos pais: — Os senhores conhecem a lenda dos mil tsurus? Não? Permitam-me falar um pouco sobre ela. Acreditem, não tomarei muito do tempo dos senhores. Diz a lenda que se uma pessoa dobrar mil tsurus, origamis da ave sagrada japonesa, poderá ter seu desejo mais sincero realizado. Quis apresentar este mito para seus filhos juntamente da proposta de que fizéssemos esta atividade em sala. Entretanto, depois, pensei que isto ainda não seria o suficiente. Deveria contar também com a colaboração de vocês. Por esta razão pedi que viessem até aqui. É provável que estejam curiosos para saberem qual é o desejo da turma, não é? Creio que minha influência possa ter alguma participação na elaboração, estou ciente e não excluo totalmente minha culpa, porém, cabe aos senhores julgarem por si próprios. Era este: toda vez que um animal sofrer algum tipo de violência, sentir dor, que o homem que tiver realizado aquela maldade sinta, na mesma medida, todo o sofrimento daquele animal. Pode parecer simplório, concordo, mas todos aprovaram a ideia. E estou satisfeito com este desfecho.
Percebendo que a atenção da platéia continuava sobre sua pessoa, Issamu deu um sinal para que Penélope buscasse o cesto. Enquanto ia passando e entregando um tsuru a cada pai, o professor lembrou-os: — Não pensem que já é tarde e que nada mais possa ser feito. Muito pelo contrário. Cabe a todos nós – principalmente aos senhores – não fazerem da indiferença a sua bandeira. Os animais estão longe de nossos cuidados? Sim, da mesma forma que milhões de nossos semelhantes. E nem por isso nós os abandonamos à própria sorte. Em um mundo onde as fronteiras evitam apenas a passagem da solidariedade e da compaixão, estão escancaradas para a cobiça e a tolice. Espero que o verde não seja apenas a cor predominante nos olhos dos senhores, mas também que esteja ao redor de suas casas e no interior de suas empresas. Precisamos de tantas coisas nesta vida? De tantos carros, celulares, roupas, enfim, precisamos comer tanto? Acho que não. Não pensem que sairemos em puni de todas estas atrocidades. Cedo ou tarde teremos de nos haver com as consequências, das quais não gostaria que seus filhos tivessem que lidar. É isso.   
De repente, a campainha que anunciava a chegada do intervalo ressoou em toda a sua fúria, sendo acompanhada por um aglomerado de vozes e cadeiras que iam aranhando o assoalho e proporcionaram um esticar de pernas e braços incontroláveis.  Distribuindo cumprimentos e acenos de adeus, o professor Issamu despediu-se dos pais e de seus respectivos alunos, sem deixar de notar, é claro, que vários tsurus iam sendo esquecidos sobre os assentos e, com uma ligeira mesura, não pôde deixar de responder da forma mais honrada que conhecia aquele gesto de gratidão: arigatou.

O RETORNO DO PAPA



Deixando os cumes nevados e as extensas campinas revelarem o mistério da criação ou mesmo a presença da divindade, ele observava obstinadamente os flocos de neve contornarem a estátua que saudava os visitantes. Localizada na região central da Itália, a igreja San Pietro della Lenca ou santuário João Paulo II, era o refúgio ideal para aqueles que faziam da contemplação e do silêncio o alimento de suas existências. Alternando infinitamente entre uma faceta realista e outra sonhadora, Ricardo não pôde perceber que seus pensamentos começavam a ganhar voz, criando um ambiente de loucura no interior do veículo. Voltando a si devido ao resfriado contraído por sua passageira, comentou enquanto revirava o porta-luvas: — Antes de irmos, não se esqueça de verificar se as portas estão bem trancadas, tudo bem? Limpando o vidro embaçado, Penélope respondeu com um ar de irritação resultante das baixas temperaturas, enquanto deixava o automóvel: — Ninguém roubaria o carro num frio desses, ninguém sobe esta colina num tempo desses!  
Afundando as botas sobre a neve fofa e ignorando por completo as rajadas que cortavam seu rosto, Ricardo seguiu forçosamente em direção à imagem e, após fazer uma varredura completa, perguntou: — A câmera está ligada? Confira se está tudo funcionando perfeitamente. Precisamos ser rápidos, logo vai começar a missa. Com um dos joelhos ainda dobrados, Penélope deu um close em seu amigo e falou: — O equipamento de gravação está pronto. Só não entendo por que do revólver. Você acha que os ladrões podem voltar? Com uma das mãos apoiada no cabo de sua pistola, ele argumentou: — Mesmo estando de folga, continuo policial. Lembra? Excesso de prudência nunca foi um pecado. Sua falta é. E falando em pecado... , disse, indicando a escultura de bronze. Posicionada ao seu lado e observando-a através de sua lente, Penélope foi concluindo a frase: — Karol Józef Wojtyla...
Forçando a porta da igreja, Ricardo mostrou gentileza e deixou que Penélope adentrasse o recinto. Ali, ambos reservaram algum tempo para conhecer o ambiente. Primeiramente, constataram uma diminuição na opressão causada pelo frio. Depois, perceberam duas fileiras de bancos, tanto à direita quanto à esquerda. E, por último, um estreito caminho que levava ao altar. Mudos, ambos foram em sua direção. Duas chamas insistiam em tremeluzir e uma bíblia parecia esquecida sobre a mesa. Pousando a câmera sobre ela, Penélope comentou: — Parece que o relicário roubado já foi recuperado. Era por isso que viemos até aqui, não? Era esse o motivo da inquietação? Se foi, caso encerrado e já podemos voltar. Calado, voltado para uma pintura de João Paulo II que cobria boa parte da parede, Ricardo questionou: — Caso resolvido? É o que você acha? Tudo bem. Vamos, diga-me o que você sabe sobre ele até o momento?
Tateando os bolsos do sobretudo, ela apanhou um caderno de notas e, ao folhear as primeiras páginas, começou:
— Ora, sei aquilo que todo mundo sabe. São informações coletadas junto aos órgãos responsáveis pela investigação, da qual você faz parte. Deixe-me ver... o roubo do relicário contendo o sangue de João Paulo II ocorreu no dia 27 de janeiro de 2014. Invadiram esta mesma igreja na madrugada de domingo para segunda e levaram uma das últimas amostras de sangue coletadas após a tentativa de assassinato sofrida em 1981. Logo após o ocorrido, uma força tarefa da polícia italiana, apoiada por cães farejadores, vasculhou toda a região em busca dos responsáveis. Alguns dias depois, encontraram três suspeitos que confessaram o delito. Diziam que estavam atrás dos fios de ouro que adornavam o crucifixo, mas não sabiam da existência do sangue. A peça onde a pequena cruz ficava guardada foi encontrada nos arredores da casa de um dos bandidos. Da mesma forma que a ampola. Porém, esta estava vazia.
Terminado o relato, Ricardo tateou os arranjos de flores e sentiu a fragrância e toda sua delicadeza. Não olhou para Penélope. Disse instantes depois de sacar a arma e apontá-la para o rosto da jovem: — Outro dia eu tive um sonho. Permita-me contá-lo. Estava no futuro, entre as décadas de 2040 e 2050. Ainda trabalhava como policial. Entretanto, estava velho, doente e preparado para morrer. Havia deixado a fé para trás. Gangues ditavam as leis das ruas e não era fácil conter a barbárie. Todos os dias eram expedidos sentenças de exílio espacial, decorrentes dos confrontos por água e comida. As ruas e avenidas estavam decoradas com cartazes que diziam que para um mundo sem amor o Papa iria voltar. Então, num final de tarde, quando tentávamos capturar dois líderes de gangues locais, descobri que os mesmos estavam apoiando uma organização religiosa chamada Wojtylas. Existia a suspeita de que eles tinham um plano de clonar Karól Wojtyla. Quando descobri o paradeiro daqueles delinquentes, tive a comprovação de que não se tratava de um boato. Lá estava ele, sob a cabeça de centenas de marginais, no alto de um prédio, vestindo um manto e apoiando-se em seu cajado. Dizia algumas frases inaudíveis daquela distância. Só consegui discernir seu rosto minutos depois, com o corpo já inanimado sobre o cimento. Quando olhei novamente para o alto e tentei compreender o que tinha acontecido, despertei.
Penélope abismada com aquela conversa e com o fato de ter uma pistola apontada para seu rosto, perguntou: — Por que você está falando isso? Não estou entendendo. Com o término de uma gargalhada, ele falou: — Desculpe pela brincadeira. Você deve estar achando que enlouqueci. Não tiro a sua razão. Mas deixe eu te perguntar uma coisa antes de tudo: qual foi o primeiro pensamento que te ocorreu quando você leu sobre o roubo do sangue? Da minha parte foi instantâneo: irão cloná-lo. Sim, parecia óbvio. Ainda mais sabendo dos tipos de interesses diabólicos que movem os homens. E foi por causa deste tipo de inclinação, para o mal, que estou aqui. Primeiramente, peço desculpa por ficar o tempo todo com esta arma apontada para você. Necessito que entenda: eu precisava me confessar, necessitava de uma testemunha. E por isso a convidei. Por favor, ligue a câmera e grave. Como você mesmo comentou, o sangue nunca foi encontrado. Não foi porque eu não quis que fosse. Eles ofereceram seus serviços e eu aceitei. Não foi difícil retirar um pouco do sangue e guardá-lo.
 Aquele sonho era prova suficiente para dar crédito ao que eles pregavam. Era uma visão do nosso futuro, do meu futuro. Lá, eu estava sozinho, completamente só, lutando por uma causa perdida, juntando dinheiro para encomendar um novo irmão, uma nova mãe, um novo pai, tudo para reviver minhas lembranças mais queridas. Mas você sabe, eles não seriam os mesmos. Não existe outra chance nesta vida. Agora, uma coisa é certa: sinto-me mortalmente esmagado pelo arrependimento.
E, ao baixar a cabeça por um momento, Ricardo virou-se e engatilhou a arma na direção do quadro de João Paulo II. Repetindo várias vezes um sinal de negativo, gritou: — Você acha que isso aí é amor? Acredita mesmo na consolação de uma imagem? Nem mesmo a ideia de trazê-lo de volta bastará. Não, nada disso. Por trás destes substitutos se esconde apenas o vazio, o nada, o desespero! É uma pena que demorei tanto para entender. Agora, porém, já é tarde demais. O Papa voltará para um mundo sem amor. E eu voltarei também, assim como minha querida família. Mas colocar algo no lugar daquilo que nunca esteve, não torna aquela coisa realmente presente. Muito menos verdadeira.
Com o acionar do estopim, um furo surgiu no centro da pintura. Neste ínterim, entre o disparo e o retirar das mãos que protegiam os tímpanos, Penélope pôde perceber a porta da igreja sendo arranhada e forçada pelo lado de fora, revelando a chegada de cães e policiais. Com inúmeras armas e rugidos apontados em sua direção, só teve tempo de olhar para trás, num primeiro momento imaginando o pior, para somente segundos depois constatar com alívio que Ricardo estava ajoelhado e com os braços erguidos, sussurrando com a cabeça baixa: eu me rendo...

DE VOLTA A GATLIN



Eu não conhecia o caminho, mas bastava olhar em direção ao horizonte para ter a noção exata de que estávamos seguindo na direção certa: pés de milho à altura do motorista e um cheiro característico inundavam todo o interior do caminhão. Fui aconselhado a deixar de lado todo aquele mistério e superstição. Mas como poderia? Parecia, pelo menos para mim, que existia uma estranha ligação envolvendo aquele lugar, seus moradores e a fome presente em nosso cotidiano. Afinal, eu não estava tão certo que eles eram uma exceção em relação à crise alimentar que afligia a maioria dos estados americanos. Não sei, digam o que quiserem, mas ninguém tirava da minha cabeça de que era uma recompensa injustificada. O que aquelas pessoas haviam realizado de tão significativo para obter toda aquela prosperidade? Eu não sabia responder, porém, meu novo companheiro de viagem parecia pressentir o que se passava dentro de mim e, sem tirar os olhos da estrada, perguntou:
— Você parece preocupado, jornalista. Não me lembro de outros como você por aqui. Vai encontrar alguém?
— Com certeza não vim a passeio. Vim tentar responder uma pergunta que há tempos perturba meu sono. Nunca se usou tanto fertilizante como nos últimos tempos. São toneladas de alimentos produzidos. Como pode? É preciso admitir que estas pessoas parecem desligadas do restante do mundo, ou simplesmente o ignoram. Não acha?
— Nisso você está certo, jornalista. Tratam dos próprios negócios e ainda alimentam muita gente.  Não vejo nada de errado nisto.   
Através daquelas palavras pude perceber que aquele motorista estava do lado deles, ou nutria alguma admiração em relação àquelas pessoas. Não podia julgá-lo. Até porque, ainda não éramos próximos e a carona havia sido providencial. Porém, vez ou outra o foco mudava do volante para meus pertences, e assim sucessivamente. Não podendo esconder sua curiosidade, deu prosseguimento à conversa:
— Jornalista, o que traz dentro da pasta?
— Isto? Nada importante. São apenas alguns recortes de jornais, fotos e algumas entrevistas. Juntei muito material de dois anos para cá. Por acaso, o senhor já ouviu falar sobre o incidente do milharal? Estou tentando entender se existe alguma relação entre aquele ocorrido e a aparente blindagem que esta cidade desenvolveu contra o aquecimento global e a escassez de alimentos da qual somos afligidos atualmente.
— Não sei aonde quer chegar com estas coisas, jornalista. Mas se me permite dar um conselho: esqueça. É perda de tempo. Mas, se veio de tão longe para procurar problemas, tudo bem. Fique a vontade. Apenas lembre que as pessoas daqui não gostam de visitantes. Isso eu posso garantir. Mesmo eu não sou bem-vindo. Apesar de elas dependerem de mim.
O silêncio decorrente daquele comentário soava quase como uma ameaça, e isso começou a me incomodar. Toda vez que ouvia estamos quase lá, perdia o controle sobre meus pensamentos:
 — Não lhe parece curioso nunca haver problemas na agricultura deste lugar? Quero dizer, nenhuma praga, granizo ou estiagem? Nada. Foi complicado encontrar alguma reportagem sobre este episódio. Tenho a impressão que a imprensa da época simplesmente divulgou aquilo que a policia havia reportado. Nem se deram ao trabalho de investigar, vir até aqui checar se tudo aquilo correspondia à verdade. — Nomes como Vicky, Burt, Issac e Malaquias não lhe soam familiar?
— Sim, jornalista. Nome de gente morta. Faz décadas que frequento restaurantes e cafés existentes na maioria das rodovias que cortam este país e nunca ouvi. Você é a primeira pessoa que desenterra estes nomes. Jornalista, você não tem família? Não teme aquele que anda por trás das fileiras?
— Eu tenho mulher e filha. E foram elas que me fizeram duvidar de toda esta crendice. Ora, existe alguma cidade ao redor do globo que possua índices de natalidade tão baixos quanto esta? Onde estão as crianças? Isto é uma coisa absolutamente anormal, muito longe das recomendações bíblicas.
Então, de repente, abri minha carteira e lhe mostrei uma pequena fotografia de minha família. Contemplou-a e logo em seguida a devolveu, dizendo:
— Você possui uma bela família, jornalista. Deveria estar com elas. O tempo corre rápido e algumas escolhas podem custar caro. 
— E o senhor? Tem filhos?
—Eu? Não. Foi uma decisão que eu e minha esposa tomamos já no primeiro ano de casamento. E não nos arrependemos.
—O senhor sabe qual foi a conclusão que cheguei depois de tanto tempo estudando todas esta história de seitas e sacrifícios? Que tudo não passa de uma grande besteira. Penso que estas pessoas deixaram de ter filhos, isso sim, porque os fertilizantes os deixaram estéreis e por esta razão tornaram-se reclusos e desconfiados. Optaram por nunca presenciar o choro noturno; renegaram o abandono de serem chamados de pais e avós; disseram não a presença de jovens namorando nas praças. Na verdade, não eliminaram as crianças por ordem daquele que anda por trás das fileiras, como infantilmente acreditam, não, era a ganância que andava ali. E pagaram o preço.
Quando terminei e olhei para o seu rosto, senti a velocidade diminuir gradativamente. Havíamos chegado a Gatlin. Antes de desembarcar e ir me despedindo, ele falou:
— Ele realmente tinha razão, jornalista. Sabia que você viria. Falou sobre sua descrença, seus pecados e da chegada do apocalipse. Disse que você traria a fome. E que eu deveria trazê-lo até aqui. Agora, desça e siga seu destino. E que nosso senhor tenha pena da sua alma.
Dando um passo para trás, vi os pneus cantarem e o milharal sendo revelado. Por um instante, protegi meus olhos do sol poente. E quando voltei a discernir onde estava, fui alvejado pelo brilho prateado da foice meia-lua, da machadinha e do sacho, os quais revelaram a identidade daquelas pessoas à minha frente e as razões de toda aquela fartura: ali estavam as crianças do milharal, sobreviventes do incidente, conscientes da minha chegada, e também do meu sacrifício.

SOLIDÃO



SOLIDÃO
                                                                             Desci da minha
                                                                             Torre de marfim
E não achei mundo nenhum (Jack Kerouac)

Esfregando ininterruptamente as mãos, o padre Arlindo buscava espantar o frio que congelava os dedos e lacrimejava seus olhos. Por um instante, acreditou tratar-se de lágrimas resultantes da indiferença demonstrada pelas pessoas daquela vila, mas na verdade, no fundo de seu coração, ele já havia perdoado a todos da mesma maneira que Jesus o tinha feito no passado. E esta confiança depositada nas palavras provindas do evangelho contribuiu para espantar o medo de seu coração, trazido principalmente pelo vento e pelo uivo dos lobos.
A princípio, seus passos vacilaram. A neve chegara pouco acima dos tornozelos, e a visão de uma chama no pico da montanha o intrigara e imobilizara seus pés. Sem saber o real significado daquele clarão, Arlindo continuou em frente cercado por duas fileiras de casas, tanto à sua direita quanto à esquerda. Das janelas era possível perceber que a celebração natalina seria auspiciosa, graças ao retorno da energia elétrica e a certeza de vinho em abundância. Entretanto, em nenhum momento passou pela sua cabeça compartilhar daquela alegria com aqueles moradores, mesmo não existindo cercas ou muros dividindo as residências. Aquilo, como já havia percebido em outras oportunidades, parecia uma brincadeira de mau-gosto, algo como um convite a bater canelas estrada a fora tendo no encalço algum cachorro raivoso pronto para agarrar a primeira perna que encontrasse.
Com tudo isto em mente, Arlindo não se incomodou com as janelas que eram fechadas ou com as cortinas que deslizavam bruscamente, aceitava tranquilamente sua fama de inconveniente e deixara para Deus julgar suas ações. Assim, convicto e, percorrendo o olhar pelas moradias, percebeu uma cujas luzes não estavam acesas. Era a de Ricardo. Um jovem que havia deixado o Brasil após as eleições presidenciais de 2014 e bradava ter feito a melhor opção, devido, principalmente, aos boatos de um possível golpe de Estado e a volta da ditadura militar.
Ricardo morava sozinho. Aspecto comprovado no momento em que Arlindo adentrou o recinto e vasculhou as paredes em busca de um disjuntor. Com o imóvel iluminado, tudo foi fazendo sentido: a árvore quebrada, as roupas espalhadas pelo chão, o aparelho de TV fora do ar e as garrafas de vinho esvaziadas. Sim, a solidão retira as energias e nos faz recolhermo-nos antes da troca de presentes. Desta maneira, vasculhou o quarto em busca de algum sinal de vida. Nada encontrou. Somente a cama inusitadamente arrumada e uma folha de caderno repousando sobre ela. Era algo estranho, e o silêncio era tamanho que seria possível ouvir as batidas de seu coração do outro lado da rua.
Então, aproximou-se e apanhou o pequeno pedaço de papel. Desdobrando as três partes com cuidado, começou a leitura:
CARTA DE DESPEDIDA
                                                                                             Para Aldolino (meu pai)
Já faz exatamente uma hora que estou aqui sentado nesta praça. Propositalmente, deixo o ônibus seguir seu caminho. Observo os rostos em busca do seu. Na verdade, já perdi as contas de quantas vezes acreditei ser você no meio da multidão. Mas sejamos sinceros: acabou. Minha indiferença moldou o presente e não deve alterar o futuro. É certo que criei uma couraça para me defender de tudo o que vinha de você e, de certa maneira, deu certo. Ou é o que eu achava. Quando o telefone tocou, pensei que era você do outro lado da linha. Mas não era. Outro telefonema seu? Não nesta vida.
Resolvi fazer um esforço e caminhar até o local onde você está. Sabia, desde já, que muitas lembranças iriam acompanhar-me neste trajeto. Mesmo assim, fui até o seu encontro. Pergunto-me desde já: por que tanta luta? Digo isso porque fiquei impressionado com a nossa ignorância. Você, deitado naquela maca, orgulhava-se por ter impedido que lhe amputassem a perna. Eu, parado em frente à porta do hospital, travava uma batalha sem fim contra o meu orgulho e o fato de nunca ter demonstrado fraqueza. Na verdade, ambos desperdiçamos a nossa chance. Eis o fato.
Cheguei pela manhã e, infelizmente, as visitas ocorriam apenas no período da tarde. Sim, naquela hora pude perceber que no fundo eu me importava. Esperei as atendentes se distraírem e atravessei o corredor em busca do seu quarto. Um pouco antes, percebi seu nome escrito numa lousa. Quer saber o que estava escrito? Gravíssimo. Não que você já não soubesse. Afinal, sua determinação em melhorar contrastava com o pacote repleto de remédios ao qual você se apegava com tanto afinco. Foi difícil deixar aquele lugar, mas aquilo era uma despedida, e acredito que a morfina era a melhor companhia a partir de então. Por mais que eu quisesse ficar.
Daí você se foi. Então, restava apenas uma coisa a fazer: deixar o rio levar aquilo que o fogo jamais poderia extinguir. Porque, mesmo ele, o rio, jamais conseguirá levar consigo o absurdo desta existência. E por que digo isso? Pelo simples fato de que nunca esquecerei as palavras que me vieram à mente no momento em que fui buscar suas cinzas no crematório e o atendente disse: “Seu pai está ali, naquela prateleira, dentro da ânfora”. É ridículo, eu sei, mas nada mudou desde então, tudo permanece igual: Éramos duas pessoas que nasceram e precisavam viver... mesmo muitas vezes não querendo.  
Blumenau, 12/12/2012
O padre Arlindo percebeu que a mensagem era interrompida de forma abrupta e entendia perfeitamente a razão de tudo aquilo. Nesta vida, tudo terminava muitas vezes sem explicações. Era como suas pregações, lembrava, as quais sempre terminavam com um sermão contra aqueles que desvirtuavam o real sentido do sangue de Cristo e seu exemplo. Agitado por estas reflexões tornou a dobrá-la e recolocou-a sobre a cama. Virou-se e estudou o ambiente à sua volta. Nas paredes, mensagens coladas expunham frases e sentenças filosóficas. No teto, figuras de planetas e astronautas decoravam-na e lembravam que além dos limites do planeta Terra poderia existir outras possibilidades, alguma realidade diferente, longe de todo este silêncio forçado e opressor.
 Então, já pronto para partir, Arlindo sentiu de súbito a corrente de ar e tomou consciência das cortinas esvoaçantes. Após um espirro anunciar a chegada de um resfriado, dirigiu-se à janela. A intensidade da nevasca era impressionante. Era praticamente impossível visualizar qualquer coisa que fosse naquela tempestade, exceto, uma grande fogueira no topo da montanha. E, de repente, esgueirando-se pela porta entreaberta, apagou as luzes e, ao fechar a porta as suas costas, disse para si mesmo: Espero que você encontre aquilo que procura meu filho. Que volte a encontrar os seus. Nem que seja em outro mundo.